Hopi Hari diz que cadeira utilizada por menina estava interditada havia dez anos

O parque também informou que ficará fechado por dez dias a partir desta sexta-feira

iG São Paulo |

Ademar Gomes / Divulgação
Foto antes do acidente define posicionamento da família no brinquedo. Gabriela está ao fundo
O Hopi Hari informou nesta quinta-feira (1), por meio de sua assessoria de imprensa, que a cadeira em  que a adolescente Gabriela Yokuri Michelari utilizou estava interditada há cerca de dez anos. Gabriela de 14 anos morreu no último dia 24 após cair do brinquedo ‘La Tour Eiffel’ .

A informação da interdição foi dita durante o depoimento de um dos gerentes do parque à polícia. Segundo o delegado de Vinhedo, Álvaro Santucci Noventa Júnior, o gerente recebeu com surpresa a notícia de que a cadeira inoperante na qual sentou Gabriela teria sido usada. "Ele disse que ficou surpreso como nós porque sequer sabia que aquela cadeira havia sido utilizada", afirmou Noventa Júnior.

Esta foi a segunda vez que o engenheiro suíço, cujo nome não foi divulgado nem pela polícia, nem pela Promotoria e nem pelo parque, depôs. Na terça-feira, o funcionário disse que seria impossível ter ocorrido uma falha mecânica no equipamento.

Para a polícia e a Promotoria, o depoimento desta quinta-feira reforçou a tese de falha humana. "O Hopi Hari não contesta o que foi descoberto. A investigação agora ganha contornos mais complexos, porque faltou vigilância, uma vez que aquela cadeira jamais deveria ter sido usada", completou o promotor Rogério Sanches.

O gerente não quis dar entrevista. Segundo o promotor, ele explicou em depoimento que a cadeira estava inutilizada havia ao menos dez anos. O motivo seria a localização do assento. Se uma pessoa com compleição física maior sentasse ali, poderia esbarrar as pernas em estrutura metálica existente para dar à atração os traços da Torre Eiffel. A cadeira não possuía, porém, nenhum aviso.

O advogado Alberto Toron acompanhou o depoimento e disse que o Hopi Hari, diante da revelação, afirmou que houve um erro. "Agora é preciso descobrir de quem foi a falha na manutenção, que levou ao desbloqueio da cadeira, e no atendimento ao público, por permissão para uso daquela cadeira", disse o advogado. "Vamos colaborar com as investigações", reafirmou.

Na internet: Vídeos mostram cadeira onde Gabriela sentou desocupada

Mãe: 'Coloquei a mão e ela já não respirava'

Perícias: Parque Hopi Hari será fechado para a realização de perícias

Segundo informações técnicas dadas pelo profissional do parque à polícia e à Promotoria, a trava de segurança usada pelos visitantes existia também na cadeira inoperante. Ali, ela permanecia abaixada e ficava fechada permanentemente. Naquela cadeira, um cinto usado como segundo dispositivo de segurança inexistia. O cinto foi exigência do fabricante (suíço) em 2003. "Mas ao menos desde 2002 a cadeira não funcionava. Acreditando que a cadeira não seria utilizada, o parque não colocou o cinto naquele assento", disse o promotor.

A Torre Eiffel possui cinco conjuntos com quatro cadeiras em cada um. Dois estão desativados. A cadeira do setor 3, no qual estava Gabriela, também estava inoperante. "Ninguém nesses dez anos se sentou na cadeira porque havia um travamento no colete e isso por si só impedia que alguém sentasse", explicou o advogado do parque. "A verdadeira questão é saber quem liberou a trava."

Em depoimento dado ao delegado e aos dois promotores, dois funcionários de operação do brinquedo disseram hoje que sabiam da inoperância do assento. De acordo com o titular da Delegacia de Vinhedo, o operador Vitor Igor Espinucci de Oliveira, de 24 anos, disse ter checado as travas de todas as cadeiras 15 minutos antes do brinquedo começar a funcionar. Ao perceber que a trava da cadeira usada por Gabriela estava solta, teria avisado um superior. O advogado Bichir Ale Bichir Júnior, representante dos dois funcionários, informou que Vitor não recebeu resposta do superior.

Vitor e Marcos Antônio Tomás Leal, de 18, que também compareceu à delegacia, disseram que a responsabilidade de checar cada setor de cadeiras ficou para outros operadores. "O fato (de Gabriela estar em uma cadeira inoperante) teria passado despercebido pelos operadores", afirmou o delegado.

Visitantes do parque divulgaram fotos em redes sociais que mostram que a cadeira não era utilizada.

Divulgação Facebook
Foto divulgada por visitantes no Facebook mostra cadeira utilizada por Gabriela vazia

Outra cadeira com problemas

Quatro dias antes da morte de Gabriela, o programador Rogério Luís Américo fez fotos do filho, o adolescente Yuri Nunes Américo, de 14 anos, sentado numa cadeira do mesmo brinquedo, cujo mosquetão de metal, que deveria servir para prender o cinto do assento à trava de segurança do encosto, estava sem a mola de fechamento. "A peça estava aberta, sem a mola de metal que deveria prender o cinto", contou a mãe do adolescente, a empresária Miriane Nunes Américo.

Segundo Miriane, a pressa com que os monitores acionaram o brinquedo impossibilitou que se fizesse alguma reclamação. "Mesmo se eu tentasse dizer "não quero, meu filho não vai", não haveria tempo, porque é tudo muito rápido", diz. Segundo ela, Yuri ainda tentou dizer para a irmã, Bianca, que estava ao lado, em outra cadeira, que havia problema com a fechadura da cadeira dele. "Mas a irmã pensou que os fechos (mosquetões) fossem diferentes de uma cadeira da outra, pois jamais alguém imagina que pode acontecer um acidente desses. Mesmo assim, meu filho foi no brinquedo segurando o cinto junto da trava no peito dele", contou.

A cadeira que Yuri usou é a primeira da esquerda para a direita, do setor 4. "Não conseguimos saber se era a mesma cadeira usada por Gabriela, mas o que importa é que a falha da segurança ocorria há mais tempo no mesmo brinquedo e se não for na mesma cadeira, é sinal de que o problema também afeta outras cadeiras do mesmo brinquedo, pois vimos outras cadeiras interditadas", afirmou Miriane. A cadeira usada por Gabriella seria a primeira da esquerda para a direita, mas do setor 3.

Novas perícias

O parque de diversões também informou após reunião com o Ministério Público que um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado e o parque ficará fechado por 10 dias a partir de amanhã (sexta-feira, 02/03) para a vistoria dos brinquedos. O prazo do acordo é prorrogável por mais dez dias. Segundo informou o promotor criminal de Vinhedo Rogério Sanches, trata-se de uma ação preventiva realizada pela Promotoria, na área do Consumidor.

Não foram definidos número ou quais atrações passarão por perícia, mas segundo informou o advogado do parque, Alberto Zacharias Toron, os brinquedos com sistema eletromecânico devem ser os mais visados. "A diretoria do parque concordou prontamente porque tem plena consciência da correção dos seus procedimentos", afirmou o advogado.

A promotora da área do consumidor, Ana Beatriz Sampaio Silva Vieira, não descartou a possibilidade de interdição do parque. Segundo ela, porém, isso só ocorrerá caso o resultado da perícia aponte para insegurança ao visitante. "Vamos ouvir outras pessoas e aguardar o laudo da perícia. Se ficar comprovado que o brinquedo (La Tour Eiffel) era inseguro, peço interdição do brinquedo. Se isso se mostrar em relação a outros brinquedos, posso eventualmente pedir a interdição do parque", afirmou a promotora. 

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