Os amigos ficaram com inveja quando consegui trabalho no Brasil

A francesa Souraya Sbeih faz parte de um grupo em grande crescimento: das pessoas que escolheram o Brasil para trabalhar e viver. Hoje, eles são 1,5 milhão

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

A engenheira francesa Souraya Sbeih, de 25 anos, provocou uma onda de “inveja boa” entre seus amigos quando anunciou, no começo deste ano, que tinha conseguido uma vaga na Alstom. Em parte, por ser uma das maiores empresas do País e uma das maiores do mundo em infraestrutura e transporte. Mas o que pesou mesmo na admiração dos colegas foi o lugar: em vez de Paris, São Paulo.  

Arquivo pessoal
A engenheira francesa Souraya Sbeih, de 25 anos: "Nunca me senti tão rapidamente em casa como em São Paulo"

Leia também: Veja como vivem e onde moram os estrangeiros no Brasil

Meus amigos e minha família ficaram com muita inveja. Todo mudo achou muito legal eu ter uma oferta de trabalho no Brasil”, conta ela. “Todos queriam saber como é que eu fiz para conseguir. Para todas as vagas em São Paulo para as quais eu me candidatei havia muita concorrência.”

Com isso, Souraya passou a integrar o grupo crescente de estrangeiros que trocaram a Europa e os Estados Unidos pelo Brasil atraídos pela combinação de economia em ascensão, democracia liberal e tolerância étnica e religiosa.

 Segundo dados do Ministério do Trabalho, esse grupo cresceu 19%, comparando o primeiro semestre de 2010 com o mesmo período deste ano. Olhando o número mais de perto, se nota que 60% das 26 mil pessoas que ganharam essa autorização no primeiro semestre de 2011 têm ensino superior completo, mestrado ou doutorado. Souraya, por exemplo, se formou em engenharia em uma das escolas mais importantes da França, fez intercâmbio em Hong Kong e fez mestrado na tradicional London School of Economics, na Inglaterra.

Com as sucessivas levas de imigrantes, hoje vivem cerca de 1,5 milhão de imigrantes no País, segundo dados do Ministério da Justiça. É pouco mais que a população de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, e equivale a 0,8% da população total do Brasil. É um número expressivo.

Em 1876, quando a imigração europeia para o Brasil começava a se intensificar, a porcentagem de estrangeiros na população brasileira era de 0,55%. Em 1913, quase 4% da população brasileira era formada por imigrantes. Porém, na medida em que a vida melhorava na Europa – e, durante várias décadas, piorava no Brasil – esse número caiu até atingir 0,1%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nunca é demais lembrar que as taxas de inflação por aqui, nos anos 1980, atingiam frequentemente três dígitos por ano. O Brasil, que formara uma população na qual sobrenomes alemães e japoneses conviviam na mesma certidão de nascimento, deixara de ser atraente. Na verdade, afastava as pessoas.

Todos queriam saber como é que eu fiz para conseguir. Para todas as vagas em São Paulo para as quais eu me candidatei havia muita concorrência”

Até meados da década de 2000, segundo estudo do governo dos EUA com vários países do mundo, o Brasil era um grande exportador de gente. Agora, o País atingiu o equilíbrio: o número de pessoas que entram e que saem é o mesmo. E a tendência, para os próximos anos, é que o saldo seja, pela primeira vez em décadas, positivo: haverá mais pessoas entrando do que saindo.

Menu em inglês

Há poucos anos, menus em inglês e espanhol em São Paulo eram tão raros quanto encontrar a avenida Rebouças sem trânsito às 19h. Agora, é possível ir ao restaurante e ser atendido por um garçom que fala inglês em bairros como Jardins, Itaim, Pinheiros e Vila Madalena. Além, claro, da variedade: há restaurantes sérvios na zona sul de São Paulo onde sérvios são os cozinheiros e feiras bolivianas no Pari iguais às de La Paz. 

Também é cada vez mais comum escutar outro idioma que não o português nas ruas da capital paulista, inclusive fora das grandes avenidas e há diversas escolas de idioma na cidade que oferecem aulas de português para estrangeiros. E, se você é louro, tem olhos claros e é meio branquelo, é possível que alguém pergunte, aos gestos, se você precisa de ajuda em um ponto de ônibus – como já aconteceu com quem assina este texto.

Além disso, nas tradicionais peladas de futebol, essa instituição nacional, é cada vez mais frequente ter jogadores de final de semana xingando o "referee" (juiz de futebol, em inglês) - e blogs sobre futebol brasileiros escritos, em inglês, para torcedores estrangeiros de times brasileiros, como o Any Palmeiras.

Mas a influência também acontece nas grandes coisas, que mal se notam. Souraya, por exemplo, trabalha em uma empresa de transportes e ajuda a suprir a falta de engenheiros numa área crítica para o desenvolvimento do País.

E, aos poucos, os efeitos da presença das pessoas que vêm para trabalhar se acumulam dia a dia, nas grandes e nas pequenas coisas, mudando a vida tanto das pessoas que nasceram aqui quanto as que escolheram o Brasil para morar.

Mudar e se adaptar

Uma certa gentileza paulistana, que parece um tanto estranha a quem se acostumou a ver pessoas trocarem ofensas no trânsito, chamou a atenção da engenheira e é uma das razões que fazem com que Souraya diga ter se adaptado logo à cidade. “Nunca me senti tão rapidamente em casa como em São Paulo, e acho que é por causa da cordialidade das pessoas daqui”, conta ela, que formou rapidamente um grupo de amigos no País, faz aulas de dança na capital e desistiu de ter um carro, já que resolveu morar perto do trabalho.

É claro que a gentileza não apaga os problemas de São Paulo nem do Brasil, como a violência, a desigualdade expressiva e uma burocracia cruel que torna a vida de pessoas e empresas bem difícil. Souraya, como outros paulistanos, acha os preços muito altos – “nunca vi uma tarifa de telefone tão cara” –, gostaria de poder andar mais de bicicleta, como fazia em Paris, e acha ruim que as rádios não tenham programas interessantes sobre política e cultura.

Ao mesmo tempo, ela notou uma série de pequenos prazeres da capital paulista que passam despercebidos para quem só consegue enxergar longas filas de congestionamento. “De fato, o trânsito é ruim, mas se você mora perto de onde você trabalha tudo fica bem. Há sempre opções boas por perto. Gostei muito dos museus e fiquei impressionada com a qualidade e a quantidade de exibições de arte, de shows de música”, diz ela, em bom português. “Também é maravilhoso a quantidade de frutas gostosas nas feiras, a variedade de comidas boas e o número de ônibus nas ruas, que tem uma idéia muito boa. Em São Paulo, há lixeiras dentro dos ônibus, algo que eu nunca tinha visto”.

E para se guiar entre uma São Paulo que ainda tem poucos guias para estrangeiros recém-chegados, Souraya usa o blog “ Where in São Paulo ” (Onde em São Paulo, na tradução do inglês), com dicas, em inglês, para a crescente comunidade de estrangeiros que querem conhecer bons lugares para comer, comprar e visitar. É um fenômeno comum quando a imigração é frequente e recente: no começo do século passado, por exemplo, um dos jornais com a circulação mais expressiva na cidade era o Fanfulla - todo escrito em italiano. Neste século, como mostram cidades cosmopolitas como Paris, Londres e Nova York, um blog com dicas em uma outra língua são um dos sinais contemporâneos de que a cidade se tornou, de fato, global e atraente para uma geração de jovens que estão, como os imigrantes do começo do século 20, ajudando a mudar as feições do País.


    Leia tudo sobre: imigraçãosão paulo

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG