Um mês após morte de menina, banhistas ainda temem jet skis em Bertioga

Trinta dias após a morte de Grazielly, iG volta à praia de Guaratuba e flagra jet skis; ninguém foi punido

Lecticia Maggi, especial para o iG |

Um mês após a morte de Grazielly Almeida Lames, de 3 anos , atingida por um jet ski, o iG voltou à praia de Guaratuba, em Bertioga, litoral paulista, onde ocorreu o acidente. A reportagem conversou com banhistas que relataram a presença dos veículos com banhistas em áreas proibidas.

Nesta semana, a história pode ganhar novos capítulos já que uma simulação está programada para a manhã desta terça-feira, no mesmo local onde a criança morreu. O trabalho será acompanhado pelo engenheiro mecânico e perito Jean Pierre Frederic, contratado pela família da vítima.

O acidente ocorreu na semana do carnaval e até agora ninguém foi indiciado. O adolescente de 13 anos acusado de atingir Grazielly disse, em depoimento, que apenas ligou o jet ski e não o conduziu. O padrinho e a madrinha do adolescente, proprietários do jet ski, negaram que haviam permitido o uso da embarcação, assim como o caseiro da casa da família. 

O amigo de 14 anos que acompanhava o adolescente afirmou à polícia que o padrinho autorizou ambos a pilotar o jet ski.  Menino ainda afirmou que foi o caseiro que levou o equipamento até o mar .

Risco: Acidentes com jet skis causam ao menos uma morte por mês no Nordeste
Regras:
Após acidentes com jet ski, Marinha muda regras para tirar habilitação

Reprodução
Criança tinha apenas 3 anos e foi atingida por jet ski enquanto brincava na praia
Em Guaratuba, a reportagem flagrou – embora em menor número - banhistas dividindo espaço com as motos aquáticas. “Hoje mesmo eu vi um jet ski próximo aos banhistas, em um lugar onde ainda dá pé. Se a pessoa mergulhar, pode não ver e bater”, considera a auxiliar administrativa Bruna Souza Sula, de 24 anos. A administradora Joana Lobo, de 37 anos, admite que, toda vez que observa um jet ski na água, deixa o mar, “com medo”.

A assistente financeira Débora Canhas, de 37 anos, aproveitava o mar mas ao mesmo olhava ao redor. “Tenho um filho de dois anos e agora me preocupo quando vamos à praia. Sei a dor que aquela mãe deve ter sentido. Aquilo me chocou”, diz.

O iG passou o domingo (18) na praia de Guaratuba e, mesmo com a temperatura favorável e o sol forte, o número de banhistas e jet skis ali em nada se assemelhava ao de antes da tragédia. “Era um risco frequente, turista perto de jet ski, de lancha. Agora, acho que o pessoal está com medo”, opina um antigo vendedor de sorvetes do local.

Os jet skis vistos pela reportagem agiram de forma prudente, passando próximo a banhistas apenas para entrar na água, mas logo se distanciando e, aparentemente, respeitando as regras da Marinha - que determinam distância de 200 metros da praia para embarcações a motor.

Segundo o salva-vidas que cuida da área, o problema maior concentra-se na alta temporada e em feriados - como o de carnaval, quando Grazielly foi atropelada. “Agora, são quatro, cinco, mas a gente chega a ter 40 jet skis aqui”, afirma ele, que preferiu não ser identificado.

O profissional relata acidentes que já presenciou, com destaque para um incluindo dois jet-skis. “Eram dois primos dirigindo, um deles deu um cavalo de pau e caiu na água e o outro que vinha atrás não conseguiu parar e passou por cima, literalmente. Era só sangue, o rapaz levou 20 pontos na cabeça”, conta.

Ele ressalta que, apesar de não raro presenciarem irregularidades, o poder dos salva-vidas está restrito apenas à orientação. “A gente informa, pede que não brinquem no rio, para irem depois das ondas, mas não tem poder de fiscalização”, diz. Este trabalho é atribuição da Marinha e da Capitânia dos Portos.
Na ponta da praia de Guaratuba foram instaladas placas de alerta, com a palavra perigo. Ali, ele diz que recomenda aos turistas não se banharem por ser um trecho estreito de água por onde jet skis passam em direção ao rio ou ao mar.

Regras da Marinha
A decisão da Marinha de mudar as regras para quem quiser autorização para pilotar jet skis , apesar de considerada tardia, é vista com bons olhos por frequentadores da praia de Guaratuba. A partir do dia 2, o interessado terá que fazer ao menos quatro horas de aulas práticas. Atualmente, é aplicada somente uma prova com 40 questões.

Lecticia Maggi
Salva-vidas coloca placa de 'Perigo' para alertar banhistas sobre embarcações. Banho não é recomendado no local
“Aula teórica não ajuda muito, você subir e pilotar é totalmente diferente. Acho que deve melhorar um pouco”, afirma o bombeiro Jeferson Klink. Ele, que trabalhou 10 anos como salva-vidas no Guarujá, litoral paulista, diz que o aluguel de jet skis para pessoas não habilitadas era uma prática bastante comum. “Presenciei por anos e anos. Nunca vi exigirem arrais (autorização) para alugar, alguns só pedem identidade; mas cansei de ver ‘molecadinha’ alugar e dar para os outros, menores, pilotarem”, critica.

Klink conta à reportagem já ter visto pelo menos dois acidentes fatais da soma jet ski e imprudência. Em um deles, o motorista atropelou um surfista. “Ele negou, fugiu, mas o corpo do rapaz apareceu três dias depois”. Em outro caso, um menor colidiu contra uma lancha. “O jet ski fincou na lancha, o menino morreu na hora”, lamenta.

Devido à morte de uma jovem em 2011, supostamente sem habilitação para dirigir, a Prefeitura do Guarujá proibiu a locação de jet skis .

“Não somos vilões”
Quem tem jet ski diz que agora não quer ser visto como “vilão da história”. Carlos Alberto Freitas, frequentador das praias de Bertioga há mais de 20 anos, é um deles: “acho que temos que quebrar este paradigma de mau. Não somos vilões. Todo cara que tem responsabilidade não vai deixar o filho de 14 anos dirigir”, afirma. “Este caso do rapaz foi pura imprudência”, critica.

Apesar do pouco tempo, Freitas diz ter percebido, após a repercussão da morte de Grazielly, aumento da fiscalização nas praias mais movimentadas. “A Marinha está mais em cima, sempre me pedem documento. Eu acho bom, não me incomoda”, diz.

O salva-vidas de Guaratuba reitera que já contou com a ajuda de pilotos de jet skis também em salvamentos. “Uma criança caiu daquelas pranchas de bodyboard e estava se afogando. Quatro amigos dela foram tentar ajudar e começaram a se afogar também e eu aqui sozinho para resgatar cinco pessoas. Prontamente, dois pilotos que estavam perto ajudaram e tiraram três da água”, lembra.

Freitas diz que é preciso deixar de ver o jet ski como um “brinquedo” para considerá-lo um “veículo”. “No automóvel você anda com documento, carta, respeita a fiscalização, não anda na contramão. È a mesma coisa com o jet ski: se você andar rápido, no raso, perto de criança, vai matar alguém, com certeza”, considera.

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