Famílias sem-teto acampam em praça à frente da Câmara Municipal

Após reintegração de posse, principal preocupação é com as crianças. Conselho Tutelar diz que a guarda pode ser tomada

Márcio Apolinário, especial para o iG |

Após a reintegração de posse desta manhã, parte das 540 famílias retiradas do prédio do INSS acampa na Praça General Craveiro Lopes, em frente à Câmara Municipal, no centro de São Paulo. Segundo o movimento Frente Luta por Moradia (FLM), cerca de 200 famílias não têm para onde ir, e a única opção no momento é morar na rua.

De acordo com relatos de algumas famílias, a principal preocupação é com relação às crianças. O casal José Antônio Ribeiro e Tabata Litiara, pais da pequena Sofia, explicou que além do problema de segurança, por estarem na rua, eles não têm garantido o direito de continuar com a guarda do bebê de um ano. “O Conselho Tutelar já adiantou que pretende tomar a guarda das nossas crianças, por estarmos em situação de rua. Eles consideram que não temos condições de manter nossa filha. Não sabemos o que fazer. Já não temos casa, e agora pretendem tirar nossa Sofia”, lamentou o pai.

Em entrevista ao iG , Genaro Ferreiro de Lima, membro do Conselho Tutelar de São Paulo, regional da Sé, ressaltou que essas famílias devem ir para os albergues oferecidos pela prefeitura, caso contrário, pode ser tirada a guarda dessas crianças. "Na praça eles não podem ficar com as crianças. Eles estão violando o direto delas, as expondo ao sol forte, chuva e ao sereno. Isso sem contar a violência das ruas. É inadmissível. Se eles insistirem em ficar na praça, seremos obrigados a tomar a guarda das crianças."

Márcio Apolinário, especial para o iG
Famílias sem-teto montam acampamento em praça no centro de São Paulo

A ajudante geral Aline Rodrigues, de 22 anos, ex-moradora do bairro Jardim Damaceno, na zona norte da cidade, contou que, antes de aderir ao movimento dos sem-teto, havia sido desabrigada por duas vezes. “O último barraco onde eu morei ficava dentro de um terreno que tinha dono, e tivemos que sair de lá. Por um lado foi bom, porque no terreno tinha muita cobra, escorpião e ratos. Mesmo estando em uma praça, aqui está melhor do que onde eu morava. Pelo menos conseguimos dormir sem a preocupação de ser atacado por algum bicho desses.”

Márcio Apolinário, especial para o iG
Sem-teto preparam o almoço em cozinha improvisada
Segundo as ajudantes de cozinha Ana de Almeida Ramos, de 50 anos, e Silvana Alves Bezerra, de 40, a prefeitura propôs que as famílias fossem para um albergue, mas essa opção não foi aceita por eles. “Eles querem esconder a gente. Preferimos ficar aqui, pois estamos em um lugar estratégico, em frente à Câmara Municipal. Aqui somos vistos, não tem quem passe por aqui e não veja nossa situação, e isso os pressiona”, argumentou Ana de Almeida.

“Não queremos nada de graça, aqui todo mundo trabalha, mas não recebe o suficiente para alugar uma casa. O que queremos é que a prefeitura construa residências populares, com preços acessíveis, mas como sabemos que essa possibilidade é pequena, propomos a ela que nos libere esses prédios abandonados”, explicou Silvana Alves.

Por volta das 11 horas, as famílias já preparavam três grandes panelas de macarrão com salsicha na cozinha improvisada, e tendas eram erguidas no canteiro da praça. Segundo a coordenadora da cozinha popular dos desabrigados, Maria das Graças Silva Santos, de 49 anos, esta não foi a primeira vez que as famílias precisam ocupar uma praça. “É sempre assim, já estamos até acostumados. Esta é a terceira vez que participo de uma reintegração de posse, como não tenho para onde ir, fico por aqui até que o movimento consiga algum avanço nas negociações com a prefeitura, ou tenhamos a orientação de ocuparmos outro prédio abandonado.”

Em nota a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) informou que dessas 540 famílias invasoras, 217 estão recebendo o Auxílio Aluguel, por conta da primeira invasão. "Esta já é a terceira ocupação do prédio, mas, ressaltamos, as famílias cadastradas estão sendo atendidas, pois a Secretaria efetuou a terceira renovação do auxílio aluguel em novembro. Além do atendimento de 129 famílias no Programa Parceria Social, todas serão atendidas pela CDHU no programa Minha Casa Minha Vida Entidades."

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