Meu objetivo agora é ajudar quem quer sair da rua

Ex-morador de rua conta como sua vida mudou ao integrar albergue em SP e a aprender artesanato. Leia outras histórias de superação

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Fernanda Simas
Rogério Manuel Rocha trabalha na confecção de chaveiros e colares em oficina do albergue
Quem observa Rogério Manuel Rocha trabalhando não imagina que ele ficou dois anos internado em um hospital e outro ano fazendo fisioterapia depois de sofrer um grave acidente enquanto morava nas ruas da cidade de São Paulo. Com as marcas no braço e perna direitos e dificuldade para andar, ele surpreende ao lembrar do que aconteceu com um sorriso no rosto. O mais importante, para ele, foi salvar duas crianças de serem atropeladas.

“Eu vinha de ônibus do Parque do Carmo e quando estava perto da antiga Febem do Brás o trânsito parou porque alguns menores tinham fugido. Saí do ônibus na Avenida Salim Farah Maluf e fiquei conversando com meus amigos. Nisso, saiu uma mulher da favela que tem lá perto e duas crianças pequenininhas vieram atrás dela chorando. Ela disse ‘fica aí que eu vou ali ver’ e atravessou, mas as crianças foram atrás. Eu estava de costas e não vi, só ouvi ‘vai atropelar’ e corri. Um caminhão me pegou, soltei as crianças e levei uma pancada na cara. Meu braço (direito) virou ao contrário, eu desmaiei e fui levado para o hospital”, relata.

O acidente ocorreu em 2000, mas Rocha só conseguiu lembrar do que passou depois da visita do pai das duas crianças salvas por ele. “Eu não lembrava o que tinha acontecido. O pai das crianças foi me visitar e me contou. Aí fui lembrando. Hoje eu me recuperei, só não consigo levantar peso, mas força de vontade para vencer eu tenho.”

Aos 41 anos, Rocha mora há quase seis meses no albergue Casa São Lázaro, na zona leste da capital paulista, e ganha R$ 10 por cada chaveiro e R$ 15 por cada colar que vende. Ele é um dos 10 mil moradores de albergues da cidade que, por meio da arte, conseguiu uma profissão e uma fonte de renda. “Agora quero juntar meu dinheiro. Pretendo daqui para frente trabalhar com artesanato. Peguei gosto, peguei amor”, fala orgulhoso dos objetos que produz e são vendidos no próprio albergue ou na Loja Social, montada toda quarta-feira na sede da Secretaria Municipal de Assistência Social, no centro de São Paulo.

Rocha passou a maior parte da vida na rua. Quando criança, se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo com o pai, alfaiate, a mãe, faxineira, e os nove irmãos. Aos 12 anos, sua mãe morreu depois de cair da janela de uma casa onde trabalhava e o pai voltou para o Rio levando apenas os quatro filhos menores. “Ele largou a gente (filhos maiores). Aí um homem disse que ia nos levar para o juizado de menores. Ficamos desesperados. Conseguimos um lugar provisório, mas depois cada um foi seguindo seu caminho”, lembra Rocha, que precisou parar de estudar enquanto ainda estava na 2ª série do Ensino Fundamental.

Sempre pensei que não adiantava fazer nada de errado porque não ia resolver nada, diz ex-morador de rua

Antes de chegar ao albergue em que vive atualmente, ele explica que morou em parques e ruas de São Paulo. “Eu morava numa invasão, uma casa abandonada, mas depois de alguns anos os proprietários pediram o lugar de volta e a Prefeitura foi lá cadastrar as pessoas. Quem tinha cadastro na CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) foi levado, mas quem já tinha invadido outras vezes não tinha direito a isso então eu fui para a rua”.

Rocha faz questão de ressaltar que nunca usou drogas. “Eu dormia no Parque da Mooca e sempre pensei que não adiantava fazer nada de errado porque não ia resolver nada. Com o tempo, o pessoal que dormia lá passou a roubar os estudantes que saíam da faculdade que tinha ali perto então passei a dormir em calçadas das ruas.”

Há seis meses, resolveu bater à porta da Casa São Lázaro e sua vida mudou. “Voltei a estudar. Acordo de manhã, fico aqui na oficina, depois tomo um banho e vou para a escola. Depois volto e durmo”, descreve animado. “Graças a esta casa (albergue) eu tive autoestima para continuar. Meu objetivo agora é ajudar os que realmente querem sair dessa situação difícil da rua.”

A vida de Genésio Pereira, de 63 anos, também teve desafios. A superação veio há dois anos com a poesia e a pintura. Ele mora no Centro de Acolhida São Camilo I e lá faz oficinas de pintura no período da noite, uma vez por semana. Durante as manhãs, trabalha como plaqueiro na Praça da Sé, centro de São Paulo, e nos fins de semana sai para pintar e vender seus quadros. O dinheiro é investido em material e, consequentemente, novas obras. “Estou com 63 anos, não vou esperar fazer um patrimônio, mas quero deixar um legado, algo que marque a minha passagem por aqui. Espero que essa exposição (Talentos da Rua, a primeira que participa) seja uma sementinha na minha horta.”

