Sozinho e sem bando

"No Brasil, juntou mais de dois é quadrilha", afirma morador de rua. Ele prefere ficar só por questão de segurança

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Eduardo Bandelli
Tadeu Menezes, 65, que perambula pela região da Sé e quando visita o irmão, em Minas, não é reconhecido
Desde a morte dos pais, no interior de Minas Gerais, Tadeu Menezes, de 65 anos, perambula pelos cantos do País em busca de descanso e comida. Sempre teve seu canto, muitas vezes trabalhando na enxada pela zona rural.

Há dois anos, porém, está nas ruas de São Paulo, onde vive à espera de uma vaga em albergues que não sejam sujos, distantes ou cheios de ladrões. Teme pela segurança de seus pertences, que diz não ter onde deixar e prefere mantê-los espremidos em uma mochila abarrotada que leva, sempre, às costas. Guarda tudo com ele, desde roupas até documentos, entre os quais o título de eleitor.

Com segundo grau completo, tem frases prontas para divagações que vão da política à religião. Crítico à aproximação do Brasil com o Irã, diz que o país persa é um lugar perigoso. Mais até, afirma, do que as ruas onde mora. As mesmas ruas que, há cerca de seis anos, foi palco de massacre de mendigos que dormiam no entorno da Praça da Sé.

Na mesma praça, anos depois, Tadeu diz que o medo ainda é constante, mas garante que sabe driblar os perigos. Um deles evitar andar em bando. "No Brasil, juntou mais de dois é quadrilha", diz.

A desconfiança em relação aos outros moradores de rua é estendida até mesmo quando comenta a mobilização dos moradores dos bairros para deixarem de alimentar os vizinhos das ruas, como ocorre no bairro Santa Cecília, também no centro. "Eles têm a razão deles. Você ajuda uma pessoa de rua com uma marmita e muitos jogam a marmita e a comida no meio da rua. E a polícia? Ela só faz o trabalho dela".

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Sozinho, e sem bando, Tadeu vive hoje da ajuda de entidades que no fim da noite distribuem marmitas pela Sé. Diz que sempre fugiu das drogas, mas que bebe com frequência. Só não admite ser taxado de alcoolatra. "Você passa em qualquer bar, a hora que for, e vê gente de tudo quanto é jeito bebendo. Por que não posso beber?" No Brasil, complementa, "você vale o que tem no bolso. Se tiver dez reais, vai valer só dez reais".

Das baixas dos últimos anos, iniciada com a morte dos pais, o andarilho cita uma das mais dolorosas: "visitei meu irmão em Minas, depois de 20 anos. Falei com ele algum tempo na frente da casa, fingindo que tinha interesse em comprar a casa. Só no fim eu disse: você não me reconhece? Aí ele me reconheceu. Me pediu para entrar, mas a mulher dele não deixou que eu ficasse. E voltei pra rua".

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