Mausoléu do Obelisco do Ibirapuera está fechado desde 2002

Maior monumento de SP, símbolo da homenagem à Revolução Constitucionalista é desconhecido do público e está fechado por má-conservação

Daniel Torres, iG São Paulo |

O Obelisco do Ibirapuera abre as portas neste sábado para a comemoração dos 79 anos da Revolução Constitucionalista de 1932. Depois disso, fecha novamente. Este é um dos três dias do ano que paulistanos e turistas podem visitar o maior monumento da capital paulista, fechado à visitação pública desde 2002 quando foram identificados os primeiros problemas de conservação, infiltração e rachaduras.

Inaugurado em 1955, o mausoléu segue sem perspectiva de ser reaberto. Hoje a visitação é feita apenas após agendamento prévio para grupos específicos, como acontece com algumas escolas, e por parentes dos combatentes que têm as cinzas depositadas no local. Na quinta-feira (7), o iG visitou o local que abriga os restos mortais de quase 800 combatentes que no início da década de 30 pegaram em armas para lutar contra o governo de Getúlio Vargas, que revogou a Constituição de 1891 após tomar o poder na Revolução de 1930 . Faça um passeio pelo mausoléu do obelisco no vídeo abaixo:

“Um mausoléu? Aqui? Embaixo do obelisco?”, pergunta incrédula a estudante Amanda Pessoa Gomes, de 17 anos, enquanto esperava um ônibus na avenida Pedro Álvares Cabral, que fica entre a praça do obelisco e o Parque do Ibirapuera.

Se o conteúdo do mausoléo é desconhecido, quem passa pela região não deixa de notar a grandiosidade do obelisco. São 72 metros de altura do lado de fora, o que corresponde a um prédio de 24 andares. Mas a homenagem mesmo está nos 9 metros abaixo do solo que abriga as urnas dos heróis na revolução: quatro painéis com pastilhas de mosaico veneziano que representam o martírio de Cristo e a revolução paulista; os túmulos dos soldados Guilherme de Almeida e Ibrahim de Almeida Nobre - chamados, respectivamente de poeta e tribuno de 32 - e uma cripta onde estão sepultados os quatro estudantes mortos - Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia , Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade (o M.M.D.C.) - que foram o estopim da revolta.

“Sabia que era algum museu ou algo assim porque sempre passo aqui em frente, mas não sabia que era um monumento para os mortos dessa revolução. Passo por aqui porque é meu caminho, mas nunca vi nenhuma movimentação. É uma pena porque essa região tem sempre muito turista”, afirma o comerciante Adilson de Barros. E ele tem razão. A visitação seria mais uma opção para as quase 200 mil pessoas que passam pelo Parque do Ibirapuera a cada final de semana.

Daniel Torres
Infiltração é um dos problemas do monumento em memória da revolução paulista
De 2002 a 2005, a reforma do obelisco ficou travada por uma briga judicial que envolvia a família do artista Galileo Emendabile - criador do monumento -, a Sociedade Veteranos de 32 – que administrava o obelisco na época -, a prefeitura, o governo do Estado e a iniciativa privada. Quando foi fechado, a previsão para a reforma era de aproximadamente R$ 2,5 milhões.

Em 2006, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado fizeram uma convênio que definiu que a prefeitura seria a responsável pelos serviços de projeto paisagístico, ajardinamento, limpeza e segurança na praça, inclusive na área pertencente ao Estado. Já governo estadual ficou responsável pelas obras de recuperação e também passou a gerir, administrar, manter e conservar o monumento. Assim, a Polícia Militar realizaria a guarda permanente e o policiamento ostensivo no local. Uma nova previsão de gastos foi feita e a reforma ficaria em R$ 5 milhões.

Em 2008, o governo do Estado gastou R$ 282 mil em reformas nas instalações elétricas e R$ 625 mil em impermeabilização, drenagem e captação de águas fluviais. Foram obras emergenciais que não resolveram o problema a ponto de reabrir o espaço ao público. Um estudo técnico feito pela empresa de engenharia Falcão Bauer indicou que seriam necessários R$ 8 milhões para que o obelisco fosse reaberto para a visitação. Em 2011, só os policiais que fazem a segurança do local frequentam o monumento.

As goteiras, infiltrações e problemas elétricos ainda estão expostos no mausoléu. “Não é nada que impeça comemorações como a de 9 de Julho. O teto não vai cair”, afirma o coronel Mário Fonseca Ventura, que na quinta-feira tomou posse como presidente do Sociedade Veteranos de 32 - MMDC . “Um dos principais objetivos da nossa gestão será luta pela restauração do Mausoléu do Obelisco do Ibirapuera”, reafirmou durante o ato de posse na sede da entidade.

O obelisco

O Monumento do Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932 (nome oficial) é um projeto do escultor italiano Galileo Emendabili, que chegou ao Brasil em 1923 fugindo do regime fascista. Em mármore travertino, o monumento tem 72 metros de altura e foi inaugurado oficialmente em 9 de julho de 1955, um ano após a inauguração do Parque do Ibirapuera. Sua construção começou em 1947 e foi concluída apenas em 1970.

Tombado pelos conselhos estadual e municipal de preservação do patrimônio histórico, o mausoléu que existe dentro do obelisco guarda os restos mortais dos quatro estudantes mortos durante um protesto contra o governo Vargas - Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade -, cujas iniciais formam a sigla MMDC, o grande símbolo da revolução. A cripta existente no monumento também mantém as cinzas, a partir deste sábado, de outros 799 ex-combatentes.

Daniel Torres
Embaixo do obelisco, o Monumento do Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932 está fechado há 9 anos
O monumento é formado pelo obelisco e pela cripta e foi concebido baseado em relações numéricas, que levam sempre a algum número da data da revolução: 9/7/1932. O obelisco tem 81 metros de altura, cuja raiz quadrada é 9. Também tem 9 metros a base maior do trapézio, no chão, para quem olha o monumento de frente. Na base menor, em cima, tem 7 metros. A largura da cripta, embaixo, tem 32 metros. Quem olhar de frente o perfil da planta, teria as dimensões 32 - 9 - 7, que lembram o ano, o dia e o mês do início do conflito. Para entrar no monumento é preciso percorrer 9 degraus. A partir do acesso, existem três grupos de três arcos cada, somando 9 arcos.

Do lado de fora, o obelisco é a imagem de uma espada, com quatro faces, voltadas para cada um dos pontos cardeais da cidade, fincada numa praça em formato de coração. Exatamente embaixo da base do obelisco, existe uma escultura em mármore que representa o Herói Jacente.

“Enquanto o obelisco é uma espada que atravessa o coração da mãe terra paulista e fere de morte esse coração, representado pelos filhos que caíram pela revolução, por dentro, ele é um canhão. De onde está o herói, olhando para a base, se vê um enorme projétil de canhão”, explica o advogado Paulo Emendabili Souza Barros de Carvalhos, neto de Galileo Emendabile. Segundo o advogado, esse seria um ‘canhão cívico’. “O herói está circundado pelo exército constitucionalista que não está morto, mas repousa. Se houver uma violação à constituição brasileira, se houver tirania novamente, o soldado levanta, chama as fileiras do exército constitucionalista e aciona novamente o canhão. Essa é a simbologia.”

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