Fim do sequestro de Washington Olivetto completa 10 anos

Publicitário foi libertado no dia 2 de fevereiro do 2002 após 53 dias de cativeiro, em um cômodo de 1m por 2,5m. Pedido de resgate era de US$ 18,5 milhões

iG São Paulo |

Há exatos 10 anos, o publicitário Washington Olivetto deixava o cativeiro após 53 dias confinado em um quarto de menos 3 metros quadrados, na casa de número 40 - na época - da rua Kansas, no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo. Era o fim de um sequestro minuciosamente elaborado por cerca de 10 meses, realizado por chilenos, colombianos e argentinos – com posterior participação de brasileiros - que faziam parte da luta armada em seus países.

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O publicitário em evento no ano passado
Apesar do grande investimento policial para por fim ao sequestro, foi uma ligação para a polícia feita por um corretor de imóveis de Serra Negra, a mais de 150 quilômetros da rua Kansas, denunciando que turistas estavam fumando maconha em um sítio, a chave para o desfecho positivo do caso.

Do grupo chefiado pelo chileno Mauricio Hernández Norambuena, seis - incluindo o próprio - foram presos no desfecho do sequestro . Atualmente, o mentor do grupo está preso em uma penitenciária de segurança máxima em Campo Grande (MS), e tem um pedido de extradição feito pelo Chile, onde foi condenado a duas penas de prisão perpétua por planejar e executar, em 1991, o assassinato do senador chileno Jaime Guzmán, importante colaborador do governo Pinochet, e por ser um dos autores do sequestro de Cristián Edwards, herdeiro do diário El Mercurio, um dos maiores jornais chilenos. Segundo decisão da Justiça brasileira, ele só será extraditado após cumprir a pena no Brasil.

Um homem e uma mulher condenados seguem presos no interior de São Paulo, outra foi extraditada para a Argentina, e dois fugiram em uma saída temporária que não deveria ter ocorrido na Penitenciária de Itaí, no interior de São Paulo. Esses seguem foragidos.

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O sequestro

Washington Olivetto pouco falou sobre o caso. Deu uma entrevista no dia seguinte a sua libertação e não comenta mais o assunto. Parte dos detalhes do sequestro só foi revelada após o escritor Fernando Morais escrever o livro “Toca dos Leões - A história da W/Brasil”, de 2005, sobre a história da empresa de publicidade fundada por Olivetto.

Fernando Pilatos/Futura Press
Buraco feito em orelhão próximo ao prédio do publicitário por onde os sequstradores observavam a movimentação no prédio
A polícia calcula que pelo menos 15 pessoas participaram do crime. Teria sido gasto cerca de R$ 340 mil na operação, dinheiro gasto na manutenção da quadrilha, no pagamento do alugueis de flats, sítio e casas, e na compra de carros, armas, disfarces e equipamentos eletrônicos.

O sequestro ocorreu na noite do dia 11 de dezembro, mas foi planejado com muita antecedência. Segundo a polícia, o grupo, que estava dividido em pelo menos seis endereços no Estado, monitorou os passos de Olivetto por cerca de 10 meses. A partir de março de 2001, a quadrilha aumentou a investigação e o publicitário teve seus passos seguidos e registrados em detalhes. Eles montaram campana na frente da sua casa, no trabalho, nos restaurantes e endereços que mais visitava. Tudo era registrado e estudado.

No momento do sequestro, os criminosos vestiam coletes da Polícia Federal e simularam uma blitz. Assim tiveram acesso ao carro blindado dirigido pelo motorista e levaram Olivetto. Após trocarem de carro, rodaram aproximadamente por 40 minutos até entrarem em uma garagem. Ainda encapuzado, o publicitário foi encaminhado para um cômodo um pouco maior que um guarda-roupa, com aproximadamente um metro de largura por 2,50m de comprimento. Com as paredes, chão e tetos cobertos por um plástico grosso, o local tinha uma entrada de ar no teto e uma saída na parede, com um exaustor que auxiliava a circulação do ar. Ao lado da porta de entrada havia um olho mágico com uma lente que vigiava o sequestrado 24 horas por dia. Ainda havia uma caixa acústica que tocava músicas de um CD em som altíssimo.

