Para especialistas em trânsito, mudança não virá a curto prazo

Psicóloga diz que campanha da CET é ineficaz. Diretores de educação no trânsito explicam como é desafiador mudar os hábitos da população

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Mudar hábitos de pedestres e condutores tem sido um desafio para a cidade de São Paulo. Diante dos alarmantes índices de mortalidade no trânsito, com 19 pessoas atropeladas por dia e 630 mortes no último ano, segundo dados da Companhia de Engenharia e Tráfego (CET), a prefeitura colocou em prática a campanha de respeito à faixa de pedestres. A partir disso, o iG ouviu especialistas e foi em busca de cidades em que o pedestre é respeitado - graças a programas educacionais ou intensa fiscalização.

A psicóloga e neuropsicanalista, Eliana Nogueira do Vale, explica que o primeiro passo de uma campanha efetiva, que envolva mudança da população, é colocar as partes envolvidas em um cenário positivo. “É necessário mostrar aos pedestres e condutores como eles são importantes para fazer o ambiente funcionar”.

(Veja flagrantes de pedestres e motoristas desrespeitando as normas de trânsito na capital. Colaboração de Fernanda Simas, iG São Paulo)

Buscar uma convivência melhor entre as partes é algo necessário, explica Eliana. Porém, o tempo que isso pode levar precisa ser considerado. “O processo de reeducação, exige uma modificação mental com uma reprogramação do cérebro para a criação de uma nova memória”. Isso demanda tempo e pode variar para cada ser humano. “Depois de uma ação ser repetida várias vezes, se torna mais fácil até virar um hábito”, conta.

Para Eliana, a atual campanha da CET é “ineficaz e não produzirá resultados a médio prazo”. Muitos ensinamentos que aprendemos são por imitação e pressão social. Diante disso, a campanha necessita ter maior impacto local. Já na segunda fase do programa, a CET atua em 1% da cidade – nas consideradas Zonas de Máxima Proteção ao Pedestre.

“Não dá para prever quando a massa irá aderir novas atitudes, seja de forma repressiva ou não. Com o correto investimento, será desenvolvida a consciência com ‘C’ maiúsculo”, brinca. E foi exatamente o que aconteceu na cidade de Brasília, no Distrito Federal, segundo o professor da Universidade de Brasília (UnB) e presidente do Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito (IST), David Duarte Lima.

Divulgação - Detran/DF
O "Sinal de Vida" já é hábito entre os habitantes de Brasília, desde 1997

“Ficou entendido que o uso correto da faixa de pedestre tem ligação direta com a qualidade de vida e segurança. Independentemente de ordem de governo ou polícia. Isso é bom para todos”. Segundo o professor, o ponto mais interessante foi como a população incorporou a campanha. “A partir do momento que você desce do carro, passa da condição de motorista para pedestre. Todos nós somos os dois personagens em algum momento”, diz.

Lima explica que a fiscalização com aplicações de multas é necessária, porém possui efeito rápido. “O caminho educativo é um processo longo, mas com efeitos mais duradouros”. Concordando com a psicóloga Eliana, o professor ressalta que com o hábito a própria pessoa passa a se fiscalizar. “Cada um é o seu próprio agente de trânsito”, conclui.

O ponto interessante ao comparar São Paulo com outras cidades é perceber que, segundo autoridades de trânsito, tanto Brasília como São José dos Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba, apresentam baixos índices de mortalidade no trânsito pelo “constante monitoramento das condições de tráfego”.

Há 14 anos contra o desrespeito

Com uma frota de 1 milhão e meio de veículos, a capital federal não conhece o termo “furar o semáforo”. "O respeito é total. Não conhecemos o termo, nem temos o conhecimento de alguma ocorrência por esse motivo”, conta o diretor de Educação de Trânsito do Detran do Distrito Federal, Marcelo Granja.

Divulgação - Detran/DF
Crianças participam de saída educativa para o "Sinal de Vida", em Brasília
No período de 2010, a capital federal registrou sete mortes de pedestres. Em São Paulo, no mesmo período, foram conhecidas 630 . Tal diferença é explicada pelo período de atuação das campanhas de educação no trânsito. Brasília é considerada uma das cidades mais seguras para os pedestres no País – com o registro de 77 mortes nas faixas em 14 anos.

