Prédio invadido em SP ganha 'cara' de condomínio residencial

Sem-teto que invadiram prédio no centro da capital criam regras para convívio em grupo e dividem tarefas como limpar e cozinhar

Márcio Apolinário, especial para o iG |

Futura Press
Novos moradores de prédio na avenida Ipiranga, em SP
O prédio da avenida Ipiranga, número 811, no centro de São Paulo, começa, aos poucos, a criar uma identidade de condomínio residencial. Em meio a muita sujeira, goteiras, e um chão escorregadio, ao meio-dia, a voluntária Luzia Brito Silva começa a anunciar o almoço na cozinha improvisada no térreo do edifício, abandonado há 15 anos.

“Eu sou a chefe da cozinha. É um prazer danado saber que posso ajudar todas essas pessoas, preparando a comida para elas. Hoje temos arroz, feijão e frango com batata”, relata ela à reportagem do iG, que visitou na quarta-feita o prédio invadido há três dias por um grupo de sem-teto. Outros três imóveis também foram ocupados na madrugada de segunda-feira por cerca de dois mil integrantes do Frente Luta por Moradia (FLM) e Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC).

Enquanto os donos dos imóveis não pedem a reintegração de posse, aos poucos os sem-teto começam a criar uma rotina dentro dos edifícios. As famílias realizam o trabalho de limpeza e estabelecem regras para o convívio em harmonia. “Nosso maior problema agora é conseguir água. Precisamos dela não só para beber, mas também para limpar esse lugar, que está imundo, e nos limpar. Tem muita poeira e isso está incomodando demais”, reclamou Kátia de Oliveira, uma das cerca de 80 pessoas que se instalaram no quarto andar do prédio. "Se a gente ao menos pudesse religar a água, ficaria tudo mais fácil. Teríamos uma vida igual a de quem mora em uma casa comum. Coisa que eu nem lembro mais como é, desde que fui despejada da minha casa por acumular atrasos do aluguel", explica a moradora.

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Falta de água dificulta a limpeza e higiene dos moradores
Muitos moradores chegam a pedir água a estabelecimentos e prédios vizinhos. Fábio das Graças, de 43 anos, morador do 10º andar, conta que foi hostilizado em uma dessas situações. “Hoje (ontem) cedo fui pedir para encher um balde d’água em um bar aqui perto, fui xingado de vagabundo e insultado pelo dono. Eu ia usar a água para limpar o quarto. Ainda bem que o pessoal aqui do lado conseguiu um pouco para mim. Uma coisa que criamos aqui dentro foi o senso coletivo. A maioria das pessoas que estão aqui passa pelas mesmas dificuldades que eu. Boa parte delas também foi despejada de suas casas e precisou ir à luta para conseguir um teto para morar. Não estamos aqui porque queremos, estamos aqui porque é o que conseguimos no momento."

Luciano Jairo, 31, diz que os lugares onde conseguem ajuda, com maior facilidade, são nas igrejas. "Sempre que precisamos de água com urgência nós vamos à igreja Católica que tem aqui perto ou à Igreja do Largo do Paissandu. Lá a gente sempre é bem tratado, mesmo sendo desempregado, o que é meu caso."

Superlotação e regras

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Famílias dividem espaço para acomodar o máximo de pessoas no quarto
Kátia de Oliveira divide um quarto com outras 13 pessoas. “O bom é que revezamos bastante durante o dia, mas quando o pessoal chega do trabalho fica difícil se ajeitar aqui. Todo mundo tem que colaborar e seguir as regras”, diz.

Embora sejam poucas, as regras criaram alguns conflitos entre os morados. “Agora mesmo acabei de brigar com uma senhora aqui porque ela fica zanzando para todo o lado, enquanto a gente está limpando o quinto andar. Fui falar para ela que quando estamos fazendo a faxina tem que evitar atrapalhar. É uma das regras temos aqui”, reclamou Tina de Souza.

Os conflitos entre os moradores não se limitam apenas às regras e manutenção da limpeza. “Hoje (ontem), no quarto ao lado teve uma discussão porque o pessoal estava limpando o banheiro e a água estava vazando lá no térreo. Esse prédio está cheio de infiltrações, e agora teremos outra dificuldade, que é fazer a limpeza com pano úmido apenas”, explica Kátia.

O problema de moradia é velho conhecido da diarista Maria Ângela. “Eu estou aqui porque meu auxílio moradia está atrasado há quatro meses e não tenho como pagar meu aluguel. Fiquei inadimplente por um tempo e tive que sair. Não estou aqui porque quero, estou por necessidade. Não consigo emprego, e a única fonte de renda que eu tinha agora não tenho mais”, lamenta.

Nadir Florentina de Araújo está há mais de 20 anos no movimento por moradia. “Participei das invasões do Alto Alegre, fiquei lá por oito meses. Estava junto na do Viaduto do Chá e num conjunto residencial na Mooca. Não tenho como conseguir dinheiro para bancar uma casa, então vou caminhando do jeito que dá.”

Reivindicações

Entre as reivindicações do FLM, responsável pelas invasões, está a abertura de um edital de contratação do projeto do imóvel do INSS na avenida Nove de Julho, número 1084, com 540 unidades habitacionais. Projeto que está parado há mais de dez anos.

O movimento também exige a apresentação de cronograma de atendimento em unidades habitacionais de Companhia Metropolitana Habitacional (Cohab), Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e Minha Casa, Minha Vida para as famílias assistidas no programa de atendimento emergencial e Parceria Social totalizando 1.200 famílias.

Negociações

Durante a tarde desta quinta-feira, representantes da FLM e da Prefeitura de São Paulo participam de uma reunião para negociar a desocupação do prédio do INSS localizado na Avenida Nove de Julho, no centro da cidade. A reunião é realizada na Secretaria Municipal de Habitação (Sehab).

Reintegração

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) informou que aguarda a finalização do boletim de ocorrência (BO) para fazer o pedido de reintegração de posse do prédio ocupado. A Polícia Militar (PM) informou que monitora a situação nos locais. De acordo com a corporação, o protesto é pacífico e a polícia só pode agir após a emissão de uma ordem judicial.

AE
Famílias entram em negociações com a prefeitura nesta quinta-feira

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