Quase jogador de futebol, quase na faculdade...

Jovem para nas ruas por causa do crack. "Sei que preciso parar com a droga. Mas não dá mais"

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Eduardo Bandelli
Detalhes das mãos de Adrisio, jovem viciado em crack que vive no centro de SP
Por pouco Adrisio Marcolino, de 19 anos, não se tornou jogador de futebol. Nos times de várzea onde jogava, em Mauá, era atacante, e dos goleadores. Hoje quase não corre. Não tem preparo físico nem vontade de jogar.

Também por pouco Adrisio não terminou o ensino médio. Parou de estudar no segundo ano, quando estava prestes a carimbar a última etapa para a faculdade. E por pouco não viu o filho nascer. Quando saiu de casa, há oito meses, a namorada ainda estava grávida. Dela quase não tem mais notícias.

Quando perguntado porque hoje mora nas ruas, mesmo chegando tão perto da paternidade, da faculdade e de uma profissão, Adrisio não mede palavras: "a droga, né?" A droga, para ele, quase eufemismo para se referir ao crack, usada por metade dos jovens moradores de rua que se dizem viciados em algum tipo de substância entorpecente.

A primeira pedra veio aos 15 anos. Bateu o efeito. E viciou. Era a ela a quem o jovem recorria quando via a vida que levava na feira em Mauá, onde trabalhava e de onde vinha o dinheiro para ajudar em casa, um barraco de madeira onde viviam a mãe e as três irmãs. Sentia que não ia suportar a pressão. E fumava. E, quando fumava, as brigas em casa aumentavam.

Expulso, vive agora no centro e dorme em qualquer lugar. Foge dos albergues porque diz não gostar das regras e do estranhamento do local. Mas não dispensa a sopa servida por um grupo de colaboradores num ponto próximo dali.

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Na rua, compra suas pedras por R$ 10. Fuma duas, às vezes três delas por dia. Vive quase sem dinheiro e conta com a piedade de quem passa na rua para fazer suas refeições. Às vezes precisa contar com a piedade também dos donos de padaria e restaurantes do centro, muitos dos quais não permitem que coma dentro do local. Vive também quase sozinho, com uma coberta sobre os ombros e meias para proteger os pés do frio.

Adrisio quase não tem amigos. Evita aglomerações porque, assim, fica menos visado. Além disso, conta, sempre tem um que dá a ideia, quer mandar e, da última vez que quase caiu na conversa, por pouco "não rodou". Foi num assalto, num cruzamento de avenida. Abordou a mulher com outros dois e ajudou a levar o aparelho de som, câmera digital e R$ 15. Na repartição de bens, os quase amigos deram no pé. "Tem muita maldade quando se anda em grupo".

Adrisio anda de chinelo e blusa de mulher, cor-de-rosa, debaixo da camisa cinza. A mesma doadora queria dar também uma calça. Mas também era de mulher e ele ficou com vergonha de aceitar.

Do futebol, a coisa que mais gostava, só tem notícias pelos jornais do dia seguinte. E os jogos do Corinthians, seu time, só consegue ver de relance pelos flashes das tevês dos bares.

Solicito, sorridente e falante, só interrompe a conversa quando fala da mãe. "Ela tinha a razão dela". E só à noite Adrisio diz que se transforma. Quando fuma, fica cismado, na brisa. E fica sem coragem de pedir dinheiro porque todos se assustam, inclusive ele, que passa a temer reações que desconhece. "Sei lá o que o cara pensa quando te vê desse jeito. Chega a noite e a gente reflete. Vê que precisa parar com a droga. Mas não dá mais. Tem uma hora que preciso usar. Passa o efeito e eu começo a pedir, pra poder comprar mais".

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