Tom Stoppard encerra quarto dia da Flip em conferência lotada

PARATY ¿ A última mesa deste sábado (05) na 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o horário mais nobre do evento, coube a uma conferência ministrada pelo dramaturgo inglês Tom Stoppard. A Tenda dos Autores estava completamente lotada, com pessoas sentando até no chão para poder assistir ao escritor. Considerado o convidado unânime deste ano, talvez a estrela maior da festa por sua longa trajetória dedicada ao teatro, Stoppard fez de sua palestra uma mistura de entrevista e conversa no divã, mediada por Luís Fernando Veríssimo.

Marco Tomazzoni |

Visivelmente nervoso, armado de perguntas escritas de forma irrepreensível, o brasileiro começou bem, mas, tímido, não soube domar a verve indômita de Stoppard, cuja mente divagava entre as perguntas sem se fixar em nenhum assunto com muita especificidade. No fim, a oportunidade serviu mais para o público conhecer o passado e conferir de perto algumas opiniões de um grandes nomes da dramaturgia mundial, que completou 71 anos esta semana, em Paraty.

Após ouvir uma pequena biografia lida por Veríssimo, que lembrou seus inúmeros trabalhos nos palcos e breves incursões pela direção e romance (que, na verdade, até agora se resumem a apenas uma tentativa), Stoppard quebrou o protocolo e, de pé, se dirigiu à platéia. Agradeceu a "maravilhosa recepção" dos últimos dias e, ao lembrar que é conhecido no Brasil mais por seus roteiros de cinema do que pelas peças, lembrou cenas que gostaria de ter escrito. Sem preconceito, botou lado a lado "O Terceiro Homem", clássico de Carol Reed, "Indiana Jones e a Última Cruzada", "O Fugitivo", com Harrison Ford, e terminou com "Chinatown", na sua opinião, o exemplo sublime da "metafísica da escrita criativa", quando o espectador passa a visualizar até coisas que não estão na tela.

Ao longo do debate, Stoppard refletiu sobre conservadorismo, da sorte que teve quando começou a escrever ("havia uma atenção maior a autores estreantes de teatro do que a alguém que estivesse lançando seu sexto romance, por exemplo") e repetiu algumas das idéias expressadas durante a coletiva de imprensa , como a de que não acredita em uma hierarquia de qualidade nas artes. Além disso, reafirmou que não está escrevendo nenhuma peça agora. "Não sei quantas peças ainda vou escrever, mas tento ter uma pronta a cada três ou quatro anos. Gostaria muito de estar trabalhando em uma. Um escritor precisa colaborar com essas coisas horrorosas que nos cercam, mas isso não é suficiente."

Ameaça de guerra

Vallejo encarnou mais uma vez papel de provocador / Divulgação

A mesa anterior teve duas figuras que, no fundo, não poderiam ser mais antagônicas. Apesar da idade e dos cabelos grisalhos, o holandês Cees Nooteboom e o colombiano Fernando Vallejo guardam quase nada em comum. Enquanto o primeiro, figura de destaque na literatura mundial, cotado várias vezes para o prêmio Nobel, aborda questões filosóficas e artísticas em seu trabalho, Vallejo viaja por uma escrita mais urgente e selvagem, não só na ficção, mas também em ensaios virulentos contra a igreja católica, o presidente Álvaro Uribe (sua vítima preferida) e o que mais tiver o azar de passar por sua cabeça.

Depois de ambos lerem trechos de seus livros, Vallejo, em sua primeira intervenção, driblou a pergunta do mediador, Ángel Gurría-Quintana, e fez um discurso que a princípio parecia apaziguador, mas que guardava, em seu caso, mais do mesmo. "Estou muito feliz por estar em Paraty. Não vou falar mal de ninguém, nem do papa, do presidente, política, futebol, ninguém. É uma festa tão bonita, cheia de centenas de crianças na Flipinha. E elas agora têm o que comer, desde que o presidente Lula acabou com a fome no mundo", disparou, sarcástico.

Nooteboom não se conteve e, não pela única vez durante o debate, rebateu as declarações do colombiano. "O que é engraçado é que Fernando é o senhor mais gentil que conheço, embora seja a fúria em pessoa. Sei que há feiúra e tristeza no mundo, mas por que fechar os olhos para a beleza? Quando alguém fica furioso assim, é porque sofreu uma decepção amorosa muito grande", sugeriu. Quintana suou frio, o clima tinha tudo para azedar, mas, por incrível que pareça, o bom humor permaneceu até o final e os embates serviram para divertir a platéia.

O sábado começou com a mesa "Guerra e paz". O debate entre o angolano Pepetela e a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, radicada nos EUA, esteve, como previsto, focado no continente africano. Pepetela, expoente da literatura lusófona, falou sobre a distribuição de renda em seu país natal e criticou o modelo econômico e ideológico que a região tomou. "Estamos seguindo um caminho que nos foi imposto, que a África não escolheu." Em seguida, veio a mesa de Neil Gaiman e Richard Price, até agora uma das melhores da Flip , e o debate entre o escritor italiano Alessandro Baricco e o psicanalista Contardo Calligaris.

No dia de encerramento da Flip, as mesas mais esperadas são a conversa sobre futebol entre José Miguel Wisnik e Roberto DaMatta, a derradeira homenagem a Machado de Assis e o momento que os convidados da festa lerão alguns de seus livros favoritos. Confira abaixo a programação.

- 10h: Os livros que não lemos, com Marcelo Coelho, Pierre Bayard
- 11h45: Folha seca, com José Miguel Wisnik, Roberto Damatta
- 15h: Papéis avulsos, com Ana Maria Machado, Luiz Fernando Carvalho, Sergio Paulo Rouanet
- 17h: Convidados da Flip 2008 lêem trechos de seus livros prediletos (Nathan Englander, Chimamanda Adichie, Neil Gaiman, Tom Stoppard, Cintia Moscovich, Cees Nooteboom, Alessandro Barico, Zoe Heller)

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