Mausoléu do Obelisco do Ibirapuera está fechado desde 2002

Maior monumento de SP, símbolo da homenagem à Revolução Constitucionalista é desconhecido do público e está fechado por má-conservação

Daniel Torres, iG São Paulo | 09/07/2011 07:00

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O Obelisco do Ibirapuera abre as portas neste sábado para a comemoração dos 79 anos da Revolução Constitucionalista de 1932. Depois disso, fecha novamente. Este é um dos três dias do ano que paulistanos e turistas podem visitar o maior monumento da capital paulista, fechado à visitação pública desde 2002 quando foram identificados os primeiros problemas de conservação, infiltração e rachaduras.

Inaugurado em 1955, o mausoléu segue sem perspectiva de ser reaberto. Hoje a visitação é feita apenas após agendamento prévio para grupos específicos, como acontece com algumas escolas, e por parentes dos combatentes que têm as cinzas depositadas no local. Na quinta-feira (7), o iG visitou o local que abriga os restos mortais de quase 800 combatentes que no início da década de 30 pegaram em armas para lutar contra o governo de Getúlio Vargas, que revogou a Constituição de 1891 após tomar o poder na Revolução de 1930. Faça um passeio pelo mausoléu do obelisco no vídeo abaixo:

 

“Um mausoléu? Aqui? Embaixo do obelisco?”, pergunta incrédula a estudante Amanda Pessoa Gomes, de 17 anos, enquanto esperava um ônibus na avenida Pedro Álvares Cabral, que fica entre a praça do obelisco e o Parque do Ibirapuera.

Se o conteúdo do mausoléo é desconhecido, quem passa pela região não deixa de notar a grandiosidade do obelisco. São 72 metros de altura do lado de fora, o que corresponde a um prédio de 24 andares. Mas a homenagem mesmo está nos 9 metros abaixo do solo que abriga as urnas dos heróis na revolução: quatro painéis com pastilhas de mosaico veneziano que representam o martírio de Cristo e a revolução paulista; os túmulos dos soldados Guilherme de Almeida e Ibrahim de Almeida Nobre - chamados, respectivamente de poeta e tribuno de 32 - e uma cripta onde estão sepultados os quatro estudantes mortos - Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade (o M.M.D.C.) - que foram o estopim da revolta.

“Sabia que era algum museu ou algo assim porque sempre passo aqui em frente, mas não sabia que era um monumento para os mortos dessa revolução. Passo por aqui porque é meu caminho, mas nunca vi nenhuma movimentação. É uma pena porque essa região tem sempre muito turista”, afirma o comerciante Adilson de Barros. E ele tem razão. A visitação seria mais uma opção para as quase 200 mil pessoas que passam pelo Parque do Ibirapuera a cada final de semana.

Foto: Daniel Torres Ampliar

Infiltração é um dos problemas do monumento em memória da revolução paulista

De 2002 a 2005, a reforma do obelisco ficou travada por uma briga judicial que envolvia a família do artista Galileo Emendabile - criador do monumento -, a Sociedade Veteranos de 32 – que administrava o obelisco na época -, a prefeitura, o governo do Estado e a iniciativa privada. Quando foi fechado, a previsão para a reforma era de aproximadamente R$ 2,5 milhões.

Em 2006, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado fizeram uma convênio que definiu que a prefeitura seria a responsável pelos serviços de projeto paisagístico, ajardinamento, limpeza e segurança na praça, inclusive na área pertencente ao Estado. Já governo estadual ficou responsável pelas obras de recuperação e também passou a gerir, administrar, manter e conservar o monumento. Assim, a Polícia Militar realizaria a guarda permanente e o policiamento ostensivo no local. Uma nova previsão de gastos foi feita e a reforma ficaria em R$ 5 milhões.

Em 2008, o governo do Estado gastou R$ 282 mil em reformas nas instalações elétricas e R$ 625 mil em impermeabilização, drenagem e captação de águas fluviais. Foram obras emergenciais que não resolveram o problema a ponto de reabrir o espaço ao público. Um estudo técnico feito pela empresa de engenharia Falcão Bauer indicou que seriam necessários R$ 8 milhões para que o obelisco fosse reaberto para a visitação. Em 2011, só os policiais que fazem a segurança do local frequentam o monumento.

As goteiras, infiltrações e problemas elétricos ainda estão expostos no mausoléu. “Não é nada que impeça comemorações como a de 9 de Julho. O teto não vai cair”, afirma o coronel Mário Fonseca Ventura, que na quinta-feira tomou posse como presidente do Sociedade Veteranos de 32 - MMDC. “Um dos principais objetivos da nossa gestão será luta pela restauração do Mausoléu do Obelisco do Ibirapuera”, reafirmou durante o ato de posse na sede da entidade.

