Sobreviventes de caso semelhante ao do Rio revivem trauma

Em 2003, ex-aluno abriu fogo em escola do interior de São Paulo, feriu oito pessoas e se matou. Vítimas ainda sofrem com sequelas

Marina Morena Costa, enviada a Taiúva (SP) |

Moradores de Taiúva, no interior de São Paulo, reviveram nesta quinta-feira uma tragédia que marcou a pequena cidade de 5,5 mil habitantes, oito anos atrás. As imagens do atirador que abriu fogo contra crianças em uma escola do Rio de Janeiro invadiram as casas, bares, estabelecimentos comerciais, e trouxeram à tona um caso muito semelhante. Em 27 de janeiro de 2003, um ex-aluno abriu fogo dentro da escola estadual Coronel Benedito Ortiz, feriu oito pessoas e se matou.

Edmar Aparecido Freitas tinha 18 anos, havia acabado de se formar no ensino médio, quando entrou na escola durante as férias e atirou em seis estudantes, no caseiro e em uma professora. Apesar de ter escolhido alvos vitais, como cabeça e tórax, ninguém além do próprio atirador morreu. No entanto, sequelas e trauma permanecem.

Jairo Miranda Dias foi atingido por quatro disparos, um no rosto, que entrou pelo nariz e saiu pela orelha, sem comprometer funções neurológicas, um em cada braço e outro no pulso direito. A bala que atingiu o braço esquerdo afetou uma artéria e o estudante precisou passar por uma cirurgia para reconstruí-la. “Disseram que iam amputar, mas deu pra salvar. Só que perdi a força no braço”, conta o jovem, hoje com 25 anos.

Amigo íntimo do atirador, Jefferson de Souza, 25 anos, teve as duas mãos feridas ao tentar proteger o rosto de um dos disparos. Ele tem pinos nas mãos, sente dores e não consegue realizar todos os movimentos. “O trauma nunca acaba. Vou carregá-lo para a vida inteira.”

Pedro Russo Junior, uma das vítimas e amigo próximo de Edmar, ficou paraplégico. Hoje, é casado, pai de um menino de 7 anos, trabalha, tem uma vida ativa, mas prefere não falar sobre o caso. Eliel Câmara foi alvejado no tórax e por poucos centímetros a bala não atingiu seu coração. Sua mãe, Nataly, conta que só o barulho de bombinhas o deixa assustado. A professora Maria de Lourdes Fernandes, ferida de raspão na cabeça e na perna, não gosta de comentar o caso e fica nervosa só de lembrar as cenas de janeiro de 2003, segundo moradores e colegas de profissão. O caseiro, sua mulher e outro estudante deixaram a cidade depois do incidente.

Semelhanças

Familiares e sobreviventes se emocionaram ao saber das mortes no Rio de Janeiro. “Mexeu muito comigo ver um caso como este acontecer de novo. E ainda por cima contra crianças. É muita covardia”, afirma Jefferson. “Me arrepiei na hora em que soube do tiroteio no Rio. Foi parecido com o que vivi”, declara Jairo.

Sobreviventes e moradores da cidade contam que Edmar, assim como Wellington Menezes de Oliveira, o atirador de Realengo, era quieto e reservado.  Nos dois casos também há índicios de bullying . “Ele era obeso e depois emagreceu muito. Começaram a chamá-lo de vinagre, ‘vinagrão’, por causa do regime, mas isso não é motivo pra querer matar ninguém”, acredita Jefferson.

Cenas de horror

Na época, os estudantes atingidos tinham entre 17 e 18 anos, eram alunos do terceiro ano do ensino médio e estavam na escola para aulas de recuperação ou para usufruir do espaço durante as férias. Os seis estavam sentados em um banco no pátio quando Edmar chegou portando uma sacola com uma arma calibre 38 e muita munição.

“Ele chegou ‘de boa’. Entrou no banheiro ao nosso lado e em seguida ouvimos tiros. Achamos que era bombinha ou alguma brincadeira do tipo”, lembra Jairo. Segundo a vítima, o atirador saiu do banheiro e disparou diversas vezes contra o grupo, a uma distância de menos de dois metros. “Quando vi a arma, pensei que era teatro dele, encenação. Só acreditei quando vi meu amigo estirado sobre a mesa, sangrando.” Mais de 15 tiros foram disparados.

Indenização


As vítimas entraram com uma ação coletiva na Justiça contra o Estado de São Paulo por falta de segurança na escola. “Se houvesse uma ronda próxima ao local, teria dado tempo de evitar alguma coisa”, acredita Jairo. Segundo o jovem, Edmar atirou diversas vezes para o alto, andou pela escola até se dirigir à casa do caseiro, nos fundos, onde se matou.

Jairo conta que três advogados, contratados por vereadores da cidade, são responsáveis pela ação, mas não sabe precisar detalhes. Jefferson acredita que o valor da indenização deve ser estipulado pelo juiz em 2011, porém também não tem informações precisas. A reportagem não conseguiu localizar os vereadores, nem os advogados das vítimas.

Apesar das limitações físicas, Jairo e Jefferson trabalham em atividades manuais, o primeiro no campo, em plantações, e o segundo em uma empresa de pavimentação e recapeamento de asfalto. “Quero que o governo pague no mínimo o que a gente gastou com hospital, médico e remédios. Só isso”, diz Jairo.

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