Receio de mudança faz morador conviver com perigo

Apesar dos perigos, moradores resistem a deixar casas porque, muitas vezes, temem o desemprego e mudanças para lugares distantes

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Moqueca de peixe, filé de frango, repolho, vinagrete, arroz, feijão e macarrão. Empilhado numa marmita vendida a R$ 7, o almoço providenciado por Lúcia Helem Ferreira da Costa, que há oito anos montou a única venda-restaurante-armazem-de-secos-e-molhados das redondezas ganha os ares do grotão do bairro Pinhal do Miranda e atrai clientes que vêm de longe, como os prestamistas que chegam de Minas para acertar as contas com os moradores de Cubatão.

Eduardo Bandelli
Lúcia Helem Ferreira da Costa entre as prateleiras de sua venda, o único estabelecimento comercial que funciona morro abaixo
Entre prateleiras em que se equilibram verduras, amaciantes, doces, salgados, pó de café, catuaba, cachaça, farinha, batata, chinelos, carvão, canetas, prendedores e bolas de plástico de futebol, Lúcia é a imagem-símbolo dos moradores que temem ter a rotina impactada caso deixem a favela. Mesmo quando a permanência nas casas significa viver às voltas com os riscos de queda de barreira e inundações. O medo de subir o morro, mesmo que para um lugar melhor, é ter que encarar de frente a tal da lei da oferta e procura. Leia-se a presença de redes como “Compre Bem” e a feira que, segundo ela, têm clientela fiel nos bairros onde teme ser levada quando tiver que deixar a serra. Ao lado da barbearia do filho, Lúcia diz comandar o único estabelecimento comercial morro abaixo.“Minha renda vem do armazém. Aqui não pago nada. Como vou fazer se me mandarem para outro lugar?”, questiona.

Para Meire Elen, de 27 anos, mãe de Isis, de 9, a situação é ainda mais difícil. A filha não quer sair da escola onde estuda, nas proximidades, e emburra só de pensar que pode ficar deslocada na nova turma em uma eventual transferência no meio do ano letivo. Já o marido teme que, se for para longe, tenha que receber da empresa o vale-transporte. “Aí, meu filho, quando tiver um corte na empresa, não vão pensar duas vezes entre alguém que ganha vale-transporte e dá gasto e outro que não precisa”, sentencia Meire. A família dela, diz, ainda prefere passar em claro e alerta as noites de chuva a ter que conviver com mudanças e incertezas.

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Seu Valmir mostra a casa onde vive na Serra do Mar há 17 anos
“Medo eu tenho, mas aqui é diferente do Rio”, diz o pedreiro e carpinteiro Valmir da Silva Lopes, 47 anos, que vive no local há 17. “Estou esperando ficar pronto o prédio em Cubatão”, diz ele, apontando a casa desmontada de um ex-vizinho que se mudou havia três dias com a mulher e a filha para Ilha Grande. O discurso e a história de seu Valmir se repetem morro acima. Nascido em Serra Talhada, interior de Pernambuco, ele diz que pagava aluguel em Cubatão, logo que veio a São Paulo, mas que as dificuldades em deixar as contas em dia o levaram ao Pinhal do Miranda, que antes era “sossegado” e hoje “é um perigo”. Do outro lado da casa desconstruída, dona Josefa Maria Jovêncio da Silva, pernambucana de 37 anos, diz que gostaria de permanecer no bairro, mesmo após ver o barraco onde mora há 19 anos com o marido e dois filhos – de sete e 14 anos – ser inundado pela chuva diversas vezes.

“Só vou quando liberarem o Casqueiro. Quando ficar pronto, aí a gente cai pra dentro”, diz ela, em referência às obras no bairro de Cubatão.

A ocupação das áreas na Serra do Mar teve início com a abertura de trilhas na região por indígenas que, mais tarde, deram lugar a estradas como a Imigrantes e a Anchieta, nos anos 1940. A construção das vias atraiu as primeiras famílias de moradores. Elas se instalaram no sopé da serra nos chamados bairros-cota, numerados conforme a altura em relação ao nível do mar – a cota 200, por exemplo, fica a 200 metros do nível do mar. Hoje, a maioria trabalha em empresas e refinarias de petróleo da região, muitos vindos de áreas carentes do Nordeste.

“Sou da terra do Severino Cavalcante”, apresenta-se o xará do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino da Silva. Natural de João Alfredo (PE), ele mora desde 1995 em um barraco debaixo da encosta na Serra do Mar. A teimosia em sair do local é, em parte, explicada pela paisagem apontada por ele logo acima do telhado: “Minha casa é aquela, a única que tem parabólica desse lado”. Fã do noticiário da TV, é de lá que ele assiste a “todos os jogos do Palmeiras”.

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Janela da casa de Severino da Silva; de um lado, quadros religiosos na parede e, de outro, ¿braço¿ de encosta que pode vir abaixo a qualquer momento

Protegido por uma imagem de Nossa Senhora Aparecida pendurada na parede improvisada, ele diz que leva a TV, e o aparelho celular, para onde for, caso precise se mudar. “Estou esperando um lote. Aqui temos que agradecer a Deus. Já vi chuva que achei que ia derrubar tudo. Uma vez fui fazer uma prova e pediram pra escrever uma redação de tema livre. Aproveitei para escrever sobre a chuva daquele dia, que me marcou demais”, diz ele, que estudou até a 8ª série e admite ser difícil morar em outro lugar onde terá que pagar água e luz. No local, o serviço é fornecido por meio de “gatos”, fios ilegais puxados até os barracos e alimentam os aparelhos eletrônicos.

A “facilidade” é também citada pelos amigos Isael Correia, 38, e Manoel Martins, 37, que cresceram praticamente juntos em São Lourenço da Mata, em Pernambuco e hoje dividem um barraco no ponto mais alto do Pinhal. Eles dizem ter vontade de deixar o barraco onde moram, mas temem ser levados para locais distantes do trabalho. “Medo de chuva a gente tem, mas fazer o quê? Pra Praia Grande não vou”, decreta Isael, apesar do medo que sentiu na última semana, quando fortes chuvas atingiram a região, acompanhadas por notícias sobre a situação no Rio.

“Semana passada foi muito ruim, porque choveu aqui e a gente via o que estava acontecendo no Rio. A gente fica pensando. Fica mais alerta”, diz Manoel, numa quinta-feira já com tempo firme e sol que queimava as costas de quem caminhava pelas vias ainda abafadas pela umidade da mata.

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