Márcia Camilo faz retratos falados há dez anos e diz que é preciso ir além do desenho: 'É preciso sensibilidade e conhecimento'

Fernanda Simas, iG Sâo Paulo
"Você precisa dar uma de psicólogo", diz a escrivã Márcia Camilo, que faz de 3 a 4 retratos falados por dia
Toda vez que um crime de autoria desconhecida acontece e a vítima ou uma testemunha tem condições de descrever o autor, um retrato falado pode ser feito pela polícia. Na cidade de São Paulo, entre os departamentos de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro) e de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), são feitos em média 9 retratos falados por dia e cerca de 70% dos casos são solucionados após a divulgação deles.

Apesar de não ter sido feito no modo digital, retrato falado de suspeito de matar Jair Pavanelli foi decisivo na sua captura
Divulgação
Apesar de não ter sido feito no modo digital, retrato falado de suspeito de matar Jair Pavanelli foi decisivo na sua captura
Foi o que aconteceu no caso de latrocínio em que Jair Henrique Pavaneli, de 21 anos, foi morto após um assalto no bairro Jardim Iguatemi, zona leste de São Paulo . No dia 7 de março a Polícia Civil divulgou a imagem do criminoso e no dia 9 ele foi preso.

Outros crimes recentes e que estão sendo apurados pela polícia tiveram a divulgação de retratos falados. É o caso do assalto a um restaurante na esquina das ruas Oscar Freire e Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo , no dia 11 de março. O retrato falado de um suspeito foi feito após o depoimento de vítimas e testemunhas que estavam no restaurante. No mês anterior, a polícia de Carapicuíba divulgou imagens dos dois suspeitos de assassinar a supervisora de vendas Vanessa Duarte . Seu corpo foi encontrado no dia 13 de fevereiro em um matagal em Vargem Grande Paulista.

Mas, para se fazer um retrato falado, é preciso mais do que saber desenhar ou trabalhar com o photoshop (programa de edição de imagens). A escrivã Márcia Camilo trabalha no DHPP, está na polícia há vinte anos e há dez faz retratos falados. “Não é simplesmente desenhar. Você precisa entender de anatomia, senão faz uma caricatura e a idéia não é essa. A idéia é se aproximar ao máximo da realidade” para ajudar na captura do criminoso.

Para conseguir detalhes da fisionomia do criminoso, é importante que o policial tenha sensibilidade. “Você precisa dar uma de psicólogo. Muitas vezes eu tenho que acalmar a vítima, dar um café, falar de coisas banais para que ela relaxe”, conta Márcia, lembrando que a pessoa precisa exteriorizar um trauma e se estiver muito abalada, não conseguirá fazer a descrição. É justamente por analisar a melhor maneira de fazer as perguntas necessárias às vítimas que as imagens, em 90% dos casos, saem praticamente iguais ao rosto do criminoso. “Se a pessoa realmente não tiver condições de responder as perguntas naquele momento, eu prefiro que ela volte outro dia, senão o trabalho pode até ser prejudicado.”

Manoel Rodrigues, conhecido com 'Maníaco da Penha', um dos casos bem sucedidos de retrato falado
Reprodução
Manoel Rodrigues, conhecido com 'Maníaco da Penha', um dos casos bem sucedidos de retrato falado

A escrivã ressalta que no caso de a vítima ser uma criança, o policial deve ser ainda mais sutil e aplicar seu conhecimento. “Se a criança sofreu um abuso sexual, por exemplo, você jamais pode lhe oferecer uma bala, na intenção de acalmá-la. Às vezes foi essa ação que levou ao aliciamento.”

O local em que o retrato falado é feito deve propiciar o relaxamento da pessoa. “É preciso tirar toda a impressão da delegacia. Por isso, a sala deve ser isolada, sem interferência externa, como se fosse a sala de um analista”, explica. Nesse local, “a primeira pergunta que eu faço [para a vítima] é: ‘se a pessoa passar por você, você consegue apontar e dizer que foi ela [que cometeu o crime]’. Se ela responde que sim, eu prossigo.”

Fazendo o retrato falado

Traço a traço, um rosto é construído na sala do DHPP
Fernanda Simas
Traço a traço, um rosto é construído na sala do DHPP
Existem diversas técnicas para se fazer um retrato falado. E cada policial usa aquela a qual se adéqua melhor. É possível utilizar um kit que contém diversas peças das partes de um rosto, como um quebra-cabeça; alguns profissionais fazem os retratos a mão e outros preferem usar a tecnologia, este é o caso de Márcia Camilo.

Primeiro ela acessa um banco de dados – formado por fragmentos de fotografias dos próprios criminosos brasileiros – e pergunta o sexo do autor do crime. Após a definição, a vítima ou testemunha escolhe o formato do rosto e o tipo de olhos, nariz e boca que mais se assemelham ao autor. Essas imagens estão divididas por raça e idade (até 20 anos, de 21 a 45 anos e acima de 45), para facilitar o trabalho e deixar o retrato mais fiel à realidade.

Enquanto Márcia monta o rosto do suspeito, a pessoa permanece sentada ao seu lado e auxilia com informações sobre a característica (o nariz era um pouco maior do que esse ou ele tinha uma cicatriz no lábio). Depois de concluído o retrato Márcia conclui com uma pergunta: “De um a dez, o quanto esse retrato parece com o criminoso?” Isso vai ajudá-la a ter uma ideia de quão próximo da realidade a imagem está.

Retrato falado mostra a aproximação de desenho e suspeito em mais um crime solucionado
Reprodução
Retrato falado mostra a aproximação de desenho e suspeito em mais um crime solucionado

Casos curiosos

Márcia, com um leve sorriso no rosto, conta que já houve casos de vítimas que chegaram para fazer o retrato falado com uma imagem feita por elas próprias, mas que isso pode não ajudar. “Prefiro partir do zero. Muitas vezes o desenho mais confunde do que ajuda. É da natureza humana que a vítima exagere em alguns valores, como a altura do criminoso, e isso é posto no desenho.”

Por outro lado, quando a vítima é uma criança essa tática pode ajudar muito. Foi o que aconteceu em um caso de estupro, que ficou sob responsabilidade de Sidney Barbosa, coordenador do setor de Arte Forense no DHPP. “Ele pediu para a criança desenhar e ela desenhou um homem com uma estrela no uniforme. Ele pensou ‘isso ou é polícia ou é vigia’. Começaram a investigar e realmente era o vigia da escola. O símbolo da empresa de segurança era justamente uma estrela.”

Outra função

Sidney também utiliza o recurso do retrato falado para fazer progressões de idade, prática comum em casos de crianças desaparecidas. O policial se baseia em uma foto da criança – na época em que ela desapareceu – e colhe uma série de dados familiares que podem influenciar na fisionomia dela.

A partir daí, ele faz um estudo genético da família, verifica fotos e o histórico médico dos pais e irmãos e monta um retrato de como a criança pode estar cinco anos depois, por exemplo. Isso foi feito no caso da menina Stephany Lopes, que desapareceu em 2002, quando tinha seis anos. Abaixo está a foto dela na época e o retrato feito por Sidney, em que ela teria 11 anos.

Stephany, aos 6 anos, e a previsão de como ela seria aos 11
Reprodução
Stephany, aos 6 anos, e a previsão de como ela seria aos 11

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