Retratos falados ajudam na resolução de 70% dos crimes em SP

Márcia Camilo faz retratos falados há dez anos e diz que é preciso ir além do desenho: 'É preciso sensibilidade e conhecimento'

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Fernanda Simas, iG Sâo Paulo
"Você precisa dar uma de psicólogo", diz a escrivã Márcia Camilo, que faz de 3 a 4 retratos falados por dia
Toda vez que um crime de autoria desconhecida acontece e a vítima ou uma testemunha tem condições de descrever o autor, um retrato falado pode ser feito pela polícia. Na cidade de São Paulo, entre os departamentos de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro) e de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), são feitos em média 9 retratos falados por dia e cerca de 70% dos casos são solucionados após a divulgação deles.

Divulgação
Apesar de não ter sido feito no modo digital, retrato falado de suspeito de matar Jair Pavanelli foi decisivo na sua captura
Foi o que aconteceu no caso de latrocínio em que Jair Henrique Pavaneli, de 21 anos, foi morto após um assalto no bairro Jardim Iguatemi, zona leste de São Paulo . No dia 7 de março a Polícia Civil divulgou a imagem do criminoso e no dia 9 ele foi preso.

Outros crimes recentes e que estão sendo apurados pela polícia tiveram a divulgação de retratos falados. É o caso do assalto a um restaurante na esquina das ruas Oscar Freire e Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo , no dia 11 de março. O retrato falado de um suspeito foi feito após o depoimento de vítimas e testemunhas que estavam no restaurante. No mês anterior, a polícia de Carapicuíba divulgou imagens dos dois suspeitos de assassinar a supervisora de vendas Vanessa Duarte . Seu corpo foi encontrado no dia 13 de fevereiro em um matagal em Vargem Grande Paulista.

Mas, para se fazer um retrato falado, é preciso mais do que saber desenhar ou trabalhar com o photoshop (programa de edição de imagens). A escrivã Márcia Camilo trabalha no DHPP, está na polícia há vinte anos e há dez faz retratos falados. “Não é simplesmente desenhar. Você precisa entender de anatomia, senão faz uma caricatura e a idéia não é essa. A idéia é se aproximar ao máximo da realidade” para ajudar na captura do criminoso.

Para conseguir detalhes da fisionomia do criminoso, é importante que o policial tenha sensibilidade. “Você precisa dar uma de psicólogo. Muitas vezes eu tenho que acalmar a vítima, dar um café, falar de coisas banais para que ela relaxe”, conta Márcia, lembrando que a pessoa precisa exteriorizar um trauma e se estiver muito abalada, não conseguirá fazer a descrição. É justamente por analisar a melhor maneira de fazer as perguntas necessárias às vítimas que as imagens, em 90% dos casos, saem praticamente iguais ao rosto do criminoso. “Se a pessoa realmente não tiver condições de responder as perguntas naquele momento, eu prefiro que ela volte outro dia, senão o trabalho pode até ser prejudicado.”

Reprodução
Manoel Rodrigues, conhecido com 'Maníaco da Penha', um dos casos bem sucedidos de retrato falado

A escrivã ressalta que no caso de a vítima ser uma criança, o policial deve ser ainda mais sutil e aplicar seu conhecimento. “Se a criança sofreu um abuso sexual, por exemplo, você jamais pode lhe oferecer uma bala, na intenção de acalmá-la. Às vezes foi essa ação que levou ao aliciamento.”

O local em que o retrato falado é feito deve propiciar o relaxamento da pessoa. “É preciso tirar toda a impressão da delegacia. Por isso, a sala deve ser isolada, sem interferência externa, como se fosse a sala de um analista”, explica. Nesse local, “a primeira pergunta que eu faço [para a vítima] é: ‘se a pessoa passar por você, você consegue apontar e dizer que foi ela [que cometeu o crime]’. Se ela responde que sim, eu prossigo.”

Fazendo o retrato falado

Fernanda Simas
Traço a traço, um rosto é construído na sala do DHPP
Existem diversas técnicas para se fazer um retrato falado. E cada policial usa aquela a qual se adéqua melhor. É possível utilizar um kit que contém diversas peças das partes de um rosto, como um quebra-cabeça; alguns profissionais fazem os retratos a mão e outros preferem usar a tecnologia, este é o caso de Márcia Camilo.

Primeiro ela acessa um banco de dados – formado por fragmentos de fotografias dos próprios criminosos brasileiros – e pergunta o sexo do autor do crime. Após a definição, a vítima ou testemunha escolhe o formato do rosto e o tipo de olhos, nariz e boca que mais se assemelham ao autor. Essas imagens estão divididas por raça e idade (até 20 anos, de 21 a 45 anos e acima de 45), para facilitar o trabalho e deixar o retrato mais fiel à realidade.

Enquanto Márcia monta o rosto do suspeito, a pessoa permanece sentada ao seu lado e auxilia com informações sobre a característica (o nariz era um pouco maior do que esse ou ele tinha uma cicatriz no lábio). Depois de concluído o retrato Márcia conclui com uma pergunta: “De um a dez, o quanto esse retrato parece com o criminoso?” Isso vai ajudá-la a ter uma ideia de quão próximo da realidade a imagem está.

Reprodução
Retrato falado mostra a aproximação de desenho e suspeito em mais um crime solucionado

Casos curiosos

Márcia, com um leve sorriso no rosto, conta que já houve casos de vítimas que chegaram para fazer o retrato falado com uma imagem feita por elas próprias, mas que isso pode não ajudar. “Prefiro partir do zero. Muitas vezes o desenho mais confunde do que ajuda. É da natureza humana que a vítima exagere em alguns valores, como a altura do criminoso, e isso é posto no desenho.”

Por outro lado, quando a vítima é uma criança essa tática pode ajudar muito. Foi o que aconteceu em um caso de estupro, que ficou sob responsabilidade de Sidney Barbosa, coordenador do setor de Arte Forense no DHPP. “Ele pediu para a criança desenhar e ela desenhou um homem com uma estrela no uniforme. Ele pensou ‘isso ou é polícia ou é vigia’. Começaram a investigar e realmente era o vigia da escola. O símbolo da empresa de segurança era justamente uma estrela.”

Outra função

Sidney também utiliza o recurso do retrato falado para fazer progressões de idade, prática comum em casos de crianças desaparecidas. O policial se baseia em uma foto da criança – na época em que ela desapareceu – e colhe uma série de dados familiares que podem influenciar na fisionomia dela.

A partir daí, ele faz um estudo genético da família, verifica fotos e o histórico médico dos pais e irmãos e monta um retrato de como a criança pode estar cinco anos depois, por exemplo. Isso foi feito no caso da menina Stephany Lopes, que desapareceu em 2002, quando tinha seis anos. Abaixo está a foto dela na época e o retrato feito por Sidney, em que ela teria 11 anos.

Reprodução
Stephany, aos 6 anos, e a previsão de como ela seria aos 11

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