Marcha da Liberdade vira "marcha de tudo" e reúne 2 mil em São Paulo

Entre maio e junho de 2011, protestar virou programa de sábado na capital paulista, seja por qual for a causa

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Essa coisa de precisar de um tema para protestar é a maior caretice. Protestar é um direito de qualquer um. Seja humano, seja animal", diz estudante

Cerca de 2 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, se reuniram na tarde deste sábado na avenida Paulista para celebrar a liberdade de manifestação.

Em clima de carnaval, os manifestantes comemoraram com bom humor e descontração a decisão do Supremo Tribunal Federal que, na quarta-feira, liberou as marchas da maconha no País.

Pouco antes de a marcha sair do vão livre do Masp, o locutor avisou: "Quem estiver sem cartaz pode pegar qualquer um. Tem um monte espalhado pelo chão. É só escolher e defender sua bandeira".

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Manifestantes na Marcha da Liberdade, em São Paulo: teve até quem pedisse "mais amor, por favor"
O cardápio ideológico foi extenso. Como não havia um tema específico, os participantes da marcha protestaram contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, proibição das festas rave, consumo de alimentos animais, reforma do código florestal, veto ao kit anti-homofobia nas escolas, mercantilização da educação, exploração das empregadas domésticas, sistema monetário, corrupção no futebol, aumento das tarifas de ônibus, proibição do aborto, assédio sexual nas ruas, falta de ciclovias, a forma como Israel trata os palestinos, manipulação da informação, repressão aos bombeiros do Rio de Janeiro e, principalmente, pela legalização da maconha.

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"Coelhinho" participa da Marcha da Liberdade, em SP: "Estou dando um grito sem palavras", explicou
A diversidade temática deixou alguns manifestantes confusos."Então é a marcha de tudo? Da maconha, dos homossexuais, de tudo?", perguntava a estudante de biologia Maria Cristina Freitas, 22 anos.

Outros, como o estudante de publicidade Victor Iemini, 20 anos, que foi um dos destaques da marcha vestindo uma pesada fantasia branca de coelho, protestavam por causas mais subjetivas. "Estou dando um grito sem palavras", explicou.

"Essa coisa de precisar de um tema para protestar é a maior caretice. Protestar é um direito de qualquer um. Seja humano, seja animal", concluiu Alexandre Paes Leme, colega de classe de Iemini na faculdade Anhembi Morumbi.

Programa de sábado à tarde

Protestar nas tardes de sábado está se tornando um hábito paulistano. Além da Marcha da Liberdade, a cidade acolheu também neste sábado uma Marcha Pela Ética, no Parque do Povo, e um inédito "beirutaço", em protesto contra a possibilidade de fechamento da tradicional lanchonete Frevo, nos Jardins.

A temporada das manifestações em São Paulo começou no início do ano com os atos contra o aumento das passagens de ônibus, continuou com os protestos contra o fechamento do Cine Belas Artes, deu uma guinada à direita com uma marcha em defesa do deputado Jair Bolsonaro, esquentou com a desproporcional repressão da polícia à Marcha da Maconha , ganhou corpo na Marcha pela Liberdade de Expressão, passou por passeatas contra a construção de Belo Monte, a Marcha das Vadias até chegar à Marcha da Liberdade, que aconteceu em outras 40 cidades.

Funcionário de uma empresa de informática, João Luiz Cavalcante Figueiredo, 27 anos, já participou de 15 passeatas neste ano. Segundo ele, a decisão do STF pode ser um desestímulo às manifestações. "A proibição era o que dava mais motivação. A partir do momento em que o direito pelo qual lutávamos é confirmado pelo Supremo não tem mais por que lutar", disse ele.

Quem estiver sem cartaz pode pegar qualquer um. Tem um monte espalhado pelo chão. É só escolher e defender sua bandeira", avisava locutor

Entre os manifestantes havia veteranos de outras batalhas, como o advogado Geraldo Oliveira, 65 anos, que participou da histórica Passeata dos 100 Mil contra a ditadura militar, e o músico Marcelo Moreira, 40 anos, que foi um dos cara-pintadas que ajudaram a derrubar Fernando Collor de Mello em 1992.

"Nós nascemos na ditadura e fomos aprender a protestar quando já éramos quase adultos. Essa molecada, não. Eles nasceram na democracia e por isso agem de forma mais natural", disse Moreira.

Segundo o mestrando em história Julio Delmanto, 25 anos, integrante do coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR), um dos organizadores da Marcha da Maconha, o fato de ter nascido numa democracia não significa que não haja por que lutar. "Nossa democracia ainda é insuficiente e imperfeita. Não está dando conta das demandas. Sem contar que existe o risco de retrocessos. Existem setores saudosos do passado que também estão se movimentando", disse ele.

Quem perdeu todas as manifestações do ano em São Paulo ainda terá várias oportunidades de protestar. Neste domingo, às 14h30, no Masp, haverá outra marcha contra Belo Monte. Sábado que vem será a vez da Marcha das Lésbicas que precede a já tradicional Parada Gay. Para o dia 2 de julho está prevista, finalmente, a agora liberada Marcha da Maconha.

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Manifestantes tomaram a avenida Paulista na tarde deste sábado: marchas se transformaram em programa de sábado para o paulistano

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