Suspeito dizia que era Jesus Cristo, dizem amigos de cartunista assassinado

Cartunista Glauco Villas Boas e seu filho Raoni são assassinados em casa, em Osasco

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Amigos do cartunista Glauco Villas Boas, assassinado aos 53 anos em sua casa, em Osasco, afirmam que o suposto criminoso, identificado pela polícia como Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, fez um único pedido ao artista, antes de começar a atirar: que Glauco, líder e fundador da Igreja Céu de Maria, inspirada nos cultos do Santo Daime, fosse até a casa de sua mãe para dizer que ele, também conhecido como Cadu, era Jesus Cristo.


O suspeito, de 24 anos, frequentava a igreja durante algum tempo, mas estava distante dos cultos havia cerca de oito meses. Ainda segundo amigos, que pediram anonimato, Nunes era conhecido por ter comportamentos estranhos.

Reprodução
Glauco fundou a igreja Céu de Maria

De acordo com a versão de pessoas próximas ao cartunista, Nunes chegou à casa de Glauco no fim da noite de quinta-feira acompanhado por um amigo, que dirigia um Gol cinza.

Orlando Cardoso, primo e vizinho de Glauco, diz que chegou na casa pouco depois do crime e que, segundo o relato das pessoas que acompanharam o incidente, a enteada do cartunista, Juliana, que mora numa casa da comunidade, no mesmo terreno, foi rendida com uma pistola e uma faca quando chegou ao local. Ela foi obrigada a pedir que a mãe abrisse a porta da casa onde morava o cartunista, o que possibilitou o acesso do criminoso às vítimas.

Ainda segundo Orlando, Nunes queria que "todo mundo" fosse para a sua casa e dissessem à sua mãe que ele era Jesus Cristo. Só assim, pensava, evitaria que a família o internasse em uma clínica.

Glauco se opôs à ideia, o que teria acirrado a discussão, segundo Douglas Pinheiro, cunhado do cartunista.

Ainda de acordo com o cunhado, Juliana confirmou em depoimento que foi ameaçada quando chegou da faculdade e que foi só diante dessa ameaça que Nunes conseguiu entrar na casa.

Rendida com uma pistola 765, ela pediu que a mãe abrisse a porta de casa, o que possibilitou o acesso do assassino ao local. Quando entrou na casa, ele teria agredido Glauco com uma coronhada no nariz.

Sangrando, o cartunista ouviu o antigo frequentador da seita pedir que ele o acompanhasse até a casa da mãe e dissesse a ela que Nunes era Jesus Cristo.

Glauco tentou acalmar o jovem, que aparentava estar completamente alucinado, segundo os amigos ¿ que não confirmam que o suspeito teria ameaçado se matar.

Quando Raoni Ornellas Pires Villas Boas, filho do cartunista, chegou em casa, todos se apavoraram e o rapaz começou a atirar.

Eles contam também que na casa havia um amigo da família, possivelmente frequentador da igreja, a quem Nunes teria tentado atingir, em vão, com dois tiros.

Durante esse tempo, o suposto comparsa, até o momento não identificado, permaneceu no carro, tomando conta da direção.
Não tem explicação. É como perguntar qual foi a motivação do assassino do John Lennon ou do cara que tentou matar o papa, disse o colega, que pediu para não ter o nome revelado.

Carreira

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Glauco em foto de 1986
Nascido em 1957, em Jandaia do Sul, no Paraná, Glauco Villas-Boas publicou sua primeira tira em 1976 no Diário da Manhã, de Ribeirão Preto. A carreira decolou após ser premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, também em 1976, e na 2ª Bienal de Humorismo y Gráfica de Cuba.

Glauco começou a publicar suas tiras no jornal "Folha de S.Paulo" de maneira esporádica em 1977 e, em 1984, os desenhos passaram a ser regulares. Ele desenvolveu os personagens Geraldão, Casal Neuras, Doy Jorge, Dona Marta e Zé do Apocalipse.

Como redator, fez parte do elenco de redatores da TV Pirata, da Rede Globo. Músico, também tocava em bandas de rock.

Em parceria com os cartunistas Angeli e Laerte, lançou os "Los Três Amigos", tira com histórias sarcásticas que também eram publicadas pela Folha. Em 2006, publicou o livro "Política Zero", com 60 charges sobre a crise no governo Lula.  

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