"Temos um serviço de saúde que não funciona para o crack"

Para pesquisadora, estratégia brasileira de combate está na contramão do resto dos países que conseguiram controlar o problema

Priscilla Borges, iG Brasília | 26/11/2010 13:08

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Foto: Divulgação CFM

Ana Cecília Marques: problema do crack é econômico e geopolítico

A psiquiatra e neurocientista Ana Cecília Marques estuda a dependência química há 30 anos. Pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ela defende que os gestores devem enxergar o comércio de drogas no mundo como um problema econômico.

“Não adianta os médicos ficarem falando da abstinência e os assistentes sociais da desestrutura familiar enquanto o problema vai muito além”, afirma.

Para a médica, a repressão à chegada das drogas no País tem de ser intensificada e as políticas de prevenção e de tratamento precisam ser descentralizadas, feitas por todas as instâncias de saúde.

Em entrevista ao iG, Ana Cecília se mostrou descrente em relação à eficácia do plano de combate ao crack elaborado pelo governo federal. Para ela, ao contrário de criar unidades de atendimento extremamente especializadas para tratar esses pacientes, todas as unidades básicas deveriam estar preparadas para lidar com as doenças causadas pelo uso de álcool e drogas.

“É essa a recomendação da Organização Mundial de Saúde e, depois de 30 anos de trabalho na área, acho que eles estão certíssimos. Não daremos conta de enfrentar esse problema sozinhos. Todos têm de ser envolvidos”, garante. Confira trechos da entrevista.

iG: A senhora fala que estamos na segunda onda de consumo do crack no Brasil. Quando houve a primeira?
Ana Cecília: Nos anos 90. A segunda começou em 2000. As drogas são um problema econômico. Infelizmente, a humanidade tem assimilado a droga como se fosse um produto qualquer. A gente vê isso com o álcool, que não tem nenhuma regulação. Quem regula a bebida alcoólica é a própria indústria do álcool e isso acontece com outras drogas também.

Em algum momento, se descobriu que as drogas tinham um valor, que poderia existir um mercado que sustenta essa economia. Quem entrou de carona nessa história das drogas foi o adolescente, que era o hippie, e nunca mais saiu. Os países vizinhos, como Colômbia, Peru e Bolívia, tiveram um superprodução de cocaína e inundaram o Brasil com ela.Com uma grande safra, o preço cai e fica acessível para todo mundo. E mais, criam-se produtos mais baratos. Aí surgiu o crack. Já houve ondas de consumo dele no Canadá, nos Estados Unidos e na Europa. Mas obviamente que uma droga suja e barata em países que têm poder aquisitivo e economia forte não dura. A questão das drogas passa pela economia das drogas e pela geopolítica das drogas.

iG: Há diferenças entre o modo como ocorreram a primeira e a segunda onda?
Ana Cecília: Não, foi igualzinha. Existia uma epidemia de crack nos Estados Unidos em 1985. Eles também atravessaram um momento muito difícil, só que durou menos porque eles tinham mais recursos para enfrentá-lo. Eles passaram pelo problema antes e agora sobrou pra nós. Isso tem a ver com essas questões que nós, da saúde e da assistência social, das áreas mais humanas, não reconhecemos muito bem. Os médicos ficam falando sobre a síndrome de abstinência, os assistentes sociais ficam falando da desestrutura familiar, quando o problema vai muito mais além.

iG: O perfil dos usuários mudou ao longo desses anos?
Ana Cecília: Sim. O usuário antes era mais pobre, mais desorganizado, mais novo, menos escolarizado e morria antes. Nem tinha internet para ajudar a difundir conhecimento, então havia menos informação. Hoje, o usuário é mais escolarizado, mais velho, vive com a família – e não na rua, como no começo – e aprendeu a usar a droga.

iG: Como assim aprendeu a usar a droga?
Ana Cecília: Hoje, o usuário tem mais acesso à informação e já morreu muita gente por causa da droga. Provavelmente, esse usuário está desenvolvendo estratégias de consumo, por exemplo, usando a droga duas vezes por semana. Precisamos entender quais são os fatores que estão fazendo com que esse indivíduo viva mais. Talvez eles tenham mais informação, talvez haja um cardápio de drogas maior e ele alterne o uso. Hoje, o usuário discute com você e busca tratamento. Isso não acontecia antes. Hoje, eles batem na porta dos CAPs para pedir ajuda. Temos de aprender a cuidar melhor desse assunto, a tratar melhor, a prevenir melhor, a reprimir melhor. A repressão é muito importante. É importante percebermos também que todas as instituições que se preocupam com drogas têm 10 anos. O Brasil acabou de sair da segunda infância na questão das drogas. O que temos de fazer? Estudar, aprender com os países que já passaram por isso, fazer os levantamentos nacionais para entender o problema e saber qual é a cara do crack no Brasil.

