Terror às margens do Danúbio

Marcel Gascón. Bucareste, 13 abr (EFE).- Mais de 2 mil pessoas morreram e milhares de outras tiveram a vida arruinada durante a construção do Canal Danúbio-Mar Negro, a maior obra de engenharia da história da Romênia cuja construção começou 60 anos atrás.

EFE |

Participar da obra foi o inferno em vida para os dissidentes comunistas, que foram obrigados a trabalhar.

Milhares de "inimigos do povo" deixaram a pele e a vida na construção do terceiro maior canal do mundo, um projeto megalomaníaco e de rentabilidade duvidosa que deveria abrir uma via de navegação entre o Danúbio e o Mar Negro, e foi a pedra angular da política soviética de obras faraônicas na Romênia.

Comboios de prisioneiros "burgueses" chegavam a partir das prisões e centros de reeducação de todo o país para as margens do grande rio europeu, para engrossar as fileiras de operários.

Em 1950, quando começaram os trabalhos forçados, Nicolae Purcarea, então com 27 anos, purgava no terrível campo de reeducação de Pitesti por participar de um movimento fascista.

"De dia trabalhávamos 12 horas, quebrando e transportando pedras.

Às 5h da manhã, saíamos para trabalhar e ficávamos lá até a tarde.

Os acidentes eram contínuos. Uns morriam de frio, outros de impotência, de cansaço. De noite ocorria à reeducação pelo terror", relembra Purcarea à Agência Efe.

A onda de detenções que começou em 1947 com a instauração da República Popular Romena gerou superlotação nas prisões por causa do grande número de militantes do fascista Guarda de Ferro, como Purcarea, e também por democratas, monárquicos e sacerdotes.

Engenheiros, médicos, professores, camponeses rebeldes, militares e todos aqueles que, até sem terem se rebelado, não tinham acolhido com suficiente entusiasmo a chegada do marxismo leninismo, eram candidatos a trabalhar como escravos no canal.

"Devíamos cuidar de todas as nossas conversas, não existia qualquer lealdade, fomos convertidos em robôs", conta Purcarea, que lembra as perguntas que lhe eram feitas ao final das sessões de tortura: se continuava acreditando em Deus.

"Eu respondia que sim, e o torturador dizia: 'ainda temos mais trabalho contigo'", relembra com lucidez aos 87 anos, 20 dos quais passou nos centros de detenção comunistas.

Um protesto contra os impostos cobrados dos camponeses levou ao canal o contabilista Stefan Rogoz, aos 28 anos.

"Éramos obrigados a cavar quatro metros cúbicos por dia cada um, quem não cumprisse a meta não recebia comida", lembra Rogoz.

"Retinham nosso dinheiro no alojamento para a alimentação, para a roupa e o equipamento, e também par proteção. Trabalhávamos para pagar a eles por vigilância e proteção!", conta com um riso amargo.

Em meio ao terror, a demência dos carcereiros provocou também situações engraçadas, como quando as autoridades ofereceram aos peões não instruídos aulas de alfabetização.

Médicos, advogados e professores candidataram-se na mesma hora para escapar do extenuante trabalho.

"Militares que se esforçavam para escrever a letra 'a' ensinavam intelectuais a escrever. Quando se deram conta do absurdo, fecharam a escola", relembra Rogoz.

Após a morte de Stalin em 1953, que tinha sugerido a obra ao primeiro ditador romeno, Gheorghe Gheorghiu-Dej, terminou também o apoio de Moscou ao canal e diminuiu a atividade que o regime chamava "túmulo da burguesia".

O último ditador romeno, Nicolae Ceausescu, manteve os trabalhos por mais de duas décadas até inaugurar a obra em 1984.

A faraônica infraestrutura custou, no câmbio atual, mais de 2 bilhões de euros e por ela passaram 20 mil prisioneiros. Tudo para um megalomaníaco projeto de duvidosa rentabilidade que, segundo estimativas oficiais, só amortizará o investimento depois de 600 anos de funcionamento. EFE Mg-as/dm

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