Morte de aluno de filosofia da USP vira 'suspeita'

Morte de estudante em campus foi dada como natural, mas, a pedido dos pais de estudante, Boletim de Ocorrência foi alterado

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

O estudante de filosofia Samuel Souza, de 41 anos, morreu na última quinta-feira (2) dentro do campus da Universidade de São Paulo (USP) após descer de um ônibus e passar mal. A morte, que foi registrada como natural no Boletim de Ocorrência (BO) feito no 93º DP, no Jaguaré, agora foi modificada para 'suspeita'. As informações foram confirmadas pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP).

A alteração foi feita por solicitação dos familiares do estudante, que vieram de Juazeiro (BA) para o enterro. Eles pedem que a polícia investigue o caso. A USP afirma que o estudante já foi encontrado morto por guardas universitários. Já alunos e funcionários da instituição ouvidos pelo iG falam em negligência e omissão de socorro.

Souza morreu por volta 10h na praça do Relógio do Sol, localizada a 3km do Hospital Universitário (HU), e seu corpo ficou exposto por 6h até ser removido ao Serviço de Verificação de Óbitos da Capital, o Svoc. “Eles desceu do ônibus, titubeou, caiu no chão, tentou andar e caiu novamente”, diz um de seus colegas, que não quis ter o nome publicado por medo de represálias.

Outra amiga, que também conversou com a reportagem sob a condição de não ter a identidade revelada, disse que telefonou para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), para o HU e para a guarda. “O Samu disse que não tinha viaturas disponíveis; o HU que ambulâncias só servem para transferência para outro hospital e não estão à disposição para socorro”, conta.

Uma viatura da guarda chegou, mas, segundo ela, se recusou a levar o estudante. “Ele estava com pulso fraco e pedimos para colocar dentro do carro. O guarda disse que não iria mexer no corpo. Falamos que não era corpo, que estava vivo”, afirma e acrescenta que, durante essa discussão, que durou entre 5 e 10 minutos, Souza acabou por realmente morrer. “Mais de 20 testemunhas viram Samuel com vida”.

Professores e alunos questionam por que o estudante foi declarado morto ali e não encaminhado a um hospital para que isso fosse feito por profissionais adequados. “É raro alguém ser dado por morto por alguém que não tem competência médica, pode ser que acerte, mas, de qualquer forma, um enfermeiro ou médico deveria estabelecer isso”, considera o professor de física e diretor da Associação de Docentes da USP (Adusp) João Zanetic. “Me espanta essa regra absurda de hospital não poder ter veículo seu disponibilizado para isso (socorro)”, completa.

“Se existia a possibilidade de sobrevida, a gente é leigo e não tem como responder, mas a demora que ouve pode ter eliminado isso”, lamenta o técnico contábil e diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) Aníbal Ribeiro Cavali.

Corpo exposto

O corpo do estudante, que morava no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), ficou por 6h a espera de remoção na praça, coberto por um saco de lixo preto. “Só foi retirado porque, às 14h30, começamos a acionar a imprensa, daí o serviço funerário veio buscar”, critica a amiga.

Segundo a estudante, que disse ter tido contato com a família se Souza no Serviço de Verificação de Óbitos, a USP omitiu informações sobre o caso. “É estranho, a família soube pelos amigos. A USP só disse que ele foi encontrado sem sinais vitais, não falou do socorro e das 6h ao sol”, diz. “A família achou que deveria ser feita autópsia e o corpo encaminhado ao IML, por isso pediu modificação”.

USP

Procurada nesta segunda-feira, a assessoria da USP não soube dizer se alguma sindicância interna havia sido aberta para apurar a morte de Souza e afirmou que não havia novas informações sobre o caso e o que valia era a primeira nota divulgada.

Nela, a instituição diz que "o corpo foi encontrado pela Guarda Universitária, por volta das 10h, na Praça do Relógio Solar, próxima ao prédio da Administração Central. Imediatamente, a Guarda acionou a Polícia Militar. Reitera-se que não houve omissão de socorro por parte da Guarda Universitária, pois, infelizmente, o aluno já estava morto quando a Guarda chegou ao local, o que foi identificado por um profissional que tem formação de bombeiro civil".

A assessoria confirmou que as ambulâncias do Hospital Universitário são utilizadas para a transferência de pacientes e não socorros.

Respostas

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) divulgou nota, na qual diz que “lamenta profundamente a morte do estudante”. “Vem por meio desta nota pedir esclarecimento por parte da Universidade de São Paulo sobre o ocorrido, principalmente sobre a alegação de recusa de atendimento por parte do HU e da guarda”.

“Como uma instituição com 15 mil funcionários, 5 mil professores e milhares de alunos não tem como garantir atendimento imediato e a pessoa fica deixada à própria sorte?”, questiona Aníbal Cavali. “Queremos repostas”.

A família de Souza não foi localizada para falar do caso, que é investigado pelo 93ºDP.

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