iG: Os dados ainda são insuficientes para que o País conheça essa realidade?
Ana Cecília: A gente sabe muito pouco. Não temos um levantamento nacional que represente o Brasil inteiro. Temos estudos de grupos de populações: estudantes das escolas públicas das cidades mais populosas, o crack nas emergências, nos Centros de Atendimento Psicossociais. É uma colcha de retalhos.

iG: Como mudar isso?
Ana Cecília: Temos de criar grupos interdisciplinares para analisar os relatórios enviados pelos organismos internacionais sobre essas drogas e cuidar disso. A gente tem de ser humilde nesse momento e olhar para as dificuldades que nós temos: um serviço de saúde que não funciona para o crack. O craqueiro precisa que, quando ele chegue perto do tratamento, que o atendimento o engula antes que ele suma em minutos. Isso em todos os níveis da saúde. Não sou a favor de centros ultraespecializados. Em todos os lugares do mundo, a Organização Mundial de Saúde defende o atendimento ao dependente na atenção primária à saúde. O paciente entrou na unidade básica, no programa de hipertensão, a gente tem de investir álcool e drogas. A gente não tem CAPs suficientes, nem bons de prática, nem médicos suficientes, nem psicólogos suficientes pra cuidar das drogas no Brasil. Então, toda a saúde tinha de se envolver nisso. Não adianta ficar inventando, é preciso usar o que temos para cuidar desse problema assim como ele é. Hoje, a minoria dos pacientes que chega à emergência é encaminhada ao CAPs depois. O modelo hoje coloca o CAPs no centro de tudo, como se ele tivesse de dar conta de tudo e ele não dá. Precisa de todo o resto da saúde, da assistência social e da justiça, porque é uma doença complexa.

iG: Como a senhora avalia as internações dos usuários de crack?
Ana Cecília: A gente precisa de especialistas para tratar desses indivíduos. Nos hospitais gerais, como querem colocar leitos para internação, não há especialistas. Começa por aí. Depois, hospital geral não é ambiente para dependente. Ele precisa de silêncio, não pode ter estímulo visual, tem de ficar calmo e quieto. Os hospitais gerais teriam de passar por mudanças, ter alas separadas, com médicos especialistas e equipes multidisciplinares, senão não funciona. Mas é importante lembrar que nem todo mundo precisa de internação. Internamos os casos em que há risco para a própria vida ou a do outro, da família ou dos amigos, ou quando há um problema de saúde muito grave em consequência da dependência.

iG: Na sua opinião, o plano traçado pelo governo é eficaz?
Ana Cecília: Esse “PAC do Crack”? Eu não acredito. Sou uma das céticas. Depois de 30 anos de trabalho na área de prevenção, tratamento e controle social, é a de que deveríamos ter políticas regionais. Melhor ainda, estaduais, que reflitam o que está acontecendo em cada estado. Não é a mesma coisa. Em nenhum momento, a política poderia se aproximar de uma política só, com uma missão só. Por exemplo: as políticas de redução de danos não podem ser únicas para todos os pacientes e para todas as drogas, como tem acontecido no Brasil. Como podemos massificar dessa forma um assunto tão difícil?Há experiências nacionais que tem de ser olhadas e adotadas, respeitando diferenças regionais e estaduais. Acho que a gente está na contramão. Se a OMS fala para colocarmos o tema de álcool e drogas na atenção primária, estamos fazendo centros ultra-especializados. Sou contra. Sou a favor do Programa de Saúde da Família. Acho que está ali a nossa saída. Eles é que podem fazer a detecção precoce e o encaminhamento daqueles casos que eles não conseguem tratar, pulverizando o atendimento, já que droga está em qualquer lugar.

iG: Os médicos brasileiros estão preparados para lidar com essa epidemia?
Ana Cecília: Não, de jeito nenhum. Minha formação é em clínica médica. Depois, fiz residência em psiquiatria e neurociência para entender um pouco desse assunto. Não estou fazendo demagogia. Há muita coisa para entendermos ainda. Temos de formular cursos de capacitação para o Programa Saúde da Família, que já conta com capacitações constantes na base. Precisamos só inserir o assunto.
 

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