Objetos e animais são "esquecidos" por ex-vizinhos

Num grotão hoje só parcialmente habitado, remanescentes acabam adotando até cães abandonados e dizem ter saudade de ex-moradores

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

“Ele quis ir embora junto, não”, diz Rosa Izídio dos Santos, 54 anos – e 30 de morro – apontando para Ferrari, o cão vira-lata que foi obrigada a adotar depois que o vizinho se mudou para um dos apartamentos construídos pela CDHU para abrigar ex-moradores de áreas de risco de Cubatão.
Além de alimentar o cão, e também uma gata de outra vizinha que ora aparece em seu quintal, dona Rosa, baiana de Itabuna, diz conviver nos últimos dias com a sujeira deixada pelos amigos das casas ao lado antes de saírem do local. Panelas com gordura, que juntam mosquitos em água parada, são apenas alguns dos objetos deixados de lembrança, segundo ela.

Eduardo Bandelli
Cão abandonado por família que se mudou agora recebe cuidados de moradores remanescentes
Mesmo assim, quando saem dos barracos, os antigos vizinhos deixam rastros de saudade e certa tristeza pela separação. “É uma choradeira só”, diz dona Rosa, já querendo chorar, virando o rosto para baixo, só de falar do neto Cauã, de três anos, que se mudara para a Praia Grande havia 15 dias com os pais. “Ele já veio me ver três vezes. O meu netinho...”. Rosa diz que até topava sair do grotão, mesmo deixando para trás memórias como a chegada dos filhos recém-nascidos após o parto ou das festas de casamento que eram realizadas ali mesmo, em cima do morro. Hoje ela até quer sair da favela. O problema, diz, é o marido, que teme perder o emprego como encanador se deixar a clientela.

Do outro lado da ponte, que liga dois pontos do grotão, a saudade dos moradores já havia sido substituída pela irritação. Em meio a um trabalho extra de última hora, o auxiliar-geral João de Oliveira bufava enquanto providenciava a limpeza do terreno ao lado do seu barraco, onde os vizinhos, que acabavam de se mudar, deixaram pilhas de entulho, areia, barro, madeira e concreto. Levava a carriola, e era observado pelo filho Deivid, de dez anos, que lamentava a perda da companhia dos filhos do vizinho. “Só a menina [a filha, de seis anos] gostou da mudança. O vizinho era um xarope, vivia enchendo ela. Ela falou: ‘graças a Deus que ele foi embora’. E ficou cantando música enquanto eles carregavam as coisas. Mas era música de alegria”, lembra.

Já para os amigos e boleiros de plantão Isael Correia, 38, e Manoel Martins, 37, que dividem um barraco no ponto mais alto do grotão, a mudança dos vizinhos foi a oportunidade de ter, a poucos metros, a tão sonhada “quadra própria”. Onde antes morava uma família funciona hoje uma quadra de futebol improvisada, quase a beira de um precipício, montada após mais uma demolição na região.

Eduardo Bandelli
Quadra de futebol improvisada em terreno de casa demolida do grotão
O futebol, diz Manoel, é a distração num local onde não se tem muito o que fazer, nos últimos dias, a não ser assistir à mudança de antigos vizinhos. Na quadra vazia, ele lamenta a sorte na última partida contra outros moradores e comenta o destino do amigo Isael: “Ele devia ser jogador profissional. É meia-esquerda e joga demais. Só não deu certo e agora está aqui”, diz Manoel, flamenguista, sobre o corintiano, amigo e companheiro de quarto – e de sala e de varanda e de cozinha, já que tudo ali é um cômodo só.

    Leia tudo sobre: Serra do Marárea de riscochuvas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG