¿Tenho de terminar os sonhos da minha mãe¿

Bruna Reis, de 13 anos, quer viver os sonhos interrompidos da mãe, Adriana. No dia 4 de agosto, a advogada foi assassinada

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Arquivo Pessoal
Adriana foi morta no dia 4 de agosto, após receber a ligação de um suposto cliente
Bruna Reis é filha única, tem apenas 13 anos e há pouco mais de duas semanas perdeu a mãe Adriana Souza Reis, de 33, assassinada. Segundo a polícia, Adriana foi vítima de uma emboscada supostamente montada por um cliente na cidade de Mairiporã, na Grande São Paulo.

Ao falar da mãe, a força que Bruna demonstra é inversamente proporcional à pouca idade que tem. Nas quase duas horas de conversa com a reportagem na casa onde mora com a avó em Sorocaba, interior paulista, não chorou em nenhum momento e prometeu viver a vida que foi interrompida da advogada. “Tenho de terminar os sonhos da minha mãe. Ela gostava muito de viver e eu vou viver muito mais que ela. Vou curtir o que ela ainda não curtiu”, assegura, convicta.

Cursar uma faculdade é outro desejo que a mãe tinha para ela e Bruna garante que irá realizar. Na 7ª série, ela ainda não sabe qual área seguir, mas, como gosta muito de matemática, pensa em algo ligado à economia. “Bolsa de Valores, essas coisas...”, diz.

A cada cerca de 15 dias a mãe ia encontrá-la em Sorocaba ou ela ia ao encontro da mãe na capital paulista. No final de 2011, quando concluísse o ensino fundamental, pretendia mudar-se definitivamente para São Paulo no apartamento que Adriana havia acabado de comprar e receberia as chaves em janeiro. “No começo do ano fui com ela ver uns negócios de tomada, escolher piso. Ela mostrou onde iria ser meu computador”, afirmou.

Do último encontro em São Paulo, 15 dias antes do crime, a adolescente lembra do abraço forte, o beijo no rosto e o choro na hora de ir embora. Em toda despedia, conta ela, inevitavelmente, uma das duas chorava. Ela já estava no carro com Ana Cláudia de Oliveira, a amiga da mãe a quem, pela proximidade, se acostumou a chamar de tia, para seguir rumo a Sorocaba, quando viu Adriana na janela do 1º andar. “Ela abriu a janela e começou a chorar, me deu um aperto no coração. Não queria ir embora. Falei: ‘tia, vai logo que se eu vir minha mãe chorando vou ficar aqui com ela’”.

Na noite de 4 de agosto, foi acordada pelo avô, que pediu para ela se trocar e já no carro contou-lhe sobre a morte da mãe. “Falei ‘você está mentindo para mim”. Diante da insistência, o desespero. “No velório não conseguia sair de perto dela, minha avó chorava comigo para eu parar de chorar, mas eu só gritava”.

Bruna narra tudo com riqueza de detalhes e, às vezes, parece contar a tragédia de outra pessoa e não a de si mesma. “É estranho falar isso, mas não espero mais nada. Dizem que (o assassino) vai ficar 30 anos na cadeia, mas com bom comportamento em 4, 5 anos sai”, constata. Ao contrário da avó, Dalva Souza da Silva, de 57 anos, que disse querer saber o motivo que o criminoso teve para tirar a vida da filha, Bruna evita o assunto. “Não vai me levar a nada, minha mãe já morreu”.

Quando questionada sobre a personalidade de Adriana, responde de supetão. “Ela adorava viajar, sair para qualquer lugar, se você chamasse para comprar pirulito na esquina ela ia”, ri e já emenda com elogios: “Ela gostava muito dos amigos e da família, estava sempre de bem com todo mundo, nunca soube dela ter inimizade com alguém. Ela falava: ‘se ela não gosta de mim, o azar é dela’”.

Neste ponto, Bruna se assemelha à descrição que fez da mãe e diz não querer ter rancor. “Um dia quem fez isso vai pagar. Agora, mesmo que tenha feito uma coisa horrível, eu pegar raiva é pior”. Questionada se aprendeu a agir assim com a mãe, ela novamente sorri e responde: "Tudo foi dela. Eu podia ter um milhão de amigas e cada uma dava um conselho, mas o que mais dava certo era o dela”.

A única negativa da entrevista vem diante do pedido de uma foto: “Estou toda descabelada, se a minha mãe me visse assim iria brigar comigo”.

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