Famílias ainda se recuperam seis meses após mortes em deslizamento em SP

Suzélia Jorge Hanna conta como o dia 7 de julho do ano passado marcou sua vida. "O tempo ameniza, mas não cura", diz sobre morte de seu filho de apenas 3 anos

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Carolina Garcia/iG São Paulo
Suzélia Jorge Hanna com a filha Sabrina, de 13. "Meu coração segue apertado. Evito sua morte"
A rotina de quem trabalha e vive na avenida Alda, via que dá vista ao Morro dos Macacos, na divisa entre Diadema e São Paulo, não é mais a mesma de pouco mais de seis meses atrás. Segundo os moradores, o silêncio da região incomoda e não os deixa esquecer o dia 7 de julho do ano passado, quando parte da encosta cedeu matando Yohan Hanna de Jesus, de 3 anos, e a adolescente grávida Tamires Ferreira, de 17.

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No deslizamento, 10 casas ficaram soterradas e outras 20 foram interditadas após terem as estruturas comprometidas. A região é considerada de alto risco, mas no dia não havia chovido. As causas do acidente ainda não foram definidas, mas há fortes indícios que a tragédia tenha ocorrido após o mau gerenciamento das obras de contenção da encosta – realizadas na região desde 2010 pelo consórcio Blokos Passareli.

Os pais de Yohan Hanna, assim como outras 407 famílias que já foram retiradas do Morro dos Macacos, buscam um recomeço em sua nova casa no bairro Eldorado, próximo à encosta responsável pelos seus traumas e perdas. “O tempo ameniza, mas não cura a dor. Meu filho tinha uma vida inteira pela frente”, lamenta Suzélia Jorge Hanna, de 29, mãe de Yohan e outros quatro filhos.

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Ela ainda mantém um quarto separado com todas as roupas favoritas e fotos do filho morto. Na estante da sala, mesmo com uma grande oferta de porta-retratos, Suzélia logo explica que ali não tinha nenhuma de Yohan. "Não reconheci seu corpo no dia do acidente e ainda não fui ao cemitério. Não sei se vou aprender a lidar com isso um dia”.

AE
Suzélia e Fernando de Jesus, pais de Yohan, mostram foto do filho em julho de 2011
Com a aparência abatida e voz embargada ao comentar a morte do filho, Suzélia relembra com detalhes a manhã do acidente. Para ela, a tragédia poderia ter sido pior se não fosse uma enxaqueca. “Acordei cedo para tomar um remédio e logo voltei para cama. Meus filhos ficaram comigo no quarto, menos Yohan e Igor [o mais velho] ”, explica.

Sabrina, sua filha do meio, de 13 anos, era a responsável pelo café da manhã de Yohan. Ela viu o momento exato que o irmão foi soterrado, por volta das 10h30. “Ela já tinha tomado café, mas resolveu voltar para a cozinha e pegar iogurte na geladeira. Foi quando a terra o levou”, explica a menina.

Segundo Suzélia, o deslizamento só não afetou um cômodo da casa, o seu quarto. “Todos os outros [cômodos ] foram arrastados. Meu quarto ficou intacto porque não foi puxado pela laje, ainda era coberto com telhas”. Após o estrondo e com a escuridão dentro da casa já tomada pela terra, Suzélia gritou os nomes dos filhos que não estavam com ela. “Parecia uma eternidade. Gritava por Igor e Yohan. Eles não respondiam.”

Resgate

As equipes do Corpo de Bombeiros levaram cerca de 10 minutos para chegar. Para os moradores, diante da forte cena do deslizamento e desespero das famílias, não havia como esperar pelos bombeiros e muitos começaram as buscas por vítimas.

Carlinhos, mecânico conhecido na avenida Alda, disse ter salvado pelo menos três crianças. “Só via braços para fora da terra e, sem pensar, eu puxava. Até hoje me culpo por não ter encontrado Yohan, ele poderia estar vivo naquela hora”. Beneficiado pelo auxílio-moradia, o mecânico espera a conclusão das unidades habitacionais no bairro, com fim previsto para 2014. “Nunca vou esquecer o que aconteceu ali.”

Tragédia do Morro dos Macacos completou seis meses no último dia 7

Igor, de 16 anos, filho de Suzélia do seu primeiro casamento, foi um dos primeiros a ser encontrado. Ele dormia na sala quando a laje prendeu sua perna. “Foi um milagre. Uma caixa de som ficou entre a cama e a laje deixando um vão”, explica a mãe. Socorrido após conseguir gritar pedindo ajuda, Igor hoje já se recuperou e carrega pequenas cicatrizes do acidente.

Os trabalhos de resgate duraram até 16h30 do mesmo dia, quando o corpo de Yohan foi encontrado com a ajuda de cães farejadores. Suzélia conta que foi um processo muito longo e sofrido. “Não tinha muita informação. Oscilava entre esperança e conformidade. No fundo sabia que meu bebê estava morto. É duro uma mãe admitir isso.”

‘Fiquem despreocupados’

Além da família Hanna, outros moradores relataram ao iG que as obras de contenção sempre despertaram preocupação. Dias antes da tragédia, segundo eles, foi realizado um protesto no local pedindo a interrupção do trabalho das máquinas.

“Fomos até lá e explicamos que sentíamos a casa tremer e terra caindo. Apenas ouvi: ‘Fiquem despreocupados’. Fomos tratados como ignorantes. Não precisava ser um especialista para ver que aquilo estava errado”, disse Suzélia.

O Ministério Público investiga se houve negligencia da prefeitura , que começou obras na área sem retirar os moradores. O inquérito civil foi instaurado pelo promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo, Maurício Antônio Ribeiro Lopes, e ainda está em andamento. Foram enviados dois ofícios para as construtoras Passareli e Blokos Engenharia e elas têm até o final desta semana para se posicionar, segundo o órgão.

Áreas de risco

A comunidade do Morro dos Macacos foi mapeada como área de risco pelo estudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e recebeu classificação de risco R4, que significa alto risco de deslizamento. Conheça outras áreas de risco em São Paulo e região metropolitana:
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- 'Espero pelo pior e posso perder tudo de novo', diz moradora de área de risco
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Segundo a Secretaria Municipal de Habitação, as obras na comunidade se encontram em fase final. “No local do acidente, está sendo feita a estabilização da encosta – obras de patamarização, instalação de chumbadores e drenagem”, diz em nota. Além disso, a área da encosta do morro receberá um parque linear, que se encontra em fase de projeto. 

Desde o fim do anos do ano passado, o iG acompanha os projetos de combate às enchentes feitos pela Prefeitura de São Paulo, durante a atual gestão do prefeito Gilberto Kassab. Segundo o programa de metas da cidade, entre as 13 medidas anunciadas - como drenagens e limpeza de córregos -, apenas uma foi cumprida até agora : o monitoramento eletrônico de 16 piscinões.

Entenda: Com obras inacabadas, São Paulo espera novas enchentes

As metas da agenda de 2012, até a publicação desta reportagem, não foram atualizadas com os números de janeiro. Porém, os números conclusivos de dezembro do ano passado não mudaram muito e continuam alarmantes. O documento mostra que, dos 230 km previstos de córrego para serem limpos no ano de 2011, até o início de dezembro, apenas 92,38 sofreram intervenções. No final do mesmo mês, o número foi atualizado para 124,9 km - apenas 54,2% do prometido.

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