Tem que ir apagando o fogo, conta delegado sobre vida de um negociador de reféns

SÃO PAULO - Do lado de dentro da casa, um refém sob a mira do revólver de alguém fora de controle. Olhando no olho do homem armado, um policial calmo, ouvindo muito mais do que falando. Ele mantém o controle, negocia, lê o corpo do assaltante e, às vezes, se expõe mais do que deveria. Longe de tudo isso, sua família o espera em casa. ¿O negociador tem que jogar água para ir apagando o fogo¿, conta Jorge Lordello, delegado de polícia licenciado e pesquisador criminal.

Amanda Demetrio - Último Segundo |

Tanto a Polícia Civil quanto a Militar têm equipes especiais para tratamento destes casos, conta Lordello, e, dentro desta equipe, existem diversos policiais com finalidades diferentes. Entre eles, está o negociador.

O selecionado para esta função deve ser calmo, ter auto-controle e saber se comunicar, já que isso não dá pra treinar, conta o subcomandante do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar de São Paulo, Carlos Eduardo Zólio, que trabalha nesta seleção.

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Homens do Gate em ação após negociação
Zólio conta que, no Gate, os negociadores têm que se voluntariar para a função e já trabalhar na corporação, porque é essencial que ele conheça todas as funções dos outros homens da equipe, destaca o subcomandante.

Os policiais escolhidos passam, ainda, por um curso de três semanas, com grande carga de psicologia, treinamentos práticos, estudos de caso e comunicação (verbal e não-verbal). Neste curso, é comum o intercâmbio com polícias de outros países, como Argentina e El Salvador, conta o subcomandante do Gate.

Na vida pessoal, este homem é trabalhado para ser alguém que consegue digerir as ocorrências. Zólio conta que um de seus homens já foi afastado após uma negociação que falhou, pois ficou emocionalmente abalado. O caso era de um suicida, que mantinha seus parentes presos. Os reféns foram libertados, mas, no final, o homem acabou se matando porque tinha problemas conjugais. Você fica chateado quando alguém morre, vê que foi um descontrole momentâneo, sem volta e, nestes casos, pode achar que falhou, conta o subcomandante.

E, se alguém falha, não é sozinho, destaca. Na hora da ocorrência, o negociador está sempre acompanhado de uma equipe. Pessoas como o anotador, que escreve cada etapa da negociação, os auxiliares da negociação, que podem ser psicólogos dando uma espécie de consultoria e os auxiliares de logística, que ajudam a manter a equipe no local por quantas horas for necessário, cercam o negociador de informações. É este grupo, como um todo, que observa cada reação do que eles chamam de causador da crise.

Eles prestam atenção na reação às palavras ou pode ser um olhar, uma mudança de posição e avaliam o quanto as ameaças aos reféns são verdadeiras ou um simples blefe, explica Zólio. Ele destaca que a polícia só atira em caso de legítima defesa de terceiros, mas este trabalho não é mais responsabilidade do Gate e, sim, dos atiradores da PM.

Em um destes casos, em que todos estavam atentos para os gestos do causador da crise, Zólio conta a história de uma negociação com um peruano. A equipe tentava de maneira insistente a liberação dos reféns, mas só teve sucesso quando descobriu que o tal peruano era ex-militar e respeitava autoridade. O negociador surpreendeu com uma atitude arriscada e começou a dar ordens como se eles estivessem em um quartel. Em um final inesperado, o homem obedeceu as ordens e se rendeu.

Na hora H

Nos casos em que um assaltante acabou de fazer reféns, a polícia chega ao local, isola do resto do bairro, posiciona seus homens em lugares estratégicas e monta todo um aparato que mostra para o assaltante que existe estrutura para os manter ali por horas. Por fim, corta-se a luz e a água do local para começar a vencer pelo cansaço os suspeitos, segundo Lordello. Toda a equipe mantém comunicação com o negociador, seja por ponto eletrônico ou ao vivo.

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Negociadores do Gate em ação

Com o cansaço do suspeito, entra a habilidade de um negociador bem formado. Ele vai atendendo aos pedidos do causador da crise em troca dos reféns até o momento em que ele aceita se entregar - normalmente na presença da imprensa, de parentes e de advogados, para ter a garantia de que não morrerá em confronto.

Outro truque de quem negocia é começar pela liberação de alguém que possa estar passando mal dentro do cativeiro, diz Zólio.  A equipe sugere que este refém seja libertado sob o argumento de ser um problema a menos dentro da casa. Por política, o Gate não negocia troca de reféns, não dá armas e não dá carros, de acordo com Zólio. Após o caso do seqüestro da menina de 15 anos, Eloá Pimentel, quando uma das reféns acabou por voltar ao cativeiro, esta política foi questionada. O Último Segundo entrou em contato com Zólio e com a PM, mas não teve resposta.

A situação complica quando quem faz os reféns está alterado. O subcomandante do Gate conta um caso da última semana na cidade de Itapevi, quando três jovens estavam curtindo a exposição da imprensa, bebendo e se drogando enquanto mantinham nove reféns sob sua mira. O final foi o que Zólio define como feliz, mas a negociação foi complicada, porque foi difícil fazer alguém alterado se acalmar e usar o raciocínio lógico.

Sobre o contato visual direto com o causador da crise, o subcomandante diz que este comportamento é questionável. Esta atitude não é recomendada, mas em algumas situações pode criar um vínculo de confiança, dar segurança e mostrar que aquilo não é uma competição, explica.

Nesta negociação toda, o maior erro que um policial pode comer é falar mais do que ouvir e achar que a negociação é uma competição, conta Zólio. Os mais inexperientes acham isso, querem obter tudo sem ceder nada, diz. Lordello destaca que outro erro pode ser se ofender com alguma colocação do causador da crise.

Quando se obtém um acordo, o Gate cumpre o que prometeu, segundo Zólio. Ele conta que, quem normalmente não cumpre são os marginais. A prioridade é manter a integridade das vítimas, reforça Lordello.

O policial do Gate conta que não sabe ao certo a porcentagem de casos que não deram certo, mas estes são, em sua maioria, com os suicidas. Em alguns casos, quando o cara não tem como se matar, ele cria uma situação para a policia matar ele, completa.

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