Projeto de verticalização anima e assusta moradores

Casas antigas e abandonadas estão com os dias contados na Lapa, caso sejam aprovadas as mudanças no Plano Diretor

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Matheus Pichonelli
Sobrados antigos podem dar espaço a novos prédios na Lapa
Enquanto os prédios não chegam, o vendedor José Maria Santos, de 54 anos, diz já saber o que fazer para mudar de vida. Vai sair da casa do ex-marido da atual namorada, na Lapa, com quem divide o mesmo espaço, e buscar privacidade para viver só com ela e as três filhas em um imóvel no mesmo bairro que está à venda há pelo menos dois anos e que até agora não encontrou comprador.

O plano é descrito enquanto, a poucos metros dali, os trens da CPTM cruzam a linha férrea que corre paralela à área de trabalho do ambulante: seu Zé Maria brinca e diz que quebrará o cadeado da futura casa e entrará à força pela porta da frente. Será uma invasão, resume ele, antes de explicar que, se alguém mandar sair, não oferecerá resistência.

Casas antigas e abandonadas

As casas antigas e abandonadas do bairro, hoje esperança para o vendedor, estão com os dias contados na região, caso sejam aprovadas as mudanças propostas pela comissão especial de elaboração do substitutivo à revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) do município.

Entre as mudanças está a que coloca parte da Lapa em uma macroárea onde será incentivada a construção de novos prédios residenciais. De acordo com a proposta, essas áreas, das quais fazem parte também o centro metropolitano e a orla ferroviária, foram urbanizadas e consolidadas há mais de meio século, viram nascer e crescer indústrias e o comércio no período, mas hoje passam por “processos de esvaziamento populacional e desocupação dos imóveis”.

Desocupação que, ao menos na região da orla ferroviária da chamada Lapa de Baixo, foi seguida de invasões dos imóveis abandonados. Hoje, o cenário no local seria de cidade interiorana não fossem os galpões abandonados e os estacionamentos que tomaram o espaço nos últimos anos.

Mudança no cenário

Matheus Pichonelli
Prédios construídos na Lapa
Humberto Soares de Moura, aposentado de 61 anos de vida e 30 de Lapa, diz ter acompanhado nesse tempo a mudança no cenário. Enquanto caminha sobre uma calçada irregular, com buracos e lixo espalhados, conta que os vizinhos e amigos que não se mudaram já morreram. Hoje, diz, as casas viraram cortiço, onde vivem grupos de ambulantes que trabalham ali por perto. Nos últimos anos, as enchentes também ficaram mais intensas e não foram poucas as vezes que avistou carros ficarem com água até o teto em uma baixada da rua Moxei, onde mora.

Não há parque, ciclovias, cinema ou cafés nesse lado da cidade. No local, aliás, é comum avistar mais de uma placa com anúncio de venda de imóveis numa mesma quadra. Portanto, diz, a chegada dos edifícios, hoje ainda raros no local, será bem-vinda, na visão do aposentado. Mas é motivo de preocupação para ambulantes ouvidos pela reportagem e pequenos comerciantes da região. Zé Maria diz que os prédios vão atrair “gente de grana” e, assim, os produtos vendidos à beira da rua Willian Speers – no caso dele, pilhas e barbeadores – logo se tornarão dispensáveis.

“Se vierem supermercados grandes aqui vai complicar um pouco”, diz Ana Eid, de 69 anos, que trabalha com o marido, Akira, em uma papelaria de prateleiras e paredes envelhecidas. “Aqui já está tudo meio abandonado. Os ônibus não passam mais desde que fizeram o terminal [da Lapa]. O movimento caiu muito. Hoje a única coisa que tem aqui é bar”, diz Akira, apontando para uma área onde se vê, literalmente, um boteco em cada esquina – com frequentadores tomando seus goles em plena manhã de quarta-feira.

"Daqui não saio"

Dona Ana faz coro e reclama do fato de o supermercado mais próximo ficar só do outro lado do trilho, na Lapa do Alto. “E o centro de saúde mais perto é na Vila Romana”, completa a mulher. Só o trânsito, calmo para uma manhã comum na capital, parece não tirar o sossego dos moradores daquele pedaço.

“Daqui não saio”, decreta dona Esmeralda Gasparini, de 76 anos, ao saber do projeto dos vereadores. À porta de uma casa de paredes gastas e amareladas, herdada dos pais e que, segundos seus cálculos, tem mais de 90 anos, ela faz a previsão: “Quem está aqui há muito tempo não vai sair para vender. E a estrutura daqui não vai dar conta de receber tantos prédios”.

Em tempo: a Lapa, que nos anos 1980 chegou a ter 83,7 mil moradores, hoje possui 59 mil – no início dos anos 1950 eram 50 mil. 

Outro lado

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Prédios e trânsito ao fundo no Butantã, onde construções serão limitadas pelo projeto
Nem tão distante dos barracões abandonados que em breve podem dar espaço a milionários empreendimentos, uma outra cidade parece surgir do outro lado da linha do trem, a chamada Lapa do Alto, na zona oeste de São Paulo. As áreas no mesmo bairro são separadas por um centro comercial onde o trânsito fica carregado a partir das 9h, quando as portas dos estabelecimentos são erguidas. Pela avenida Pio XI, empreendimentos consolidados se erguem numa área já valorizada, repleta de padarias, restaurantes, agências bancárias e grandes redes de varejo. Perto da rua Diógenes Ribeiro, por exemplo, dois imensos condomínios de alto padrão estão em fase final da construção.

Por volta das 9h de quarta-feira, o trânsito fluía, mas com lentidão, para quem seguia da Lapa em direção à região da avenida Paulista. O mesmo acontecia para quem se dirigia para a zona oeste, sentido Butantã, onde novas construções serão evitadas, conforme os substitutivos ao plano diretor apresentados pela comissão da Câmara Municipal.

O trânsito já é intenso em horários de pico nesta região, perto da marginal Pinheiros, sobretudo na ponte Cidade Universitária, que leva à USP. No caminho, corredores de prédios se espalham em ruas que cruzam a avenida Corifeu, uma das principais da região. O Butantã, junto com outros bairros como Alto de Pinheiros e a parte nobre da Lapa, integra, segundo a comissão, a chamada Macroárea de Urbanização Consolidada, onde se concentra uma população de renda alta e média e já sofre um processo de verticalização e adensamento construtivo.

Já no bairro seguinte, o Jaguaré, o mesmo projeto prevê o incentivo à verticalização e adensamento urbano. Novos empreendimentos já podem ser vistos em terrenos próximos a antigos galpões, lotes ainda baldios e até postos de gasolina abandonados. Têm como vizinhos grandes avenidas, conexões com as marginais, e grandes supermercados. É, como se vê, a nova mina de ouro do setor imobiliário.

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