"Foi um milagre eu ter sobrevivido", diz passageira de ônibus

Estudante que estava ao lado do cobrador, que morreu, contou ao iG como foi o momento do acidente em Americana, no interior de SP

Márcio Apolinário, especial para o iG |

A estudante Gabriele Helena, de 17 anos, uma das sobreviventes do acidente entre um ônibus e um trem que matou nove pessoas em Americana , no interior de São Paulo, e feriu outras 15 pessoas, na noite de quarta-feira, contou ao iG nesta quinta como foi o momento do impacto. A estudante do ensino médio usava o coletivo todas as noites quando voltava do colégio. “Eu sempre pegava o mesmo ônibus, e dessa vez o motorista não viu os sinais que avisavam que o trem estava chegando. Fui notar quando o trem já estava muito próximo do ônibus”.

AE
Composição não conseguiu parar e atingiu ônibus, que foi arrastado por cerca de 100 metros e ficou completamente destruído
A jovem também contou que no momento da colisão ela estava em pé e só não morreu porque estava na parte de trás do coletivo. “Quase todas as pessoas que não estavam depois da catraca morreram, ou ficaram muito feridas. Nessa hora eu tinha acabado de passar para a parte de trás do ônibus e estava perto do cobrador. Só me lembro de ter sentido o impacto e segurado firme no ferro. Se não fosse isso, eu poderia ter sido lançada para fora do veículo. Eu só queria que o trem parasse de empurrar o ônibus”, explicou a sobrevivente.

Ela relatou que boa parte das pessoas que estavam no coletivo era conhecida, pois sempre pegavam no mesmo horário, com o mesmo cobrador e motorista. “Na hora do acidente eu só queria saber a situação do meu amigo, porque ele não tinha passado para a parte traseira ainda. Quando o trem parou, eu consegui pular para fora e fiquei procurando ele. Enquanto procurava, ouvi muita gente gritando, mas estava escuro e eu não conseguia achar meu amigo. Então resolvi ir procurar ajuda e avisar a minha mãe. Foi um milagre eu ter sobrevivido”.

Gabriele disse que só ficou aliviada quando chegou ao hospital e viu seu amigo Felipe Henrique entre os sobreviventes. “Eu saí bem machucada do acidente, mas não fui ao hospital logo que saí do local. Fui pra casa e tentei dormir, mas não consegui. Fui ao hospital pela manhã, e diagnosticaram que tive lesões nos músculos da perna e do braço esquerdo”, explicou.

Outro sobrevivente

Contatada pelo iG , a mãe do estudante Felipe Henrique disse que o filho sofreu alguns traumas e que passava por mais uma cirurgia na tarde desta quinta-feira. “Ele teve um corte bem grande na testa e quebrou o pulso. Os médicos já fizeram uma cirurgia durante a madrugada, mas ele precisou fazer outra hoje”, explicou Isabel Gomes.

Velórios

A assistente social

Durante o velório da assistente social Luzia Pereira da Silva, de 43 anos, seu marido Onivaldo Manoel dos Santos contou que ela voltava do trabalho de ônibus porque ele não pôde ir buscá-la, como de costume, no Terminal de Americana. "Temos um filho de três anos. Como não temos cadeirinha no carro para transportá-lo (a Lei de Cadeirinha entrou em vigor na semana passada), não pude pegá-la. Minha vida acabou", afirmou durante o velório.

O cobrador de ônibus

Aparecida Teixeira, de 48 anos, disse que seu marido, Domingos Lustres (43 anos), trabalhava como cobrador de ônibus há aproximadamente 13 anos, e que nunca tinha sofrido um acidente. “Há mais de 10 anos eu estava acostumada a ouvir ele contar sobre seu dia de trabalho. Dessa vez, a última imagem que tive dele foi enquanto o reconhecia no Instituto Médico Legal (IML)”, relatou, enquanto registrava o Boletim de Ocorrência da morte de seu marido, no 1º Distrito Policial da cidade.

Relatos da população

Segundo relato do frentista Adalberto Couto, de 47 anos, os ônibus costumam ultrapassar a passagem da linha do trem sem respeitar a sinalização. "Em 2006, aconteceu um acidente muito parecido, ainda bem que não machucou tanta gente igual a esse. Me lembro que foi um trem da companhia Ferrovias Brasil que pegou um coletivo da Auto Viação Americana (AVA)”, disse o frentista.

A balconista Julie Anie Lopes Freirio, de 17 anos, também se lembra do acidente de 2006 e confirma a acusação do frentista. “Eu costumo pegar o ônibus da linha Cidade Jardim – Zanaga no período da manhã, e o motorista costuma passar pela linha do trem sem respeitar o aviso que vem trem”.

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