Terapia comunitária ajuda grupo a superar problemas afetivos

Terapia comunitária ajuda grupo a superar problemas afetivos Por Marici Capitelli São Paulo, 13 (AE) - Não é um grupo de auto-ajuda. Muito menos uma sessão de psicoterapia.

Agência Estado |

Também não se trata de análise freudiana. Mas é um espaço onde, juntas, pessoas de todas as classes sociais colocam para fora suas dores e medos. É a Terapia Comunitária (TC), usada para dar suporte ao sofrimentos do dia-a-dia.

E quais são os sofrimentos do dia-a-dia? "A TC é um espaço para discutir o que aflige as pessoas, tirando o sono delas e doendo na alma. É compartilhar com os outros situações que achamos que são só nossas. Através do outro, podemos nos ver", diz a enfermeira Vania de Carvalho Ferreira, uma das coordenadoras da TC do Hospital Geral de São Mateus, zona leste de São Paulo, único que oferece o serviço na capital paulista.

Criada há 20 anos na Favela Pirambu, em Fortaleza, no Ceará, a técnica já é adotada pelo Ministério da Saúde em sua rede primária de atendimento. A intenção é incluí-la no Sistema Único de Saúde (SUS). Para isso, 1.100 profissionais estão sendo capacitados como mediadores, em 30 núcleos no País.

Os participantes da TC são médicos, moradores da comunidade, enfermeiros, pacientes e acompanhantes. Participa quem quiser. Também se pode cantar, declamar poesias, contar piadas e dizer provérbios. Desde que tenham relação com o tema da sessão. Semana passada, em uma das reuniões, uma participante começou a chorar. Alguém se pôs a cantar : "Encoste a sua cabecinha no meu ombro e chora e conte suas mágoas todas para mim...". A sala virou uma cantoria.

Mas com tanta gente na TC (há grupos com até 60 pessoas), é necessário respeitar algumas regras. Entre elas está não dar sermão ou conselhos aos colegas de terapia. Carmen De Simoni, médica sanitarista e coordenadora da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Ministério da Saúde, diz que a proposta é diferente das terapias convencionais. "A TC não se propõe a fazer intervenção terapêutica, e sim a dar suporte a um grupo social."

A experiência de dois anos na TC no hospital, segundo Vania, mostra que os assuntos mais discutidos são as perdas afetivas. O segundo tema que mais aparece são os medos, entre eles o de perder o emprego ou não dar conta de criar os filhos, além de problemas com álcool.

Em São Mateus, a sala de TC, de tons rosa e lilás, funciona em frente ao necrotério. Mas em alguns dias a terapia é realizada na sala de espera do ultra-som ou no meio das clínicas médicas. Pouco antes do início do trabalho, todo mundo que está no local é convidado a participar.

De maneira democrática é escolhido o tema da sessão. Algumas pessoas falam sobre o que as está afligindo e há uma votação. No último encontro no hospital, o grupo decidiu discutir o medo de uma mãe de que o filho de 22 anos, que sofreu um acidente, não consiga retomar sua rotina diária por causa de seqüelas. A mulher falou de suas angústias. Os colegas fizeram perguntas que a fizeram refletir. Muitos contaram histórias semelhantes que enfrentaram.

"Não conseguia discutir esses medos com minha família. Consegui aqui. Estou leve e acredito na minha capacidade de lidar com o problema", disse Marilza Parizotto, 44 anos, a que chorou na sessão.

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