Irmão de Mércia e advogado de Mizael brigam em reconstituição

Polícia realizou a reconstituição da morte de Mércia e confusão marcou encontro entre a família da vítima e advogado do acusado

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

O irmão da advogada Mércia Nakashima, Márcio Nakashima, e o advogado de defesa de Mizael Bispo de Souza, Sammir Haddad Junior, brigaram nesta sexta-feira antes da reconstituição da morte da advogada, de 28 anos. Ela desapareceu no dia 23 de maio após deixar a casa da avó em Guarulhos, Grande São Paulo, e o corpo dela foi encontrado boiando na represa de Nazaré Paulista, no interior do Estado, no dia 11 de junho.

Márcio e Haddad trocaram empurrões perto da represa de Nazaré e foi necessária a intervenção de outras pessoas para que a briga parasse. A reconstituição começou pouco depois das 19h e terminou por volta de 22h30 e foi feita integralmente com base no depoimento de um pescador que disse ter visto um carro se aproximando da represa na noite do dia 23 de maio e depois afundando na água.

Segundo Márcio, a briga aconteceu após o advogado ir cumprimentá-lo e ele questionar porque Haddad não cumpriu uma promessa, que teria sido feita no dia em que encontraram o corpo de Mércia, de fazer seu cliente confessar o crime se as provas indicassem isso. Haddad afirmou que nunca prometeu isso e não sairia do caso.

O advogado de Mizael, acusado de ser o mentor e o executor da morte da ex-namorada, defendeu seu cliente e afirmou que não havia prometido deixar o caso em nenhuma circunstância. "Não vou abandonar o caso nem que ele confesse. Eu disse que se tivesse prova concreta e absoluta, que me convencesse, eu mudaria a estratégia. Mas não adianta sair, viria outro advogado tão bom ou melhor do que eu. Ele (Márcio) colocou a culpa em mim, mas não fui eu quem matou a irmã dele. Entendo que a pessoa está agindo com emoção, mas sofrimento todo mundo tem”, afirmou bastante irritado Haddad Junior, que teve a camiseta da banda de rock Led Zeppelin que vestia rasgada.

AE
Samir Haddad Júnior (e) tem a sua camiseta rasgada durante discussão com Márcio Nakashima
Mesmo após a discussão, os ânimos continuaram exaltados próximo ao local onde foi realizada da reconstituição. "É lamentável a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) permitir que advogados desse tipo trabalhem. Agora, eles tentam denegrir a imagem dela. Um deles chegou a afirmar que Mizael conheceu minha irmã porque ela era garota de programa", disse Márcio, indigando e com os olhos marejados.

Família "destruída"

Márcio ressaltou que não gostaria ter voltado ao local onde a irmã foi morta e só foi a pedido da mãe, Janete. A avó da advogada, Ivone, também acompanhou os trabalhos. “Tudo isso é muito triste. Vir aqui me traz lembranças ruins, mas minha mãe queria saber como tudo aconteceu. Ela disse que viria nem que fosse a pé”, afirmou.

Márcio disse ainda que espera que os juízes do Tribunal de Justiça de São Paulo reconsiderem a decisão da desembargadora Angélica de Almeida, que concedeu habeas corpus a Mizael. “Temos esperança que um dia a Justiça seja feita. Acredito que os outros desembargadores não vão compartilhar com a decisão dela”, considerou.

Segundo ele, desde o crime, a família não tem mais rotina e idas ao hospital têm se tornado frequentes. "A família está bastante abalada. A Cláudia, minha irmã, está com 40kg, em pele e osso. Ela está abandonando a profissão que com muito sacrifício conseguiu se formar. Só para não ter que cruzar com assassinos como Mizael no fórum", disse.

Janete, mãe da Mércia, ressaltou que todas as provas são importantes, incluindo a reconstituição, mas que, para ela, o autor do homicídio já foi descoberto. “Querem tumultuar, mas já sabemos quem é o assassino". Em um momento mais exaltada, ela chegou a compará-lo com Judas. "Ele é um covarde, um assassino, um Judas. Ele comia na nossa casa, passou o Natal e o Ano Novo com a gente", disse revoltada e aos gritos.

Reconstituição

A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público iniciaram os trabalhos da reconstituição pouco depois das 19h. Estiveram presentes o promotor do Ministério Público Rodrigo Merli Antunes, que ofereceu denúncia contra Mizael e o vigia Evandro Bezerra da Silva; peritos da Polícia Técnico-Científica, adogados da família da vítima e dos acusados, além do delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) Antônio Olim, que investigou o caso e do pescador (cujo nome não foi divulgado). Diversos populares também se aglomeraram no local, onde gritavam "justiça".

Por volta das 20h40, chegou ao local da reconstituição um automóvel Honda Fit, similar ao de Mércia, com uma amigo da família e uma uma mulher japonesa em seu interior, que faziam o papel de Mizael e Mércia. A perícia queria analisar o ângulo de visão que o pescador teria tido do crime. A perícia foi encerrada depois das 22h.

Até o momento, a principal prova contra Mizael foi resquício de algas presente em seu sapato, semelhantes às do terreno da represa. Além disso, foram achados sangue e ossos na sola do mesmo calçado, apreendido na casa do acusado, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A polícia e o Ministério Público em dados do rastreador e das ligações feitas para a vítima e para o vigia no dia do crime e nos dias anteriores.

Entenda o caso

ARQUIVO PESSOAL
Mércia Nakashima em foto de arquivo familiar
Mércia foi vista pela última vez no início da noite do dia 23 de maio, no bairro Macedo, em Guarulhos, na casa da avó. Depois que saiu de lá, não fez mais contato com amigos ou a família.

Mércia e Mizael foram sócios e namorados. Em entrevista ao iG , antes mesmo de saber da morte da irmã, Cláudia Nakashima, disse que o namoro dos dois foi marcado por idas e vindas e muitas brigas. "Quando estava com ele Mércia era outra pessoa. Ela não podia falar com ninguém, vizinhos do prédio até falam que quando ela estava sozinha no elevador cumprimentava; quando estava com ele, abaixava a cabeça”, disse Cláudia.

No dia do sumiço de Mércia, o advogado alegou que foi visitar a filha e um irmão, com quem almoçou e, depois, saiu com uma garota de programa. Um fato que complicou a situação de Bispo é que o rastreador do carro dele mostrou que das 18h40 às 22h38 ele ficou estacionado em frente ao estacionamento do Hospital Geral de Guarulhos, em uma rua a menos de cinco minutos da casa da avó de Mércia.

No dia 11 de junho, um pescador encontrou o corpo de Mércia boiando em uma represa de Nazaré Paulista. No mesmo local, um dia antes, homens do Corpo de Bombeiros de Atibaia já haviam localizado o veículo da vítima, com todos os pertences dela dentro.

O laudo divulgado no último dia 20 de julho pelo Instituto Médico Legal (IML) diz que Mércia foi ferida por disparo de arma de fogo no braço esquerdo, na mão direita e no maxilar. Além desses ferimentos, ainda foi atingida no rosto por um outro objeto, que a perícia não conseguiu precisar qual foi. A causa da morte apontada no laudo é afogado. Para a polícia, ela teria sido jogada dentro do carro, ainda com viva, mas desacordada, na lagoa de Nazaré Paulista. Leia também a cronologia do caso .

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