Moradores relatam noite de terror em vila de SP

Em rua do Jaguaré, vizinhos trocaram agressões que resultaram em duas mortes após discussão por causa de lixo

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Quando ouviu o estalar dos disparos a poucos metros de sua casa, o comerciante Jurandir Galante, de 67 anos, pensou que se tratava de rojões em comemoração à vitória do São Paulo por 2 a 0 sobre o Cruzeiro. Àquela altura, por volta das 23h, os paulistas acabavam de despachar os adversários mineiros em partida decisiva da Libertadores da América. Apesar do frio que castigava os paulistanos na noite de quarta-feira, Galante saiu para conferir a discussão entre vizinhos que estranhamente se seguiu após os estalos. Só notou que eram tiros de verdade quando se deparou com um “vulto” à porta de casa. Era o corpo do policial civil Xavier Segura Aguado, de 54 anos, morto após ser atingido com um golpe de faca nas costas aplicado por um vizinho após intensos bate-bocas e agressões .

AE/JB NETO
No dia seguinte à morte de dois vizinhos após discussão, clima ainda era tenso na vila onde aconteceu a briga, no Jaguaré

Horas depois, na tarde do dia seguinte, Galante ainda mostrava a mancha de sangue que ajudou a remover no asfalto com água sanitária. “Uma hora ou outra isso ia acontecer”, diz o comerciante, em referência ao clima tenso vivido pelos moradores da travessa Charles Gobat, ruazinha sem saída aparentemente tranquila do Jaguaré, bairro da zona oeste de São Paulo onde, até pouco tempo, vizinhos ainda se reuniam para celebrar eventos como festa junina, churrascos e jogos da Copa do Mundo.

O motivo da tragédia foi uma briga entre vizinhos que há tempos se estranhavam. O último entrevero ocorreu após a secretária Maria da Silva Vasconcelos, de 48 anos, pedir que a família do policial, que morava ao lado, não colocasse mais lixo em frente à sua casa. Nem lixo nem os montes de areia que encobriam as fezes dos cachorros após os passeios noturnos feitos com os animais.

Foi o estopim para que agressões verbais e ameaças de todos os gêneros fossem ouvidos por outros moradores da travessa. Para se defender, segundo testemunhas, a vizinha, que morava com a mãe, uma senhora de mais de 80 anos, buscou refúgio na residência de dois rapazes que moravam ao lado. Não adiantou: com socos, empurrões e puxões de cabelo, Maria foi agredida pela mulher do policial, identificada como Fátima Aguado.

Quase uma chacina

Futura Press
Casa onde vivia o homem que acertou vizinho policial com uma facada e, em seguida, foi morto com dois tiros
A situação ficou ainda mais tensa quando um vizinho, Paulo Gonçalves, começou a bater boca com o policial e os dois filhos dele. Houve troca de agressões e, na confusão, o irmão de Paulo, Moisés Gonçalves, de 22 anos, buscou uma faca e acertou as costas do policial, que morreu pouco depois.

Como vingança, um dos filhos do policial, o estudante Lucas Leonel Segura, de 20 anos, disparou vários tiros em direção ao agressor do pai. Dois deles atingiram Moisés, que ainda tentou fugir subindo as escaladas de casa. Foi alvejado nas costas e no peito. Lucas foi preso na mesma noite e levado, no dia seguinte, a uma cela especial para parentes de policiais, em São Paulo.

Xavier e o vizinho que o esfaqueou foram levados ao Hospital Universitário, mas não resistiram aos ferimentos. O caso foi registrado no 91º DP (Ceagesp).

“Podia ter acontecido uma chacina aqui”, diz um morador, que pede anonimato. “O Moisés estava do meu lado quando o tiro acertou. Ainda buscou apoio em mim antes de cair. Por pouco o tiro não me acertou”.
Segundo o mesmo vizinho, Xavier guardava um arsenal dentro de casa – moradores dizem ter visto investigadores recolherem três armas, uma delas de uso exclusivo da polícia, e uma sacola de munição – e abusava da autoridade para colocar ordem na vizinhança por meio do terror.

Jovens da travessa dizem que o policial , que morava no local há cerca de 25 anos, era daqueles vizinhos que furavam a bola das crianças se caísse em seu quintal. “Ele soltava bombinhas para assustar as crianças que brincavam perto da casa dele”, diz uma garota que acompanhou a briga. Outro motivo para discussões, segundo os relatos, era quando alguém estacionava carros perto da garagem do policial.

“Era um sujeito esquisito, secão. Os filhos não se misturavam com os outros meninos. Muita gente não gosta dele porque ele não deixava os meninos brincar”, diz uma mulher. Outros vizinhos dizem já ter registrado boletins de ocorrência contra Xavier em razão de antigas brigas – uma delas supostamente por racismo, após chamar um dos moradores da vila de "macaco".

“Sempre achei que ter um policial na vizinhança ia ser bom para os moradores. Aqui é o contrário: o policial é motivo de medo e confusão”, diz uma familiar da vizinha agredida, uma das mais revoltadas com a situação.

Medo

AE/JB NETO
Já no fim da noite, moradores acompanham trabalho de policiais na vila aonde aconteceram as mortes
No dia seguinte à tragédia, moradores tentavam retomar a rotina. Por volta das 16h, crianças ainda brincavam de bola no espaço estreito entre as casas da vila e pareciam encantadas com a presença de tantas câmeras de televisão e fotógrafos que passaram o dia no local. “À noite tinha policial que vinha daqui até ali”, diz Galante, apontando até o fim da rua, a cerca de 300 metros de casa. “As crianças viram tudo acontecer. Estão todos assustados aqui, com medo do que ainda pode acontecer”, diz um jovem da vizinhança.

“Passamos medo na delegacia. O homem era policial. Os caras olhavam para a gente como quem estivesse marcando nossos rostos”, contava um amigo do jovem assassinado.
Na casa da vizinha agredida, colada à residência do policial, o clima era ainda mais tenso. A secretária passou a tarde fazendo exames no Instituto Médico Legal (IML) e foi levada para um lugar seguro, segundo parentes.

A mãe dela, com quem vive, passou mal durante a tarde toda e provavelmente deixaria o bairro ainda na quinta-feira. Ela dizia temer uma eventual represália dos vizinhos, já que o quintal de uma casa dá acesso à outra. Um membro da família afirma que a mulher do policial já mandou avisar que “ali não vai sobrar ninguém vivo”. Verdade ou não, a segurança na travessa do Jaguaré parece frágil. Não havia, ao menos na tarde de quinta-feira, viaturas policiais que possivelmente garantiriam a segurança dos envolvidos na briga. Debaixo da camisa de um “vigia improvisado”, era possível notar o formato de uma arma sobre o bolso da calça.

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