Negociar crime passional é mais difícil, diz capitão do Gate

Adriano Giovanni, capitão do grupo de elite da PM, participou de negociações do caso Eloá e do recente sequestro em Araçatuba

Lectícia Maggi, iG São Paulo |

Nos 16 anos em que atua no Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar de São Paulo, o capitão Adriano Giovaninni, de 39 anos, vive situações-limite, quase sempre envolvendo reféns. Ele é um dos principais negociadores do grupo de elite da PM e, junto aos colegas e superiores, tem de tomar a difícil decisão de saber a hora de interromper as conversas com o sequestrador e agir. “É muito criterioso, temos de nos basear em fatos concretos porque é uma decisão que pode tirar a vida de alguém”, afirma ao iG.

Na quarta-feira, Giovaninni e sua equipe pegaram um avião de São Paulo para Araçatuba a fim de tentar convencer o ex-guarda civil Moacir Gonçalves de Oliveira, de 46 anos, a se entregar e liberar a ex-mulher, a dentista Márcia Westpal Mello, de 41 anos, que mantinha sob a mira de um revólver dentro de uma clínica odontológica. Na quinta-feira, após mais de 20h de negociações sem sucesso, um “sniper” é autorizado a atirar.

Oliveira é atingido na cabeça e Márcia solta sem ferimentos . Giovanini explica que o disparo é um dos últimos recursos, quando o sequestrador está irredutível. “Vemos o andamento da negociação, ele (sequestrador) vai dando indícios das intenções. (Quinta-feira) de manhã (Oliveira) mudou o cenário. Antes, ficava separado da Márcia, os dois conversavam, mas em nenhum momento vimos agressões. Pela manhã ele agarrou o braço dela, colocou uma arma nas costas e começou a jogar gasolina no ambiente. Dizia que sairia dali só morto e ela também”, explica.

Segundo ele, conversas com familiares do sequestrador e da vítima também são importantes para ajudar a definir o rumo da ocorrência. “O próprio irmão dele falou ele iria matá-la”, afirma.

Ao contrário do que se possa imaginar, os tiros não são sempre dados na cabeça, como ocorreu neste sequestro. A intenção, explica o capitão, não é matar, mas imobilizar. “Se a pessoa mostra só a cabeça, é na cabeça, mas já fizemos ocorrência com tiro na mão para o sequestrador largar a faca e cessar a agressão”, diz e acrescenta que dependendo do local onde é baleada, por exemplo no braço, a pessoa sente dor e cai, dando tempo para a tropa entrar e imobilizá-la.

Segundo ele, outra preocupação do Gate antes de autorizar o “sniper” a atirar - o que é chamado por eles de “dar luz verde” - é traçar a possível rotar da bala. “Tem de saber onde o projétil vai morrer, se não vai atravessar. No tiro de ontem (quarta-feira) sabíamos onde a vítima estava; se não se sabe, e ela está sentada, deitada, pode-se acabar executando-a acidentalmente”, esclarece.

Caso Eloá

Giovaninni foi um dos principais negociadores do Caso Eloá, que acabou de forma trágica em Santo André, no Grande ABC, em outubro de 2008. Inconformado com o término do relacionamento com a adolescente Eloá Pimentel, de 15 anos, Lindemberg Alves, de 22, invadiu a casa da ex-namorada e a manteve refém com a amiga Nayara Alves por mais de 100 horas. O Gate invadiu o apartamento e Eloá acabou morta com um tiro na cabeça dado por Lindemberg, que também baleou Nayara na boca.

Quando questionado sobre o fracasso da operação policial em Santo André, Giovanini diz que os dois casos não podem ser comparados. “Na de Santo André a geografia da edificação era complicada. Apesar da imprensa ver Lindemberg aparecer na janela e achar que era o momento, os atiradores achavam que não era. Não sabiam onde estavam as meninas”, explica.

O sequestro em Araçatuba, diz ele, foi mais fácil pelo fato dos policiais conseguirem ter visão do que acontecia dentro da clínica. “O local era tranquilo, apesar de ele ter colocado armário na janela de vidro, a gente via tudo, os reflexos do vidro, os dois conversando”, afirma.

Crimes passionais

O capitão Giovaninni explica que, entre os tipos de sequestro, os passionais são sempre os mais difíceis, dada a ausência de reivindicações. “É bem diferente de alguém que rouba um comércio, não consegue sair e faz reféns. Ele prefere se entregar, ser preso, depois de um tempo pega indulto, semiaberto”, diz e explica que, nestes casos, os pedidos principais são a presença de advogado e da imprensa.

“No caso passional, a pessoa que fez o sequestrador sofrer está ali, ele não precisa de mais nada, não pede advogado comida, nada. São medidas protelatórias para ganhar tempo e criar coragem de matar.”

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