Para amigos e delegado, tragédia dos Almeida Prado é um mistério

Após investigações, a polícia concluiu que caso não tem explicação. iG ouviu amigos da família, que também não sabem o que ocorreu

Carol Ferreira e Cristiane Hortenci, especial para o iG |

A causa do crime que vitimou três irmãos na cidade de Jaú, cidade a 300 quilômetros de São Paulo, deve entrar para a galeria dos mistérios insolúveis. Segundo o delegado do 1º Distrito Policial, Euclides Francisco Salviato Júnior, “é bem provável que o promotor venha pedir o arquivamento do processo". Para ele, a motivação do crime continuará sendo um mistério . “O motivo ele levou com ele, porque a gente não imagina o que possa ter acontecido”, conclui o delegado.

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Ana Maria Pachedo de Almeida Prado, 89, mãe do bancário aposentado Francisco Miranda de Almeida Prado, 59, que atirou contra suas duas irmãs, as professoras Ana Cecília Miranda de Almeida Prado, 66 anos, e Ana Carolina Miranda de Almeida Prado, de 60 anos, teve alta da Santa Casa de Jaú. A mulher viu o filho atirar contra as irmãs e depois cometer suicídio.

Com a ajuda de um padre, o filho mais novo, o advogado João Batista de Miranda Prado Neto, de 52 anos, deu a notícia da morte à matriarca. Conforme informações de familiares, ela entrou em estado de choque e não se lembra dos crimes.

Reprodução/Google Maps
Jaú fica a 300 quilômetros de São Paulo
O crime

No final da tarde de domingo (2), por volta das 17h50, após uma discussão, Francisco atirou três vezes com um revólver calibre 38. O primeiro atingiu o queixo da irmã mais nova, Ana Carolina, que morreu na varanda da casa. A outra irmã, mais velha, tentou correr, mas quando estava em frente à garagem da residência, acabou levando um tiro no lado esquerdo do rosto. Em seguida, o aposentado teria entrado na sala de jantar e atirado contra a própria cabeça.A matriarca da família presenciou a tragédia e, desesperada, pegou a arma do crime e escondeu atrás da geladeira.

A Polícia Militar foi acionada às 18 horas. Cinco minutos antes, o cobrador de ônibus Paulo Bezerra Cavalcante, 59, passava pelo local e foi a primeira pessoa a ser informada do crime. Ele lembra que havia acabado de sair do trabalho. Ao passar em frente da residência, se deparou com uma senhora, muito nervosa, pedindo ajuda.

“Ela estava balançando o portão e gritando por socorro. Eu perguntei o que tinha acontecido e ela disse que o filho tinha atirado nas duas filhas dela. Perguntei se ele estava na casa e ela falou que não sabia. Logo a polícia chegou e eu fiquei tomando conta dela, do lado de fora”. De acordo com Cavalcante, a mulher estava muito apavorada e teria contado que os irmãos tiveram uma discussão por causa de herança – hipótese que foi descartada pela polícia, após as investigações. “O irmão disse que não havia discussões entre os irmãos e que a partilha dos bens, pertencentes ao pai falecido, ocorreu há cerca de 16 anos”, conta o delegado.

O policial que atendeu a ocorrência, Aguinaldo Valentin Bastos, também confirma que ouviu da mãe dos irmãos Almeida Prado a hipótese de disputa por herança. “Chegando no local verificamos duas mulheres e um homem morto. A mãe estava presente e viu tudo. Ela estava em estado de choque e foi encaminhada ao hospital, mas relatou que eles haviam discutido por causa de uma herança”, afirma.

Família tradicional

A família Almeida Prado é uma das mais tradicionais do interior do Estado de São Paulo e possui imóveis, fazendas, gado e carros. Em Jaú, cidade de 131 mil habitantes, vivem cerca de 400 integrantes da família, mas estima-se que existam em torno de 5 mil descendentes espalhados pelo País.

Esse grupo, no começo do século, tinha uma grande rede de poder nas mãos, sendo chamados de ‘coronéis do café’. Eles também trouxeram muitos melhoramentos para a cidade”, conta historiador

De acordo com o historiador Julio Poli, apesar de não serem fundadores da cidade, os Almeida Prado são considerados parte da leva de pioneiros, chegando a Jaú em 1858 – cinco anos após a fundação –, vindos de Itu. Assim que chegaram, os irmãos entraram na política e logo ocuparam cargos eletivos na cidade.