Segundo o diretor, em 1992 foram realizadas as primeiras intervenções educacionais, como teatros lúdicos para crianças do ensino fundamental. “Foi uma ação pioneira no País”. Para ele, o diferencial do Estado é o tratamento dado à criança. “Não as tratamos como futuros condutores. Elas são pedestres, ciclistas e passageiros”. No ano seguinte, com a implantação da Escola Pública de Trânsito, todos os futuros motoristas foram obrigados a passar por um treinamento de 30 horas.

Já em 1997, diante de altos índices de acidentes, Brasília protagonizou uma forte campanha chamada “Paz no Trânsito”, liderada pelo jornal Correio Braziliense . O movimento foi marcado por uma passeata de 25 mil pessoas pelas ruas da cidade. Com isso, o então governador, Cristovam Buarque, instalou os pardais, radares de velocidade eletrônicos, e iniciou oficialmente o programa de respeito à faixa de pedestres – contando com dois policiais em cada faixa da cidade.

“Nesse tempo houve clamor da sociedade por uma melhor qualidade de vida”, explica Granja. Já no primeiro mês da campanha, em abril de 1997, o gesto conhecido como "Sinal de Vida" foi implantado. Através de um sinal com o braço com a palma da mão em direção ao veículo, o pedestre poderia alertar o motorista de sua intenção de atravessar. Granja garante que tal ação foi determinante para alcançar o respeito aos pedestres nas vias onde não há semáforo na capital federal.

Após recente pesquisa, foi computado que apenas 20% dos motoristas não respeitam à faixa de pedestres não semaforizada. Em São Paulo, esse índice alcança os 86%.Para o diretor, é evidente que a diferença na quantidade de veículos que circulam influencia os números de ambas as cidades. Porém, a questão “vai além das estatísticas, aqui todos são iguais perante o trânsito", ressaltou.

Para concretizar e consolidar os números otimistas da campanha, Granja salienta a necessidade da aplicação de multas. Ele conta que, na época, houve certa indiferença da população em relação às autuações. “Eles não acreditavam que seriam autuados. O jeito foi contar com a imprensa para uma melhor divulgação da campanha. A intenção não era pegar ninguém no susto, eles precisavam entender o que estava errado”. Jornais locais realizaram uma contagem regressiva 30 dias antes do início das multas, no dia 1 de abril de 1997. Em um ano de campanha, o índice de atropelamentos caiu 39%.

Destaque no Paraná

Pela estatística, a capital federal perde para a cidade de São José dos Pinhais, no Paraná, com quatro mortes durante o período de 2010. No Estado, a cidade possui a 6ª maior frota de veículos, alcançando os 133 mil, e é considerada a 6ª mais populosa com 254 mil habitantes.

Divulgação - Prefeitura São José dos Pinhais
Agente da Guarda Civil visita escola durante programa educacional, em São José dos Pinhais

A diretoria do Departamento de Trânsito da cidade atribuiu ao setor de engenharia de tráfego os números otimistas da temporada. Segundo o diretor do Departamento de Trânsito em exercício, Adriano Zordan, o trabalho com as crianças do ensino fundamentos das escolas públicas e particulares tem sido fundamental para a contínua redução dos números de mortes.

Desde 2005, várias ações foram implantadas na cidade, como nova sinalização, pinturas de faixas, instalação de radares eletrônicos e vias que possuíam duplo sentido foram transformadas em sentido único. “Começamos dentro das salas de aula, com palestras e teatros sobre segurança nas vias. Depois priorizamos as entradas e saídas da escola”.

Após pesquisa, foi constatado que o maior número de atropelamentos acontecia antes e após a saída das crianças do colégio. “As blitz educativas são intensas nos últimos anos principalmente nesta nova gestão da prefeitura”, conta.

Durante quatro anos, a cidade esperou. “Apenas em 2009, notamos diferença nas condutas do motorista. Para toda mudança, existe o tempo necessário para se processar novos hábitos”. E, segundo ele, o trabalho não acabou. A cidade recebe mil novos veículos por mês em sua frota. “Há a estimativa que os índices continuarão caindo. O nosso desafio é manter a frota controlada e continuar educando os novos motoristas”. 

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