Moradores não acreditam em demolição do Minhocão

Moradores e comerciantes indicam problemas do Elevado Costa e Silva, mas sugerem reforma

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

“Já ouvi essa história antes”, ri o chaveiro José Carlos de Souza, de 32 anos, quando questionado sobre a possível demolição do Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido como Minhocão, no centro da capital paulista. A intenção de acabar com a obra foi anunciada pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM), na quinta-feira, durante evento no Instituto de Engenharia de São Paulo.

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Elevado Costa e Silva começou a ser construído em 1969, na gestão de Paulo Maluf


A proposta de substituição do Minhocão faz parte do projeto Operações Urbanas, que prevê uma série de mudanças para as regiões Lapa-Brás, Mooca-Vila Carioca e Rio Verde-Jacu.

Entre moradores e comerciantes, porém, o sentimento é de descrença. Ninguém mais acredita que o Minhocão sairá dali. Pelo menos não em curto prazo. “Faz cinco anos que ouço falarem de demolição, mas nada muda”, afirma a lojista Arlene Souza, de 50 anos.

Também não há consenso se acabar com ele seria mesmo a melhor solução para a cidade. A preocupação unânime entre as pessoas ouvidas pela reportagem é como ficará o trânsito, já bastante complicado na região. “Vai piorar. Imagina quem quer pegar a Radial Leste?”, questiona José Carlos. “Imagina os carros de cima embaixo?”, pergunta também o porteiro Antônio Praero da Silva, de 43 anos.

Importante ligação entre o centro e a zona oeste da capital, o Minhocão funciona de segunda a sábado  das 6h30 às 21h30. A limitação de horário acontece por causa do barulho constante dos veículos, que não dão sossego a que mora nos edifícios ao redor. Em alguns pontos, janelas de apartamentos chegam a ficam a cinco metros da pista.

Mesmo quando a pessoa está próxima, é preciso que eleve a voz para se fazer ouvir. Quando um caminhão ou ônibus passa, a conversa é interrompida. “Esse barulho deixa a gente louca. É um caos”, desabafa Arlene.

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Diversos pontos do Minhocão na avenida São João têm lixo acumulado
A funcionária pública Maly Acalei, de 63 anos, comprou um apartamento no local há cerca de 5 meses, mas já pensa em vendê-lo por causa do barulho. “É um horror, não dá para morar. Não tinha ideia de que era assim”, diz ela, que pretende pedir entre R$ 60 e R$ 70 mil pelo imóvel.

O aposentado Pedro Lima, de 72 anos, que trabalha vendendo doces embaixo do Elevado, explica que, além do barulho – que define como “infernal” - há também o problema da poluição. “É horrível, a gente inala muita fumaça”, diz ele, que está no mesmo ponto há três anos e também faz planos de ir embora. “Venho aqui porque é mais fácil, moro perto, mas até o final do ano quero sair”, explica.

A simples presença do Minhocão, por si só, já incomoda. A estrutura gasta e cinzenta, pichada em muitos pontos, fere os olhos. “É muito feio, né?”, comenta o chaveiro José Carlos com um colega, que acena positivamente com a cabeça.

Chuvas e goteiras

O comerciante Carlos Alberto Gonçalves, de 57 anos, pede que a reportagem visite o Elevado em um dia de chuva “para comprovar o tanto de goteiras que há”. “Isso daqui está podre, tem vazamento nele todo. Eu evito até passar embaixo”, afirma ele, enquanto aponta para uma pilastra com ferros expostos. Gonçalves diz morar na avenida São João, de frente para o Elevado, desde 1983, e nunca ter presenciado uma grande reforma.

“Também estou aqui há 4 anos e nunca vi nada”, acrescenta Germano Vital, de 34 anos. Segundo ele, a única melhoria que aconteceu, há cerca de seis meses, foi a troca das lâmpadas antigas - muitas delas queimadas ou com fios expostos - por novas. Hoje, pelo menos à noite, moradores não têm que conviver com a escuridão.

Segurança privada

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Norma Rodrigues diz que violência melhorou
De acordo com moradores, a violência sempre foi um dos grandes problemas da região. A dona de banca de jornal Norma Rodrigues, de 56 anos, conta que muitos assaltantes se passavam por moradores de rua para roubar pedestres e motoristas. “Eles roubavam, depois deitavam com os mendigos para esperar a polícia ir embora, e então, fugiam”, diz.

Na falta de policiamento efetivo do Estado, moradores e comerciantes se reuniram, há cerca de seis meses, e optaram por pagar uma equipe de vigilantes particular. Cerca de três pessoas passam constantemente, 24 horas por dia, pelas ruas São João, General Olímpio, Major Sertório e imediações. “Estávamos muito vulneráveis, digamos que melhorou uns 99%”, diz ela, que paga R$ 50 mensais pelo serviço.

José Carlos acrescenta também que, com a presença dos vigilantes, os mendigos começaram a procurar outros locais para ficar. A reportagem percorreu toda a avenida Amaral Gurgel e não encontrou nenhum morador de rua. Já do outro lado do Elevado, pela avenida São João, era possível ver famílias abrigadas embaixo do Minhocão. O lixo ali também era maior.

Demolir ou reformar?

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Pedro Lima diz que há outras prioridades na cidade
Qual destino deve ser dado ao Elevado não encontra unanimidade nem mesmo entre especialistas em tráfego e urbanismo. E, entre aqueles que vivem ou trabalham no local, divide ainda mais opiniões. As sugestões são diferentes, mas a maioria diz que uma boa reforma seria mais viável do que uma possível demolição. “Já é terrível com isso, imagina sem? E se eles não têm dinheiro para a reforma, da onde vão tirar para demolir?”, considera Germano Vital.

A preocupação de Pedro Lima também é o dinheiro que precisaria ser empregado na obra. “Acho que há outras prioridades antes: creches, escolas, hospitais”, diz.

Nostálgica, a dona de casa Josenete Rodrigues, de 50 anos, conta que mora no mesmo local, na altura do número 166 da avenida São João, desde que nasceu, e observou pela janela do apartamento a construção do Minhocão. “Lembro que aqui em frente tinha uma fonte luminosa, muitas flores”, diz. “Ele começou a ser construído em 69 e acabou em 71, foram dois anos que mexeram com a vida de muita gente”, lembra.

Josenete considera que o Elevado precisa de melhorias na estrutura e aparência, mas descarta a demolição. “Ia atrasar a vida de muita gente que precisa dele para ir trabalhar. Acho que o Kassab não está com a cabeça em ordem”. 

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