RIO DE JANEIRO - A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) destinada a investigar a ação das milícias no estado considerou o depoimento do titular da 35ª DP (Campo Grande), Marcus Neves, fundamental para compreender o funcionamento desse grupo ilegal composto por policiais civis e militares.

O nosso foco principal é entender o funcionamento das milícias, o seu grau de enraizamento no poder público e o seu poder bélico, econômico e político de domínio de território. Isso foi explorado de forma satisfatória no depoimento do delegado. Agora, queremos obter, também, informações sigilosas sobre os tentáculos das milícias na administração pública, revelou o presidente da CPI, deputado Marcelo Freixo (PSol).

Após o depoimento de Neves, a comissão realizou uma reunião fechada onde ouviu os inspetores Lício Modesto Ferreira e Marco Antônio Barbosa, para tratar especificamente do caso do atentado a bomba contra a 35ª DP e da prisão de Ocian Gomes Ranquine Salustiano e de seu pai, Antônio Santos Salustiano, acusados de terem fabricado o artefato.

Estrutura das milícias

O titular da 35ª DP começou seu depoimento definindo as milícias como grupos armados que exploram atividades econômicas, que vão do transporte alternativo e da distribuição de gás de cozinha à redistribuição do sinal de TV a cabo, e que impõem sua força através da execução das pessoas que se opõem a elas ¿ o delegado mostrou, na reunião, fotos de pessoas assassinadas por esses grupos, além de uma lista com cerca de 30 nomes de supostos integrantes da milícia conhecida como Liga da Justiça.

A questão das milícias tem como pano de fundo o viés político e o lucro fácil pela exploração dos serviços. Temos informações do Ministério Público, confirmadas pela apreensão de uma contabilidade do grupo, de que essa milícia tem um lucro mensal de aproximadamente R$ 2 milhões com a oferta desses atendimentos, informou.

Neves voltou a apontar o deputado Natalino Guimarães (DEM) e seu irmão, o vereador Jerônimo Guimarães (PMDB), como responsáveis por um grupo de milicianos em Campo Grande, zona Oeste do Rio.

"É preciso que fique claro que a atuação da autoridade policial está embasada em investigações e não em questões pessoais, frisou Neves.

O delegado disse ainda que o atentado a bomba contra a delegacia de Campo Grande foi motivado pela prisão, por porte de arma de calibre restrito das Forças Armadas, de um policial militar conhecido como Filé, que, de acordo com o titular, fazia parte da Liga da Justiça. Neves ressaltou que não existe tráfico de drogas zona Oeste da capital.

Não existe traficante em Campo Grande, já que, ao assumir o controle da região, os milicianos assassinaram todos os membros do tráfico por eles identificados. Se tem uma coisa que demonstra a eficiência das milícias, essa coisa foi acabar com o tráfico de drogas onde elas agem. Quando tive o primeiro contato com o tema, equivocadamente, pensei que a milícia seria um mal menor em relação ao tráfico e que seria mais facilmente combatida pelo poder público. Rapidamente percebi que estava equivocado, já que os milicianos estão infiltrados em todos os setores da sociedade, descreveu.

Disque-Milícia

Questionado sobre o comportamento da população em relação às ações da polícia no combate a esses grupos, Neves contou que, timidamente, a população já começou a se mobilizar e a fazer denúncias.

A população vem aplaudindo nosso trabalho. Em alguns casos até se apresenta de forma espontânea para prestar depoimento, disse.

O presidente da CPI aproveitou para divulgar que, desde a última segunda-feira, quando foi inaugurado, o Disque Milícia (0800 28 20 376) já recebeu 90 denúncias.

Recebemos dez denúncias no primeiro dia de funcionamento, no segundo foram 43 e no terceiro, 37. Isso demonstra o quanto a população está empenhada em ajudar no combate às milícias. As queixas são, em sua maioria, feitas por moradores de comunidades localizadas, principalmente, na zona Oeste do Rio e na Baixada Fluminense, e que são dominadas por esses grupos armados do qual fazem parte policiais civis e militares, observou Freixo.

O deputado do PSol afirmou que a oferta desse serviço se justifica pela necessidade que a comissão tem para colher informações de forma sigilosa sobre os crimes praticados pelas milícias no estado.

Precisamos muito da contribuição dos cidadãos, a quem garantiremos o sigilo e o anonimato absolutos. As informações passadas através destas ligações serão cruzadas por analistas especializados, convocados pela CPI, ajudando a orientar o trabalho da comissão, explicou o presidente da CPI.

Próximos passos

Na próxima segunda-feira, a CPI vai se reunir, no Ministério Público Estadual, com o procurador-geral de Justiça do estado, Marfan Martins Vieira. Na quinta-feira, a comissão fará uma reunião, a portas fechadas, para analisar os documentos recebidos.

Vamos avaliar uma quantidade enorme de documentos oficiais e as denúncias recebidas através do Disque-Milícia. Também vamos definir os próximos passos da comissão. Defenderei que a próxima pessoa a ser ouvida seja o delegado da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), Cláudio Ferraz, finalizou Freixo.

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