"Olho para trás e vejo que valeu a pena", diz ex-combatente de 32, aos 97 anos

Último ex-combatente a presidir a Sociedade de Veteranos de 32, Gino Struffaldi lembra dos combates que marcaram o País há 79 anos

Daniel Torres, iG São Paulo |

“Não me lembro de ter sentido medo na revolução. Não porque eu seja muito corajoso. É que eu achava que não tinha motivo para sentir.” Assim o capitão reformado do Exército, Gino Struffaldi, aos 97 anos, com uma ótima memória, relembra os meses que marcaram para sempre a sua vida.

Aos 18 anos, enquanto servia o Exército, Struffaldi aderiu à luta da Revolução Constitucionalista de 1932 não por convicção, mas por dever. “Eu não faço floreios a respeito da minha participação. Eu estava na ativa e o meu comando se solidarizou com a revolução e eu fui junto. Depois fui percebendo o movimento da população e me entusiasmei”, conta minutos antes de deixar, na última quinta-feira (07), a presidência da Sociedade Veteranos de 32 - MMDC, entidade que tentar manter viva a memória do movimento.

A passagem de presidência da sociedade foi um divisor de águas na história do movimento. Com 47 ex-combatentes ainda vivos espalhados por várias regiões do País, e cada um com pelo menos 97 anos, Gino provavelmente foi o último presidente da entidade a ter participado de batalhas durante a revolução.

No seu lugar, entra o coronel da Polícia Militar Mário Fonseca Ventura, filho do ex-combatente Mário da Silva Ventura, que há 15 anos participa como voluntário da sociedade e divulga as ações e a história do movimento. “Estamos entrando num momento diferente. Até criamos a associações dos familiares dos veterenos de 32, já que o comandante lá de cima está chamando e os nossos combatentes estão sendo transferidos. E lá eles não podem falar não”, brinca.

Ainda ativo, Gino Struffaldi lembra com detalhes de várias passagens das batalhas. “O dia mais difícil talvez tenha sido um dos bombardeios, quando o nosso alojamento ficou parcialmente destruído. Mas felizmente não matou ninguém. Nós estávamos em um território muito grande e tínhamos onde nos abrigar. E ainda por cima, a aviação naval que nos bombardeou vinha de lugares que sabíamos de onde estava vindo. Não havia um grande medo”, conta.

Daniel Torres
Gino Struffaldi ao discursar durante sua despedida da presidência da Sociedade dos Veteranos de 32
A Revolução Constitucionalista de 1932 está entre os maiores conflitos civis e último grande conflito armado ocorrido no Brasil. São Paulo era contra a ditadura imposta pelo presidente Getúlio Vargas, que duraria 15 anos, a partir de 1930 . Em São Paulo, as autoridades e a população reivindicavam a volta do Estado de Direito. Em 23 de maio de 1932, uma grande manifestação foi realizada na Praça da República, na qual foram mortos quatro estudantes: Euclides Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Souza e Antonio Américo de Camargo Andrade.

As mortes exaltaram os ânimos da população e intensificaram o entusiasmo a favor da Revolução Constitucionalista no País. Os revoltosos de São Paulo esperavam a adesão de outros Estados, o que não ocorreu. Os 35 mil homens de São Paulo enfrentaram um contingente de 100 mil soldados das tropas federais, de 9 de julho a 4 de outubro. Sozinhos, os paulistas não conseguiram manter a revolução e assinaram rendição em outubro de 1932. Após a revolta civil, o governo convocou eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, realizada em 3 de maio de 1933, que elaborou a Constituição de 1934.

“A revolução é um movimento reconhecido internacionalmente. Um dos poucos movimentos que não queria poder, território, finanças, nada. Só queria de novo a sua Constituição”, diz Struffaldi contra as críticas dos que ainda colocam o movimento de 32 como separatista.

Desde o último mês, Gino Struffaldi tem mais um aliado na batalha pela divulgação do sentido constitucionalista da revolução: uma lei promulgada pela presidenta Dilma Rousseff inscreve os nomes de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo no Livro dos Heróis da Pátria, que fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. “Deixo a presidência da sociedade muito satisfeito. Depois disso não preciso dizer mais nada. Demorou 79 anos, mas valeu a pena. Olho para trás e vejo que valeu a pena”, completa.

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