Em 1974, Pereira mudou-se de Fortaleza (Ceará) para São Paulo com o objetivo de trabalhar. Estudou eletrônica, trouxe a família (mulher e um filho) para morar com ele e abriu uma oficina de conserto de televisões em 1981. Mesmo se dedicando a este trabalho, a pintura não foi deixada de lado. “Cheguei a trabalhar com dois técnicos na oficina para poder pintar”, explica, com um grande sorriso no rosto. A oficina gerou renda para a família e, em seis meses, Pereira conseguiu comprar um carro modelo Opala. “Depois a tecnologia foi se renovando e eu não tive interesse em me reciclar porque achava que meu negócio era esse aqui (aponta para seu quadro)”, conta sobre como deixou de ganhar dinheiro.

Fernanda Simas
Genésio Pereira ao lado do quadro Paranapiacaba em exibição na mostra Talentos da Rua, em São Paulo
Todo o dinheiro que tinha foi entregue à ex-mulher, que foi embora de São Paulo com os três filhos quando o casamento acabou, depois de 20 anos. Questionado sobre como foi perder o que tinha, ele é enfático: “Não perdi nada não. O bem mais precioso está aqui (batendo no coração), o bem precioso sou eu”. Pereira foi morar no São Camilo I depois de ter outros relacionamentos que não deram certo.

O bom humor é revelado enquanto conta como foi ter um infarto dias depois de chegar ao albergue. “Fiquei 22 dias internado e no hospital fiz uma poesia com tudo o que estava passando. O começo é assim: 'no ano passado então, meu coração quis parar / tirar de bom umas férias ou então se aposentar / e foi nessa brincadeira que no hospital fui parar'.”

Mostrando o quadro “Paranapiacaba”, Pereira, que se autodenomina um ‘polivalente meio atrapalhado’ por pintar, escrever poesias e músicas, relata histórias da locomotiva retratada. “Quando eu tinha 12 anos, subi na Maria Fumaça e quando ela deu partida eu pulei e caí em cima do carvão. Corri para a areia fria da praia porque se voltasse para casa ia levar uma bronca e apanhar. De noite, meu pai acordou com meus gemidos e viu que meus pés e meu bumbum estavam com muitas bolhas, ele passou uma pomada e fui melhorando.”

Seu plano para o futuro é viajar e fazer muitas pinturas. Atualmente ele já vende obras por R$ 500 e em breve poderá sair do albergue. “Agora quero ir para Santana de Parnaíba. Quem está com 63 anos tem de saber que está com um pé aqui e outro lá e eu não sei quando os dois estarão lá então tenho de aproveitar e conhecer o que der. Gosto do presente, esse momento é o mais precioso para mim, minha casa é o mundo.”

Vida nova

Arquivo pessoal
Flávio de Jesus Viana começou a trabalhar após parceria do albergue onde morava com a iniciativa privada
Flávio de Jesus Viana, de 24 anos, mora de aluguel há pouco menos de um ano em uma casa no bairro de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Todos os dias da semana, sai de casa às 4h30, pega o trem e o metrô e vai para a Estação Sé, onde trabalha na área da limpeza.

Ele conseguiu esse emprego enquanto ainda morava no Centro de Acolhida Arsenal da Esperança, no Brás, também na zona leste, sendo um dos 46 contratados pela empresa Guima Conseco, que faz parte do Sindicato das Empresas de Asseio e Conservação no Estado de São Paulo (Seac-SP). A contratação ocorreu depois da assinatura de um convênio entre o Sindicato e a Secretaria Municipal de Assistência Social, em 2010, que visa oferecer oportunidades de emprego para moradores de albergues.

“Eu trabalhava lá na casa (albergue) e um dia a assistente social me disse que tinha um serviço no metrô, uma oportunidade nova. Era o único jeito de eu me levantar. Fui chamado na segunda remessa, fiz o exame e consegui. Agora tenho que aproveitar”, explica Viana. Ele termina o trabalho às 14h, volta para casa, arruma o local, limpa o que precisar e depois faz o que gosta. “Às vezes passo na casa da minha mãe, ficou um pouco por lá. Gosto de ver jogo (de futebol) pela televisão, jogar videogame ou jogar bola com os amigos em uma quadra perto de casa.”

Viana saiu de casa com 16 anos porque brigava muito com o padrasto e não gostava de ver a mãe chateada com a situação. “Eu ficava dormindo em casa de amigo, trabalhava em bicos, mudava das casas porque as mães começavam a reclamar e assim foi até os 18 anos”, diz.

Ao atingir a maioridade, ele foi para um albergue em São Miguel Paulista e, em 2008, foi transferido para o Arsenal da Esperança. Depois de alguns meses, se casou, foi morar com a mulher em São Mateus e começou a trabalhar como camelô. “Eu vendia CDs, DVDs, comecei a ganhar dinheiro, mas quando a polícia proibiu que a gente vendesse isso eu perdi tudo e voltei para o Arsenal”, explica, de forma rápida, a sua trajetória.

Hoje, Viana paga as próprias contas e quer voltar a estudar. “Procurei (escola) este ano, mas não tinha mais vaga para o colegial, ano que vem eu quero estudar de todo jeito”. O jovem também pensa em reunir a família – a mãe e os seis irmãos – novamente, mas acha que a reaproximação pode ser difícil.

Apesar disso, sempre agradece a experiência que viveu no albergue. “Muitas pessoas que estão em situação de rua, com problemas, acabam fazendo besteira. Eu queria ter uma profissão e algumas pessoas têm e não aproveitam, como que pode ser assim? A pessoa se entregar, eu não aceito isso não, estou querendo me levantar, trabalhar para ir atrás das coisas.”

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