¿Se os moradores de rua não estivessem lá, eu não estaria aqui¿

Segurança foi atingida por raio no Parque Villa Lobos, em SP, e diz que casal maltrapilho lhe fez massagem cardíaca e respiração

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Maria Aparecida Bueno, de 45 anos, nasceu no dia 24 de março. Mas, agora, diz que também irá comemorar o dia 20 de fevereiro, quando renasceu. Isto porque, neste dia, Cida - como gosta de ser chamada - foi atingida por um raio enquanto trabalhava como segurança no Parque Villa Lobos, na zona oeste da capital paulista. E sobreviveu. 

Pelo corpo leva as marcas da descarga elétrica que sofreu: hematomas no rosto, braço e perna. Na barriga, dois riscos indicam o caminho percorrido pelo raio. No pé, uma ferida, onde, segundo ela, foi o local por onde ele deixou seu corpo. 

Apesar da gravidade do episódio, que ainda lhe rende fortes dores e um zumbido no ouvido esquerdo, Cida não apresenta nenhuma grave sequela. Segundo os médicos do Hospital das Clínicas, onde ela passou seis dias internada, nenhum órgão foi perfurado.

Contudo, o desfecho da história poderia ter sido completamente diferente. O fato de estar viva ela atribui a um casal de mendigos que teria lhe realizado os primeiros socorros antes da chegada do resgate. 

Lectícia Maggi, iG São Paulo
Maria Aparecida Bueno é bastante religiosa e considera que a presença de moradores de rua foi um "milagre de Deus"

Cida, obviamente, não se lembra deste momento, nem sequer do que fazia antes de ter sido atingida. A última lembrança que tem do dia é de ter se trocado para ir trabalhar. “Apagou tudo da minha mente. Quem trabalha comigo disse que eu estava com uma moça que tinha caído de skate e tinha uma fratura no braço”, conta.

A história do socorro foi lhe repassada por um colega, vigilante como ela, que afirma ter presenciado toda a cena. “Fui jogada no chão e do meu ouvido, boca e nariz saíam sangue. Meu colega quando viu, disse que pensou: ‘Nossa, Cida está morta’, ligou para o resgate e ficou esperando. Nisso, um casal de mendigos que passava por ali me fez respiração boca a boca e massagem cardíaca. O homem ficou gritando pelo meu nome para que eu voltasse”, conta ela.

Segundo os relatos que lhe chegaram, Cida respirou fundo e voltou. E o casal se foi. Minutos depois, o resgate chegou. O casal maltrapilho, que nunca havia sido visto no parque, também não apareceu mais desde então. “O parque não proíbe, entra qualquer um, mas é raro ver morador de rua lá. E meu amigo falou que este casal não voltou para perguntar como ficou a minha situação. Foi aquele dia e nunca mais”, afirma.

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Rosto de Maria Beuno ainda tem marcas roxas causadas pela descarga elétrica
Sentada em uma cadeira na pequena cozinha da casa de dois cômodos onde mora na cidade de Carapicuíba, na Grande SP, Cida relembra a história à reportagem. E chora quando se refere a seus salvadores. “Foi Deus para colocar esse casal de andarilhos para me salvar na hora certa, lugar exato. Se eles não estivessem lá, eu não estaria aqui. Ninguém teve coragem de chegar até mim, fazer os primeiros socorros. Foram os únicos”, diz, visivelmente emocionada. O que aconteceu, ela resume com poucas palavras: “Foi um milagre de Deus”.

Fé e religião

Católica, devota de Nossa Senhora Aparecida e Santa Luzia, Cida afirma que, assim que soube o que lhe aconteceu, se recordou de uma história passada na adolescência, quando morava em Porecatu, no Paraná. A fazenda na qual seu pai trabalhava e a família morava, diz ela, era ponto constante de parada de andarilhos. “Minha mãe dava arroz, feijão, fazia um pratinho para eles. Vinha com café, broa, pão. Se passassem 10 mendigos por dia ali pedindo, ela fazia a mesma coisa. Era muito solidária, qualquer um que passasse pela casa não saía sem comer”, diz ela.

A atitude de dona Leonina Maria Bueno chegou a ser questionada por Cida, então com cerca de 16 anos. “Por que a senhora faz isso, mãe? A senhora nem conhece eles”, teria dito ela, e ouvido como resposta: “O que eu estou fazendo é para os meus filhos. Um dia mais tarde, eles podem precisar”.

“Eu não esqueço isso”, afirma Cida, com a voz  baixa e os olhos marejados.

Mudança

Cida ainda está de licença médica e não sabe quando e se vai voltar ao trabalho. No plano pessoal, porém, diz que muita coisa já mudou. “Minha fé aumentou mais. A gente tem que fazer o bem, não olhar a quem. Quem planta o mal colhe o mal”, considera.

A relação com a filha, Neyva, de 12 anos, também ficou mais próxima. Pouco tempo antes do acidente, as duas haviam tido uma discussão, segundo Cida, motivada por “coisas típicas da adolescência”. Agora, são só elogios uma a outra.

Assim que voltou, Cida recebeu uma carta com declarações de amor da menina. "Você é tudo na minha vida, sem você meu mundo acaba (...) Deus me deu uma segunda chance para mostrar o quanto te amo", diz um dos trechos. Em três folhas escritas a lápis, Neyva ainda coloca trechos das músicas Como é Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos, e Agora eu Já Sei, de Ivete Sangalo.

“A minha filha é a razão do meu viver, muito amável, doce, obediente. Fiquei muito emocionada com a cartinha”, diz a segurança, enquanto mostra as folhas à reportagem. Sobre o casal que ela não conhece e pode nunca sequer saber quem é, Cida é só agradecimento: “Agradeço muito, muito, muito... Não tem como explicar...Não me conheciam, não sabiam quem eu era e, do nada, vieram me salvar”, diz, ainda incrédula com a própria história.

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