<span>Obelisco visto por quem frenquenta o Parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Inaugurado em 1955, o Obelisco começou a ser construído em 1947 e foi totalmente concluído em 1970</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Entrada do mausoléu e a inscrição em homenagem aos combatente mortos - Viveram pouco para morrer bem,
morreram jovens para viver sempre</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Vista do corredor que leva ao salão principal do mausoléu</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>No corredor estão blocos de mármore que lembram os nomes dos combatentes que têm os restos mortais no monumento</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>No fim do corredor há um salão onde estão os painéis e os túmulos em homenagem aos combatentes mortos</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Vista da escultura em mármore que representa o Herói Jacente, no centro do mausoléu</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Na escultura estão gravados os nomes dos quatro estudantes mortos, o que deu início à revolução</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (M.M.D.C.) foram mortos em 23 de maio durante uma manifestação</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>No alto da cúpula sobre a escultura do herói, um dos painéis que traz a representação do esforço das classes trabalhadoras</span> - <strong>Foto: AE</strong> <span>Painel que representa a crucificação de Cristo em uma das paredes do mausoléu</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Painel da Natividade, com pastilhas venezianas, sobre o nascimento de Cristo. Nele há inscrições sobre a revolução</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Painel que traz a ressurreição de Cristo evoca a Constituição de 1934, que veio após a luta de 1932</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Túmulo de um dos heróis da revolução, Guilherme de Almeida, autor do poema que está gravado nos quatro lados do obelisco</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Inscrições do poema de Guilherme de Almeida nas faces do Obelisco</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Mas as obras de arte dividem espaço com a infiltração, que deixa as ferragens da construção expostas em parte do teto</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Pedra com inscrição em homenagem aos mortos, em frente ao altar de um dos painéis, está quebradas em algumas partes</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Infiltração marca a parede em mármore travertino do mausoléu</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Arco dentro do mausoléu marcado pelos problemas de umidade</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Luminária com problema dentro do mausoléu</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Fechado ao público, alguns pontos do mausoléu estão sujos. Antes do evento de 9 de julho, o local passará por uma limpeza</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Goteiras no teto deixam marcas de umidade no chão do monumento</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Marcas de infiltação entre os blocos de mármore das paredes do mausoléu vem desde o teto</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong> <span>Lado de fora do obelisco também tem alguns problemas. No pé do monumento, parades tem algumas fissuras e plantas brotam do meio do mármore</span> - <strong>Foto: Daniel Torres</strong>

O obelisco

O Monumento do Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932 (nome oficial) é um projeto do escultor italiano Galileo Emendabili, que chegou ao Brasil em 1923 fugindo do regime fascista. Em mármore travertino, o monumento tem 72 metros de altura e foi inaugurado oficialmente em 9 de julho de 1955, um ano após a inauguração do Parque do Ibirapuera. Sua construção começou em 1947 e foi concluída apenas em 1970.

Tombado pelos conselhos estadual e municipal de preservação do patrimônio histórico, o mausoléu que existe dentro do obelisco guarda os restos mortais dos quatro estudantes mortos durante um protesto contra o governo Vargas - Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade -, cujas iniciais formam a sigla MMDC, o grande símbolo da revolução. A cripta existente no monumento também mantém as cinzas, a partir deste sábado, de outros 799 ex-combatentes.

Foto: Daniel Torres Ampliar

Embaixo do obelisco, o Monumento do Mausoléu do Soldado Constitucionalista de 1932 está fechado há 9 anos

O monumento é formado pelo obelisco e pela cripta e foi concebido baseado em relações numéricas, que levam sempre a algum número da data da revolução: 9/7/1932. O obelisco tem 81 metros de altura, cuja raiz quadrada é 9. Também tem 9 metros a base maior do trapézio, no chão, para quem olha o monumento de frente. Na base menor, em cima, tem 7 metros. A largura da cripta, embaixo, tem 32 metros. Quem olhar de frente o perfil da planta, teria as dimensões 32 - 9 - 7, que lembram o ano, o dia e o mês do início do conflito. Para entrar no monumento é preciso percorrer 9 degraus. A partir do acesso, existem três grupos de três arcos cada, somando 9 arcos.

Do lado de fora, o obelisco é a imagem de uma espada, com quatro faces, voltadas para cada um dos pontos cardeais da cidade, fincada numa praça em formato de coração. Exatamente embaixo da base do obelisco, existe uma escultura em mármore que representa o Herói Jacente.

“Enquanto o obelisco é uma espada que atravessa o coração da mãe terra paulista e fere de morte esse coração, representado pelos filhos que caíram pela revolução, por dentro, ele é um canhão. De onde está o herói, olhando para a base, se vê um enorme projétil de canhão”, explica o advogado Paulo Emendabili Souza Barros de Carvalhos, neto de Galileo Emendabile. Segundo o advogado, esse seria um ‘canhão cívico’. “O herói está circundado pelo exército constitucionalista que não está morto, mas repousa. Se houver uma violação à constituição brasileira, se houver tirania novamente, o soldado levanta, chama as fileiras do exército constitucionalista e aciona novamente o canhão. Essa é a simbologia.”

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