Tenente entrou em contradição durante a acareação, diz promotora

RIO DE JANEIRO ¿ A promotora Hevelize Jourdan Covas Valle, do Ministério Público Militar (MPM), disse nesta sexta-feira que o tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade entrou diversas vezes em contradição durante a acareação realizada no 1º Batalhão de Polícia do Exército, na Tijuca, zona Norte do Rio. O militar é suspeito de ter entregado os três jovens do Morro da Providência aos traficantes da facção rival, no Morro da Mineira.

Redação |

Na primeira acareação, o capitão Laerte Ferrari Alves confirmou que no dia do crime ele deu ordens expressas para liberar os rapazes presos pela polícia. Já o tenente Vinícius disse que não entendeu a ordem dada pelo capitão. A segunda acareação colocou frente a frente o tenente e o soldado Fabiano Eloi, que teria evitado a fuga dos três jovens.

De acordo com a promotora do MPM, o tenente Vinícius entrou em contradição durante seu depoimento enquanto os outros dois interrogados se limitaram a reportar o que haviam feito. Hevelize Jourdan, disse ainda que o capitão e o soldado foram fiéis ao que relataram anteriormente, enquanto o tenente não reforçou nem o argumento inicial de que teria levado os jovens para o Morro da Mineira com o intuito de dar um corretivo neles. Ele ainda tentou atribuir a culpa do ocorrido ao sargento Maia.

Durante as acareações realizadas nesta sexta-feira, os investigadores não conseguiram descobrir se as vítimas foram fotografadas ou filmadas durante a abordagem. A denúncia é de que os jovens foram espancados pelos próprios militares. Na segunda feira, a promotora Hevelize Jourdan deve ouvir a mãe de Wellington Gonzaga Costa, um dos jovens mortos, e o soldado Samuel, um dos onze militares detidos.

Segundo a 4ª DP (Praça da República), que investiga o caso, os assassinos dos três jovens do Morro da Providência já estão identificados. Pelo menos quatro foram reconhecidos por meio de fotos pelos militares que entregaram os rapazes aos traficantes do Morro da Mineira.

Missa e manifestação

Familiares dos três jovens do Morro da Providência que morreram após

AE
Familiares dos jovens mortos na Candelária
terem sido entregues por militares a traficantes do Morro da Mineira, da facção rival, compareceram nesta sexta-feira à missa que lembrou o um ano da chacina no Complexo do Alemão.

A chacina foi realizada pela Secretaria de Segurança Pública, mobilizou 1.350 policiais e matou 19 pessoas. Segundo as famílias das vítimas, a operação foi na verdade um extermínio planejado contra inocentes e que outras operações semelhantes ocorreram em outras favelas cariocas, mas não obtiveram tanta repercussão.

Denúncias da procuradoria

O tenente Gidhetti, o 1º sargento Leandro Maia Bueno e os soldados Fabiano Eloi dos Santos e José Ricardo Rodrigues de Araújo serão denunciados nesta sexta-feira por triplo homicídio qualificado pelos procuradores da República junto ao juízo da 7ª Vara Federal Criminal.

Os sete militares que os acompanharam ao Morro da Mineira, onde entregaram aos traficantes os três jovens moradores do Morro da Providência, serão acusados de co-autoria, por terem se omitido quando podiam evitar os assassinatos. Apesar da diferença, as penas a que estão sujeitos - de 12 a 30 anos por morte - são iguais para todos.

AE/Wilton Junior
Militares patrulham o Morro da Providência
O advogado João Tancredo, representante das famílias dos jovens mortos, recebeu ontem os documentos do processo criminal e vai entrar hoje com uma ação ordinária de reparação de danos materiais e morais. Também será requisitado tratamento médico imediato aos parentes e pagamento das despesas com o funeral e sepulturas perpétuas.

Os procuradores se convenceram da responsabilidade dos militares pelos assassinatos de Wellington Gonzaga da Costa, David Wilson Florenço da Silva e Marcos Paulo Rodrigues Campos, com base no diálogo entre o tenente Gidhetti e os jovens, no caminho para o Morro da Mineira, em uma parada no sambódromo, reproduzido nos depoimentos dos militares. O tenente foi à caçamba do caminhão e questionou os jovens se estavam arrependidos. Um disse: Não. Tô gostando.

O oficial anunciou que eles seriam entregues aos traficantes e admitiu que poderiam morrer. Como nenhum dos demais militares fez nada para evitar a consumação do fato, eles responderão por omissão. Na denúncia, o sargento Maia será apontado como responsável pela negociação com os traficantes. O soldado Rodrigues como quem levou o grupo até o Morro da Mineira e seu colega Fabiano será responsabilizado por ter evitado que um dos jovens fugisse. As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

O caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no sábado, dia 14, e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal (IML), Wellington teve as mãos amarradas e o corpo perfurado por vários tiros. David teve um dos braços quase decepado e também foi baleado. Marcos Paulo morreu com um tiro no peito e foi arrastado pela favela com as pernas amarradas. Os corpos foram encontrados no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

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