Polícia continua na Cracolândia, decidem promotores e governo

Para a promotoria, a polícia deve perceber quando se afastar para permitir o trabalho dos agentes de saúde

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Frâncio de Holanda
Usuários consomem crack no ponto conhecido com Biricolândia
Reunião entre representantes do Ministério Público e de secretarias do governo paulista decidiu nesta sexta-feira que a Polícia Militar vai continuar na Cracolândia.

Segundo o promotor Eduardo Valério, em coletiva à imprensa, a polícia deve apenas combater o tráfico e garantir o trabalho de agentes de saúde e assistência social. Já o comandante da PM, Álvaro Camilo, disse que a polícia pode deter pessoas que estiverem consumindo crack. Nesta sexta-feira, o iG observou a ação ostensiva contra o usuário .

As ações abusivas da PM já estão sendo investigadas por inquérito aberto pelo MP.

A reunião foi para discutir os próximos passos da operação para que as promotorias entendessem os motivos da operação e pudessem entender o objetivo da Polícia Militar na Cracolândia. O promotor Eduardo Valério voltou a dizer que o Ministério Público não sabia da operação. "Fomos surpreendidos e não gostamos. A partir de agora, nos garantiram que vamos saber de tudo", disse.

Já o comandante da PM afirmou que todos estavam cientes e a operação foi um pedido dos órgãos públicos. "Órgãos da prefeitura que não conseguiam agir pediram uma ação mais intervencionista da PM", disse.

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Para Valério, houve um consenso entre MP e polícia. “Felizmente há um consenso da importância e necessidade de resgatar o dependente químico. A PM disse que não há e nunca houve a intenção de retirar os dependentes da Cracolândia. Isso foi uma consequência da ação”, disse Eduardo Valério.

Passos da operação

"A ação policial não se modificou, não se modificará, está dentro do planejado", disse o comandante da PM, Álvaro Camilo. Segundo Camilo, o objetivo da operação sempre foi recuperar as pessoas. " O objetivo policial é, em primeiro lugar, quebrar a logística do tráfico, tirar a sensação de que ali não há lei. Em segundo lugar, dar condições para que outros órgãos do poder público possam atuar e, em terceiro lugar, manter a segurança pública", afirmou.

Para Valério, a polícia deve perceber quando se afastar para permitir o trabalho dos agentes de saúde. “Quando a PM está próxima do dependente químico, os agentes não podem atuar porque eles ficam desconfiados de que esses agentes atraíram a policia até eles”, afirmou.

Balanço divulgado nesta sexta-feira mostra que 70 pessoas foram presas por tráfico e ainda há 34 mandados de prisão contra traficantes. Até o fim de fevereiro, devem ser implantadas três bases comunitárias móveis da PM.

Inquérito

Na última terça-feira, o Ministério Público (MP) de São Paulo abriu inquérito civil para apurar os objetivos e possíveis responsabilidades criminais da Ação Integrada Centro Legal, que pretende acabar com o consumo e tráfico de crack na região conhecida como Cracolândia. O inquérito também vai investigar possíveis abusos de poder por parte de policiais militares e casos de violência.

Para a Promotoria, a operação, que começou há uma semana, é “desastrosa” porque ocorreu de maneira “adiantada” e sem articulação entre a Polícia Militar e as secretarias municipais de Assistência Social e de Saúde.

“Tráfico de drogas é questão de polícia, dependente químico, não. Essa operação está servindo apenas para espalhar o problema pela cidade”, disse o promotor Eduardo Valério, da promotoria de direitos humanos da divisão da inclusão social.

iG Arte
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