Solidariedade e tristeza no Natal da favela incendiada em SP

Crianças receberam presentes de voluntários na favela do Moinho, mas moradores ainda precisam de itens básicos

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Por volta das 14h deste domingo de Natal, três carros lotados de brinquedos estacionaram sob uma tenda entre os poucos barracos que resistiram ao incêndio da última quinta-feira na favela do Moinho, no centro de São Paulo.

Quase instantaneamente uma imensa fila composta por dezenas de crianças se forma em torno da tenda. Do alto da carroceria de uma picape, a microempresária Geane Nascimento Costa, de Barueri, pergunta: “Menino? Menina?” e entrega os carrinhos, bonecas, jogos etc.

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Simultaneamente, na entrada da favela o administrador de empresas, Joaquim Romanelli, montava os pratos de macarrão com frango assado e maionese que eram passados de mão em mão a cerca de uma centena de desabrigados em outra fila. “Não se esqueça de levar um chocolate para as crianças”, dizia Romanelli, com um gorro natalino na cabeça e um sorriso no rosto.

Enquanto isso, poucos metros à frente, um grupo de voluntários ligados à Igreja Católica empilhava montes de roupas usadas de todos os tipos e para todas as idades sob o olhar ávido de outra centena de desabrigados que só esperava a autorização para atacar.

Diogo Moreira/Futura Press
Moradores acompanham trabalho de bombeiros em favela após incêndio
“Desde ontem à noite não para de chegar gente com alguma coisa para ajudar. É uma cesta básica aqui, um saco com roupas ali. Teve um homem que trouxe até cerveja e refrigerante para a ceia”, disse a aposentada Antonia de Jesus Nunes, de 55 anos, que perdeu tudo o que tinha no incêndio de quinta-feira.

“Às vezes é preciso acontecer uma coisa muito ruim para que a vida da gente dê uma reviravolta e melhore”, afirmou a secretária desempregada Marlene Araújo, 42 anos. “Eu estava sem serviço fixo há três anos. Por isso vim parar na favela. Ontem à noite uma mulher, que veio ajudar o pessoal da favela, me ofereceu emprego. Agora vou poder pagar aluguel e viver decentemente”, completou.

Palco de uma tragédia às vésperas do Natal, a favela do Moinho se transformou no alvo preferencial da solidariedade dos paulistanos. O grande fluxo de ajuda nos últimos dois dias trouxe algum alento para a noite de Natal das centenas de famílias atingidas pelo incêndio. “Tem criança aqui que não ganhava um brinquedo há anos e hoje ganhou três”, disse Marlene.

Apesar disso, as carências ainda são muitas. A começar pela otimização da ajuda. “Às vezes alguém entrega alguma coisa lá na creche que nem chega. Muita gente que não precisa e que nem morava aqui está levando as coisas para casa. Outros estão estocando enquanto tem gente passando necessidade”, disse Maria Odete Gonzaga de Souza, 41 anos.

Mesmo com toda a solidariedade, ainda sofrem com a carência de itens básicos. Faltam colchões, cobertores, material de higiene pessoal, banheiros, fraldas descartáveis e remédios.

Os moradores da favela continuam assustados com o incêndio, principalmente as crianças, que não esquecem as cenas impactantes das chamas gigantescas e dos corpos carbonizados sendo retirados.

“Além disso falta uma esperança. Ninguém aqui sabe o que vai ser do futuro. As autoridades não dizem o que vão fazer com a gente. No momento, o que mais precisamos é de moradia”, disse Valdete dos Santos Silva, de 26 anos.

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