Para fugir das surras do pai, a rua

Hoje com 43 anos, homem foi para as ruas para fugir das surras que levava do pai

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Eduardo Bandelli
Regildo Felix, em sua "cama", debaixo do viaduto
Regildo Flix dos Santos, de 43 anos, toma seu café da manhã na cama. Mal abre os olhos, por volta das 6h30, e já procura o pacote de bolacha de maisena que o acompanha em sua primeira refeição do dia. Sem levantar, tateia o chão em busca de uma garrafa de plástico com um líquido colorido. A iguaria é oferecida aos convidados num cômodo improvisado sob forte cheiro de urina debaixo do viaduto Armando Publisi, que corta a avenida Brigadeiro Luis Antonio, no centro da capital paulista.

"Refri. Pode tomar que tenho a boca limpa", explica o pernambucano de São Bento do Una. Regildo não bebe nem fuma desde os 30 anos. Faz parte de uma minoria entre as mais de 13 mil pessoas que vivem em situação de rua em São Paulo, cidade onde três em cada quatro moradores usam algum tipo de droga, bebida, ou ambos. Retirantes como ele são também cada vez mais raros na capital, já que a maioria dos que estão hoje nesta situação nasceram na própria cidade.

Ele dorme entre um pedaço de papelão e uma manta já surrada pelos anos. Não tem camisa de manga comprida e, por isso, reclama do frio que tem sido comum na cidade nos últimos dias. Bem diferente de outras terras por onde passou desde os 11 anos de idade, quando decidiu sair de casa para fugir das surras do pai. Nunca mais o encontrou e soube somente muitos anos depois da morte dele, por meio de uma irmã, também radicada em São Paulo. "Ela casou com homem rico. Se deu bem".

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Antes de se instalar no viaduto, onde diz viver há muitos anos, Regildo já morou em Belém (PA), Macapá (AP), Brasília, interior da Bahia e Rio de Janeiro, sempre trabalhando como pedreiro ou na roça. Em São Paulo, fixou residência, num espaço infestado pelas pombas e pela sujeira deixada pelos transeuntes que passam pelo viaduto durante o dia.

Divide o espaço com um casal que ainda dormia enquanto o morador tomava seu café, na última quarta-feira. As refeições no albergue, diz, costumam ser melhores. Mas Regildo detesta albergues. "É muita gente junta, não dá pra dormir. Gente que não conheço, que vem de longe".

Na rua, conta, se livrou das surras do pai. E aprendeu a bater. "Já botei muito cabra safado para correr. Hoje não apanho mais, não", afirma. Da polícia, diz, não toma nem revista. Mágoa mesmo só com a Guarda Civil, que vez ou outra leva dele o papelão que usa para confortar as costas esticadas sobre o concreto da rua. Que, segundo ele, vão abrigar seu descanso, e suas refeições, "até quando Deus mandar".

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