Me ajoelhei. Implorava para pararem

Mãe de motoboy acusa policiais de terem agredido e matado o filho em São Paulo. Comandantes da PM são afastados

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

"Eu me ajoelhei, tentei pegar na mão deles (policiais) e implorava para pararem de bater no meu filho. Eles só diziam: 'fica quieta que você pode ser presa (...) Quando perguntei o motivo da agressão ao meu filho, o policial apenas respondeu: 'estava cumprindo o meu trabalho'. O trabalho deles era matar o meu filho".

A declaração foi dada ao iG pela vendedora Maria Aparecida de Oliveira Menezes, de 43 anos, mãe do motoboy Alexandre Menezes dos Santos, 25. Alexandre morreu após ter sido abordado e imobilizado por quatro policiais militares na madrugada de sábado, na zona sul de São Paulo. "Meu filho sentiu muita dor, foi muito maltratado e eu não pude fazer nada", completou Maria Aparecida.

Segundo Maria Aparecida, Alexandre deixou a pizzaria onde trabalhava por volta das 2h de sábado e seguiu para a casa de um primo. Na volta, a 200 metros da casa onde mora, na rua Guiomar Branco da Silva, em Cidade Ademar, foi abordado por policiais porque a moto que usava estava sem placa. Ele teria ignorado o alerta e seguido até a residência.

Ali, a mãe de Alexandre diz que viu o filho ser espancado e enforcado sem oferecer qualquer tipo de resistência. Ele foi encaminhado ao Hospital Sabóia, mas não resistiu e morreu. "Enquanto ele apanhava, caiu celular, carteira, e eles dizem que o meu filho estava armado. Mas só encontraram a arma no hospital", questiona Maria Aparecida, ressaltando que o filho nunca teve uma arma.

Comandantes da PM afastados

nullNa tarde desta segunda-feira, o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, determinou o afastamento de dois comandantes do batalhão envolvido no caso sob o argumento de que eles não tiveram o controle da tropa. Foram afastados o tenente-coronel Gerson Lima de Miranda, do 22º Batalhão, e o capitão Alexander Gomes Bento, da terceira companhia do 22º BPM. A secretaria determinou abertura de processo administrativo para averiguar o crime de omissão. 

Em depoimento, os PMs envolvidos no caso alegaram que Alexandre, ao ser abordado, entrou em luta corporal com os soldados, que pediram o reforço de mais dois homens.

Segundo informações do Boletim de Ocorrência (BO), um dos policials aplicou uma gravata no motoboy na tentativa de imobilizá-lo, mas ele teria conseguido se desvencilhar. Então, outro golpe foi dado. Alexandre perdeu os sentidos e desmaiou, morrendo pouco tempo depois. Os policiais disseram ainda que, além da moto Honda/CG não ter placa, o jovem transitava em alta velocidade e pela contra mão.

Por meio de nota, a Polícia Militar disse que, diante do uso excessivo de força física dos policiais militares, os autuou em flagrante delito por homicídio culposo.

A ocorrência acontece um mês após a morte de outro motoboy , de 30 anos, também em São Paulo.

Polícia violenta

Dados divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo na semana passada revelam que a Polícia Militar do Estado matou 40% mais pessoas em ocorrências registradas como confrontos no primeiro trimestre deste ano do que em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e março de 2010 foram 146 mortes, contra 104 mortes no mesmo período de 2009.

Mesmo com o maior número de mortes de civis em confronto com a Polícia Militar, os números de homicídios não caíram no Estado. Na comparação entre o início de 2009 e 2010, o número de homicídios no Estado registrou uma leve alta. No relatório estatístico divulgado pelo SSP, foram registrados 1.224 homicídios no primeiro trimestre deste ano. Em 2009, foram 1.143, pouco a mais que em 2008, quando foram registradas 1.135 mortes de janeiro a março.

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