Carolina Garcia
Casa usada como cativeiro na rua Kansas, no bairro do Brooklin
Nesse cômodo, Olivetto passou 53 dias. Durante o sequestro foram feitos alguns contatos com a família, sempre por bilhetes encaminhados com compras em lojas que realizavam serviços delivery.

O primeiro aconteceu no dia seguinte ao sequestro, 12 de dezembro, quando uma mulher de cabelos longos e óculos escuros comprou um buquê de rosas e mandou entregá-lo para Patrícia Viotti, esposa de Olivetto. Junto com as flores seguiu um envelope contendo o relógio de Olivetto e uma mensagem que pedia US$ 18,5 milhões de resgate (R$ 32 milhões). Depois de longo período de silêncio, no dia 15 de janeiro, uma Kombi de uma loja de materiais de construção entregou na residência de Olivetto duas latas de tinta e junto com elas outra mensagem. Dezesseis dias depois, em 31 de janeiro, o entregador de uma farmácia deixou na portaria do prédio de Olivetto um pacote com produtos de beleza. Dentro dele havia uma mensagem insistindo na quantia anteriormente exigida.

Durante a investigação nas lojas usadas para enviar as mensagens para a família, a polícia percebeu que a tática usada pelos criminosos foram as mesmas utilizadas nos sequestros do empresário Abílio Diniz e do publicitário Geraldo Alonso, realizado por grupos ligados a movimentos de extrema esquerda de países latino-americanos. Mas ainda não havia nenhuma pista de onde o publicitário era feito refém.

Foi quando no dia 1º de fevereiro, um corretor de imóveis da cidade de Serra Negra procurou a polícia para alertar que tinha notado movimentos estranhos em uma chácara ocupada por turistas. Ele havia visto alguns homens e mulheres conversando em língua estrangeira e fumando maconha. Como na época, em Serra Negra, havia ocorrido uma apreensão de 40 quilos de cocaína pura, o corretor de imóveis resolveu revelar suas suspeitas à polícia. Com um mandado de busca me mãos, 23 policiais militares e civis foram ao local. Com um ar de espanto, Norambuena, de bermudas, atendeu a porta e não reagiu. Na casa foram encontradas armas, disfarces e anotações sobre o sequestro.

AE
Líder dos sequestradores, o chileno Maurício Hernandez Norambuena (c), após ser preso em São Paulo
Transferido para a delegacia antissequestro em São Paulo, o chileno admitiu que negociava o resgate e propôs a libertação do publicitário em troca de poder avisar seus comparsas de crime. No dia seguinte ele teria um contato com outro membro da organização e ordenaria a soltura de Olivetto, mas apenas dois dias depois, para que a operação pudesse ser desfeita ser deixar pistas.

Na manhã seguinte, Norambuena exigiu que ele mesmo escolhesse um telefone público na cidade para evitar que a ligação fosse gravada e o destinatário da chamada identificado. Após rodarem por cerca de 10 minutos por ruas de São Paulo, o chileno apontou um orelhão escolhido aleatoriamente. Algemado e cercado de policiais, Norambuena discou um número, que não pode ser visto por mais ninguém, e ordenou, em espanhol: “aqui fala o comandante Ramiro. Fomos presos. Libertem o cavalheiro”.

Assim, a polícia esperava por notícias do fim do sequestro apenas na segunda-feira. Mas durante o mesmo sábado, quando preparavam para limpar o cativeiro e apagar qualquer tipo de prova, uma repentina falta de energia elétrica no bairro do Brooklin teria assustado os vigias que tomavam conta de Olivetto. Pensando que era a polícia que teria cortado a luz, preparando uma invasão, eles abandonaram a casa deixando o local com algumas pistas e documentos sobre o sequestro. Disquetes de computadores foram inutilizados, mas restaram no local o diário que fizeram da vida da vítima no local, uma fita de vídeo com imagens dele no cubículo e cartas trocadas com o sequestrado.

Olivetto, percebendo que estava sozinho na casa, e sem o sistema de ventilação, começou a gritar e pedir por socorro. Por volta das 22h, a então estudante de medicina Aline Dota, de 22 anos, vizinha da casa usada como cativeiro ouviu os pedidos de socorro de Olivetto ao encostar um estetoscópio na parede de seu quarto. Aline chamou a polícia e assim chegou ao fim o drama do publicitário.

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