Intenção era instalar base fixa para realizar audiências na região; usuários estão desconfiados e aproximação é mais difícil

Usuário de crack na rua General Marcondes Salgado
Frâncio de Holanda
Usuário de crack na rua General Marcondes Salgado
A operação que está sendo realizada nas ruas da Cracolândia há mais de dez dias impediu o plano do Tribunal de Justiça de São Paulo de instalar uma base fixa na região para atender os usuários de drogas.

O desembargador Antonio Carlos Malheiros, da Coordenadoria da Infância e Juventude, foi um dos idealizadores do projeto e agora estuda alternativas.

“Vamos ter que reestruturar nossa ação e, provavelmente, nossas audiências acontecerão em um local disponibilizado pela Saúde [Secretaria Municipal de Saúde]. Vamos dar determinações sobre a vida de crianças e adolescentes, tentar trazer para perto a família, com o apoio de serviços sociais. É outro plano, diante de tudo o que aconteceu", diz Malheiros.

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A ideia do Tribunal era a de criar um vínculo entre usuários de drogas e integrantes do Judiciário. “Meu sonho era levar juízes, promotores e defensores públicos para as ruas para ouvir crianças e adolescentes em drogadição. Eles iriam andar entre as pessoas, sentir o gosto da lágrima das pessoas que vivem nessa situação”, relata Malheiros.

A intenção do programa era, a partir dos relatos obtidos, os juízes decidirem sobre a retirada das pessoas da rua e encaminhá-las para tratamento, o que, segundo o desembargador não implicaria em uma internação compulsória. “Eu sempre vejo a internação compulsória como a última das medidas para tratamento. Sempre que possível queremos tratar as crianças e adolescentes em meio aberto.”

Na visão de Malheiros, o fato de a ação Polícia Militar ter dispersado os usuários de drogas das ruas da Cracolândia foi o principal fator para inviabilizar a instalação de uma base fixa de audiência no local.

“Hoje temos no centro mini cracolândias. Tínhamos a maior Cracolândia do mundo e agora os cerca de 2.000 usuários se espalharam para regiões do centro. Isso sem contar as outras cracolândias que já existem em outros bairros, para onde esses usuários podem ir”. O desembargador acredita ser difícil retomar o plano inicial. “Os usuários estão com medo, desconfiados. Qualquer aproximação agora vai ser mais difícil.”

Ação repressiva

“De início achei a operação boa, mesmo não entendendo porque não era feita pela Polícia Civil, que para mim tem um trabalho de inteligência importante para o combate ao tráfico. Mas horas depois percebi que a guerra verdadeira não era contra o tráfico, mas contra o usuário”. O desembargador Malheiros vê a operação como uma maneira de “jogar para debaixo do tapete da sociedade pessoas que são consideradas por muitos como verdadeiro lixo”.

Outro lado

Em nota divulgada nesta semana, o governo afirma que as ações na região da Cracolândia foram planejadas por pelo menos três meses junto com a Prefeitura. “Membros do Ministério Público e do Poder Judiciário participaram de reuniões e muitas das sugestões foram contempladas. Desde o princípio, Governo e Município foram claros em relação ao cronograma e ao caráter contínuo e de longo prazo da operação”, diz o documento.

Detalhe de um muro na rua Helvétia, uma das mais movimentadas na Cracolândia
Frâncio de Holanda
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