Vicente de Paula Almeida Prado, filho de major Prado, que hoje dá nome a uma rua na cidade, foi um dos primeiros bacharéis em direito da cidade, sendo eleito várias vezes senador pelo Estado de São Paulo. “Esse grupo, no começo do século, tinha uma grande rede de poder nas mãos, sendo chamados de ‘coronéis do café’. Eles também trouxeram muitos melhoramentos para a cidade”, conta o historiador. Nesta época, segundo relatos da historiadora Flávia Arlanch Martins de Oliveira, no livro “Faces da dominação da terra (Jaú 1890-1910)”, os Almeida Prado se casavam entre si para não dividir a herança.

Ao contrário do que foi especulado, os envolvidos na tragédia do início da semana possuem um parentesco distante com os Almeida Prado desta época. Conforme uma pessoa próxima à família, eles teriam apenas a casa em que moravam e um carro. Todos tinham profissões de classe média.

Uma família normal

Divulgação
A Paróquia Nossa Senhora do Patrocínio, em Jaú: uma das mais importantes da cidade e frequentada pela família
Educado, reservado e gentil são alguns dos adjetivos dados pelas pessoas que conheciam o bancário aposentado Francisco Miranda de Almeida Prado, 59. Ele nunca casou ou teve filho Desde que se aposentou, vivia entre sua residência em Jaú, junto com a mãe e as duas irmãs, e São Paulo, onde teve seu último emprego, como gerente de banco.

Um velho conhecido de Francisco, que trabalha em uma loja de conveniência localizada num posto de gasolina e que preferiu não se identificar, frequentada diariamente pelo aposentado, relata que ele sempre foi muito gentil, cumprimentava e conversava com todos os funcionários. “Ele era uma pessoa normal, tranquilo, tomava cerveja aqui todos os dias, mas nunca ficou bêbado ou exaltado. Não tinha queixa dele. Era uma pessoa contida, conversava bem, é de admirar ele ter feito isso”.

Ele disse ainda que nunca reclamou que estivesse passando por algum problema financeiro ou se tinha problemas de relacionamento com a família. “Sei que ele, há algum tempo atrás, vendia e comprava imóveis, até já me ofereceu um imóvel. Nunca o vi sem dinheiro, sempre chegou aqui e pagou”, conta.

O padre Celso Buscariollo, responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Patrocínio em Jaú, foi uma das primeiras pessoas a estar com a mãe das vítimas, Ana Maria, após a tragédia. Uma das filhas, Ana Carolina, era ministra da eucaristia e atuante na igreja, o que fez com que o sacerdote criasse uma relação de amizade com a família. Apesar de não ter uma hipótese para o que ele chama de acidente, o padre descarta a possibilidade de briga por herança. “Eles não estavam em fase de inventário ou divisão de bens. O pai deles é falecido há muitos anos”.

Para Buscariollo, somente os envolvidos poderiam responder sobre o real motivo, já que a mãe, que presenciou as mortes, “apagou” da memória o ocorrido. “Eu não posso dizer que tenham acontecido discussões entre eles, mas, se isso aconteceu, foi na normalidade de uma vida familiar”, aponta.

A notícia sobre a morte dos filhos foi dada à mãe na manhã de terça-feira, 4, por ele e o filho João. “Ela está aceitando. Claro que está sendo muito duro, mas pelo menos ela recebeu a notícia com mais calma”. A princípio, foi informada de que os filhos estariam internados e em estado grave. O padre e o filho procuraram confortá-la para que recebesse a notícia de maneira menos agressiva.

Eles não estavam em fase de inventário ou divisão de bens. O pai deles é falecido há muitos anos”, afirma padre

Buscariollo esclarece que houve uma relação errônea feita entre os Almeida Prado do passado e o núcleo familiar envolvido nesta tragédia. “Elas eram aposentadas e viviam destas aposentadorias de professoras. Nada de milhões, nada de riquezas”, salienta.

Em meio a lembranças de uma das últimas conversas que teve com Ana Carolina, sobre a reforma da igreja e o novo equipamento de som, ele lamenta o ocorrido. “Foi uma perda muito grande. A Ana Cecília também era voluntária no Hospital Amaral Carvalho e fazia um trabalho maravilhoso. Tinham um cuidado muito grande com os irmãos, tanto é que, se ele estava oferecendo algum risco pra elas, elas estavam enfrentando isso com amor. A mãe também era muito mimada por elas”.

Apesar de não ter contato com Francisco, o sacerdote diz que mãe e filhas nunca comentaram nada sobre comportamento agressivo ou a existência de uma arma de fogo na casa.

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