¿Foi uma armadilha que fizeram pra mim¿, diz Mizael em audiência

No quarto dia de audiência, Mizael foi interrogado e voltou a afirmar que não matou Mércia. Evandro, outro acusado, também depôs

Lectícia Maggi, iG São Paulo |

"Nunca, jamais"” Essa foi a resposta do policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Sousa ao ser questionado pelo juiz Leandro Bittencourt Cano se matou a ex-namorada Mércia Nakashima. Ele atribuiu a acusação do crime a “inimigos”. “Acho que foi uma armadilha que fizeram pra mim. Quando termina um relacionamento o outro é sempre suspeito. Como não tem outra investigação, fizeram isso”.

Bispo afirmou que, pelo o que acompanhou do caso, o assassinato foi cometido com requintes de crueldade e quer ver preso quem fez isso. “A pessoa que cometeu esse crime tem que pagar de acordo com a lei. Quem comete uma barbaridade dessas e coloca outro que não tem nada ver tem que pagar na mesma moeda”.

Ele disse que confia na Justiça e está colaborando para provar a própria inocência. “Quando acabar isso vou começar a minha investigação e desmascarar muita gente”. 

AE
Mizael Bispo de Souza ao chegar ao Fórum nesta quinta-feira
Dia do desaparecimento

Em seu depoimento, Mizael disse que no dia 23 de maio, dia da morte de Mércia, recebeu, pela manhã, uma denúncia do desaparecimento da filha e foi verificar. “Fui na casa da minha ex-esposa quatro ou cinco vezes”, disse. Depois, alegou que encontrou Evandro em uma feira de Guarulhos, na rua Monte Alegre, e ainda passou a tarde na casa do irmão, onde dormiu parte do tempo.

Bispo ficou confuso quando falou sobre o encontro com uma outra mulher, que seria garota de programa, com quer afirma ter ficado parado dentro do carro próximo ao Hospital Geral de Guarulhos. “Buzinei para ela, ela olhou, sorriu, fiz contorno com o carro e perguntei se ela trabalhava ali. Ela ‘não’. Vamos conversar?, falei, e ela entrou no carro”. Segundo ele, essa abordagem foi muito rápida e durou cerca de 5 segundos, sendo que ele afirma não ter desligado o carro para pegá-la. No fim, ele teria oferecido dinheiro, mas ela não aceitou. Seu nome, diz ele, seria “Ariane ou Ariana”.

Há uma contradição também sobre o tempo em que teria ficado com a mulher. Nos depoimentos do acusado para a polícia, constam que foram cerca de 3h30. Nesta quinta-feira, ele afirmou que passou apenas entre 1h30 e 2h com ela. “Sempre afirmei que não fiquei 3h, discordo do rastreador”.

Celulares

Outro ponto abordado pela acusação foi sobre os números de celulares do acusado. “Tenho quatro, cinco ou seis, mas de uso contínuo são três”, respondeu ele, que disse não ter lembrado de passar um dos números para a polícia. “Diante de toda a pressão (na delegacia) fiquei até sem noção”, afirmou e admitiu que um dos celulares não estava em seu nome. “Quando fui comprar, o vendedor falou que só tinha chip e já estava cadastrado. Eu usava ele mais no final se semana, não era contínuo”.

Mizael deu mais uma informação contrária ao laudo da polícia. Ele admitiu ter ligado para Evandro no dia 23 de maio, mas apenas “duas ou três vezes” e não 16 como consta no relatório da polícia das ligações efetuadas

Depoimento do vigia

O vigia Evandro Bezerra da Silva, acusado de ajudar Mizael na fuga após o crime, também prestou depoimento nesta quinta-feira. Interrogado após o ex-namorado de Mércia, o vigia reafirmou que foi torturado por policiais de Sergipe para confessar que buscou o Mizael na represa de Nazaré Paulista, no dias 23 de maio.

AE
Vigia Evandro Bezerra da Silva ao chegar para depor
“Me pegaram na sala onde estava com mais 21 presos e me levaram para uma sala que eu não conhecia. Lá tinha mais quatro policiais e dois delegados. Ficou um policial de um lado e outro de outro. Então um falou ‘você não vai aguentar’, colou fita crepe na minha boca e colocou um saco plástico na cabeça. Ele disse que quando eu não aguentasse era para bater o pé”. Segundo Evandro, os policiais afirmaram que era para ele falar o que o delegado Antonio Olim pedisse. “Se repetiu por quatro vezes e na quarta eu desmaiei. Aí jogaram água em mim. Não aquentava mais e falei ‘eu falo’”, disse o vigia que ainda afirmou que a gravação do depoimento foi feita após a tortura.

Evandro alegou também que foi pressionado para repetir esse mesmo depoimento já em São Paulo, no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. “No avião, Olim veio falando para eu não mudar, deu detalhes do que eu deveria dizer e mandou eu falar que passei por uma barreira policial, abaixei o vidro, dei boa noite e segui”.

Uma das informações chave para a defesa, que confirmaria a espontaneidade do depoimento, foi o fato de Evandro ter dito, mesmo sem ter sido questionado à respeito, que encontrou uma viatura da PM no trajeto de volta da represa. O acusado, por sua vez, reafirmou, na viagem de avião, que Olim mandou que ele dissesse isso. No entanto, quando o promotor questionou o fato dele, já no primeiro depoimento,  em Sergipe, ter mencionado a viatura, o vigia se atrapalhou bastante. Então, disse que o delegado falou isso para ele antes da primeira gravação.

Para o promotor Rodrigo Merli Antunes ficou evidente a contradição. “Foi a chave da confissão. Tenho convicção que serão pronunciados e levados a júri”.

Evandro afirmou que viajou para Alagoas no dia 12 de junho, mas ressaltou que a viagem foi feita para visitar parentes e já estava programada. Antes disso, diz que não foi localizado porque o delegado procurou no lugar errado. “Ele foi na casa da minha ex-esposa, não foi onde eu morava”. 

Durante o interrogatório, ele afirmou que só soube pela TV, em Alagoas, que era procurado pela polícia e que não se entregou porque “achou que só poderia fazer isso em São Paulo”.

Contrariando o depoimento de Mizael, Evandro afirma que o ex-namorado de Mércia andava armado e quando precisava de apoio no trabalho de vigilante era ele quem procurava.

Antes do início do interrogatório, o promotor fez uma proposta de delação premiada pela qual Evandro poderia ter a pena reduzida de um a dois terços, caso condenado, se confirmasse participação e contribuísse para o esclarecimento dos fatos. O advogado do vigia não aceitou a proposta e disse que ela só beneficia “quem efetivamente participou de um crime e que nesse caso induziria o cometimento de outros crimes como falso testemunho e denúncia caluniosa”.

Família de Mércia

Na saída do fórum, a mãe de Mércia, Janete Nakashima, disse que estava “satisfeita” com os trabalhos da semana. “Muitas contradições já sabíamos e só vieram a provar o que já sabíamos, que foram eles os assassinos da minha filha”, considerou. "Apesar da dor, de que minha filha não volta mais, eles serão condenados”, opinou, confiante, e acrescentou que, no início, o que mais queria era encontrar Mércia com vida. “Acabou, agora queremos Justiça”.

Decisão adiada

Durante a audiência desta quarta-feira, o juiz Cano já havia declarado que não vai decidir sobre a pronúncia - se os réus irão ou não a júri popular - antes do julgamento do habeas corpus que foi impetrado no Tribunal de Justiça de São Paulo. Este habeas pede que esse eventual júri seja transferido de Guarulhos para Nazaré Paulista porque foi lá que o corpo foi encontrado.

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