Já vi pedra rolar de cima e rachar casa no meio

Moradores da Serra do Mar relatam casos de quando viram a morte de perto; em dias de chuva, dizem, ninguém dorme nos barracos

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Uma passarela estreita, de madeira bamba, é passagem obrigatória para quem sobe e desce as trilhas do morro da favela carregando geladeiras, fogões, armários e aparelhos de televisão. Improvisada sobre um esgoto a céu aberto, de onde se observa lixo, entulho e moscas, a “ponte” liga dois pontos do grotão no Pinhal do Miranda, em Cubatão, onde mudanças, patrocinadas pelo governo do Estado, tornaram-se constantes desde o final de fevereiro.

O terreno liso e escorregadio após dias de chuva intensa deixa os visitantes se perguntando como as famílias conseguiram carregar, e agora retirar do alto, tantos objetos sem ajuda de caminhões, cordas, roldanas ou escadas – a invenção do elevador parece séculos distante da realidade da comunidade. No local, moradias irregulares foram montadas há décadas, e agora começam a ser desfeitas, numa área a cerca de 90 metros acima do nível do mar.

Eduardo Bandelli
Casas construídas em área de risco no bairro Pinhal do Miranda, na Serra do Mar

Durante a manhã da visita feita pela reportagem do iG , homens de capacete e uniforme azul andavam por todos os lados martelando e recolhendo os “destroços” de casas que acabavam de ser derrubadas. Os barracos, alguns pintados de rosa e azul ou com paredes para homenagear os times de futebol – em um deles se lia “Aqui vive um palmeirense feliz” – quase nunca possuem telhas ou forros.

Quando chove, ninguém dorme no local. Embora por ali ninguém se lembre exatamente da última vez que deslizamentos provocaram mortes entre vizinhos, quase todos têm na memória episódios dos dias em que viram a morte de perto. “Já vi uma pedra rolar dali de cima e rachar uma casa no meio. Por sorte, não tinha ninguém no lugar”, conta Meire Elen, de 27 anos, que mora na favela com a filha, de nove anos, e o marido.

Vizinhos relatam também que uma moradora, de cerca de 50 anos, teve de deixar sua casa às pressas no final de fevereiro, depois que o banheiro da casa, construída num dos pontos mais altos do morro, ser tomado pela lama após um deslizamento na encosta. A casa já foi desmontada, mas até hoje se vê no local as marcas do perigo que tomou forma em queda livre: o vaso sanitário, sobrevivente, permanece no local, coberto de terra e ainda de pé. Mas foi por pouco, relatam os moradores.

Apesar do perigo, a retirada dos moradores não é tarefa simples. Muitos se recusam a adiantar a mudança por temer serem alojados em lugares distante do trabalho. O medo do desemprego, e o receio de ganhar uma moradia regular – o que significa pagar taxas, luz e água –, funcionam como freio ao desejo dos moradores de se mudar para lugares seguros.

Desde 2007, ano em que teve início o Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar, novas ocupações no local estão congeladas por determinação do Estado. Durante mais de três anos, a Polícia Militar Ambiental realizou patrulhas nessas ocupações para conter a expansão habitacional e coibir eventuais crimes ambientais.

Hoje, os que permanecem no local dizem saber dos riscos, mas não acreditam que possam se tornar vítimas de problemas como os observados no Rio e em Santa Catarina. Garantem apenas que vão continuar rezando. A maior prova de fé da comunidade talvez esteja sinalizada na instalação de uma igreja, a “Congregação Evangélica Cristo Vem”, num dos pontos mais altos do morro.

Eduardo Bandelli
Operário trabalha na remoção de casa no Pinhal do Miranda
José Rodrigues, 54, mestre-geral da empresa contratada para o serviço, contava 25 dias de andanças pela “comunidade” – que ele se nega a chamar de favela. Nos últimos dias, dormia numa casa alugada para ele em Cubatão. Entre 6h e 18h, a rotina é quase a mesma: subir e descer morros coordenando os trabalhos de desmontagem. A demolição sempre acontece a partir das 7h, quando as famílias já deixaram o local. Em tese, se houver qualquer sinal de mobília no interior dos barracos, a missão deve ser suspensa. O momento mais delicado, diz ele, é o da retirada das famílias. “Aqui é como jogo de xadrez, e o morador é o Rei e a Rainha. Mas é uma situação complicada”, afirma o mestre-geral, que conta não ter observado por aqueles lados casos de moradores que demonstraram resistência ou foram às lágrimas por ter que partir.

Nas contas dele, os trabalhos contam com cerca de 25 operários responsáveis pela desmontagem das casas do morro, e outros 70 designados para a limpeza dos terrenos. No começo da tarde de quinta-feira, eles comiam e descansavam numa sombra do teto do armazém e restaurante de dona Lúcia da Costa, que há oito anos montou a única venda das redondezas. Todos descansavam antes de voltar aos trabalhos: naquele dia, ainda precisavam demolir três casas no lote 200, metros acima do Pinhal do Miranda.

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