Famílias sem-teto acampam em frente à Câmara Municipal

Após reintegração de posse de prédio ocupado, famílias se juntaram às outras cerca de 450 pessoas que estão acampadas na calçada

Márcio Apolinário, especial para o iG |

As cerca de 1.200 pessoas, entre elas 353 crianças, retiradas do prédio da Avenida Ipiranga, região central de São Paulo, na manhã desta quinta-feira, acampam em frente à Câmara Municipal após protestarem contra a decisão judicial de reintegração de posse, cumprida hoje.

AE
Famílias são retiradas de prédio ocupado no centro de São Paulo

Segundo o coordenador do Frente de Luta por Moradia (FLM), Osmar Borges, essas famílias não têm para onde ir, e precisam que o problema seja resolvido com urgência. “A situação dessas pessoas é grave. Elas perderam o pouco que tinham. Agora precisamos concentrar nossas forças e chamar atenção para o problema de moradia na cidade. Não adianta a gente ficar só dentro de um prédio, porque seremos expulsos quantas vezes invadirmos. Dessa vez, vamos ficar aqui, na frente da Câmara, até que o prefeito venha nos atender e dar um posicionamento de verdade, com prazos. Essas pessoas não sabem para onde ir.”

AE
Jeani de Araújo é removida com sua filha Kethelyn, nascida há 14 dias
Durante a desocupação, muitas pessoas reclamavam da falta de assistência às famílias, e às crianças. Jeani de Araújo, de 33 anos, mãe da pequena Kethellyn, de apenas 14 dias, deu à luz sua filha no próprio prédio invadido. “As autoridades sabiam que eu estava grávida e estava morando aqui. Não tive assistência nenhuma, nem pelo fato de não ter onde morar, e nem por estar grávida.

Dona Luzia Brito Silva, de 69 anos, que trabalhava como chefe de cozinha no prédio ocupado, comentou que a tristeza é um sentimento comum em todas as pessoas que “moravam” ali. “Não sabemos para onde ir. Quando chegamos estávamos felizes, pois tínhamos um teto depois de muito tempo, agora não temos mais nada.”

O advogado Manoel Del Rio, do movimento FML, afirmou que a Justiça não avaliou a liminar que pedia a suspensão da reintegração de posse, antes de indeferi-la e devolvê-la. “Foi uma decisão que não levou em consideração nenhum aspecto social. Eles simplesmente se preocuparam com o lado do proprietário, que deixou esse prédio abandonado por tanto tempo. Se ele não quer saber do prédio, essas famílias querem. A Justiça deveria ter levado em consideração nossos argumentos”, criticou o advogado.

Segundo o major da Polícia Militar Fernando Antonio Melo, a remoção foi feita de maneira pacífica, mas a retirada foi lenta pois havia entre os sem-teto muitas crianças, idosos e gestantes. "A operação foi dividida em três etapas: primeiro reunimos as lideranças do movimento Frente de Luta por Moradia (FLM), para alinharmos como seria a reintegração, e não houvesse nenhuma ocorrência, nem tumulto; depois foram retiradas as crianças e idosos, na sequência o restante das pessoas; e por fim, fizemos a varredura do local, para sabermos se não ficou ninguém escondido lá dentro, e entregarmos o prédio aos proprietários."
AE
Mulher chora ao ter que deixar prédio invadido

Em frente à Câmara Municipal, as famílias se juntaram às outras cerca de 450 pessoas que estão acampadas na calçada, e reivindicam que o poder público atenda a demanda por moradia na cidade de São Paulo. De acordo a coordenadora de mobilização do FLM, Maria do Planalto, a prefeitura poderia desenvolver um projeto que disponibilizasse os prédios abandonados no centro da capital para moradia de baixa renda. “O centro é uma região que a classe média e alta não quer morar, não é interessante para eles, mas para a classe baixa é ótimo, porque fica mais fácil para irmos trabalhar.”

O prédio invadido e que estava abandonado pertence, segundo os invasores, à HM Engenharia, que faz parte do grupo Camargo Corrêa. Conforme nota da FLM, "no prédio, que estava abandonado abrigando ratos, baratas e lixo, se encontravam 1.200 pessoas e, desde a ocupação, tinha cheiro de limpeza e da comida que era preparada na cozinha coletiva no primeiro andar".

Outro lado

Em nota, Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) alegou que os integrantes da FLM não são os únicos que enfrentam problemas de moradia na cidade. Segundo o Plano Municipal de Habitação, atualmente em debate, há cerca de 800 mil famílias paulistanas vivendo sob algum tipo de inadequação, seja de posse legal dos seus imóveis, pagando aluguel excessivo em relação a sua renda ou morando em área de risco.

null"Para enfrentar essa situação, a Prefeitura de São Paulo desenvolve o maior programa de urbanização de favelas da América Latina, com cerca de 110 frentes de obra, que beneficiará, até 2012, aproximadamente 170 mil famílias. Para a promoção de moradia no centro de São Paulo, a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP) está desapropriando 53 prédios da região para construir cerca de 2.500 moradias. A concessão urbanística da Nova Luz, cujo projeto preliminar está em debate, prevê a construção de mais 3.000 moradias de interesse social também no centro", disse o Órgão em nota.

A Sehab informou também que, é importante dizer que parte considerável das famílias que ocupam os edifícios invadidos pela FLM já está recebendo atendimento com auxílio aluguel da Prefeitura e que a liderança da Frente participa do Conselho Municipal de Habitação, instância adequada para esse debate.

    Leia tudo sobre: sem-tetoprefeituraocupaçãoacampamento

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG