Falha humana é principal causa em 90% dos atropelamentos em São Paulo

Acidentes ocorrem seja por imprudência dos motoristas ou dos pedestres. Vítimas contam como sobreviveram e como lidam com a morte

Carolina Garcia, iG São Paulo |

O índice de mortes de pedestres em São Paulo é alto e exige atenção das autoridades de trânsito. Segundo a Companhia de Engenharia e Tráfego (CET), 90% das ocorrências tem como principal causa o fator humano. A imprudência, presente tanto no volante como nas ruas , tem sido fundamental para manter São Paulo como uma das cidades mais perigosas do País no trânsito. De um lado o pedestre se arrisca atravessando fora da faixa e "apertando o passo" nas ruas, e do outro o motorista, que simplesmente ignora a preferência do pedestre.

A combinação tem sido mortal, dizem especialistas . O iG escutou algumas vítimas do trânsito de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Os relatos dos entrevistados - tanto na posição de vítima como na de infrator - são similares. 'A passarela estava muito longe' ou 'eu estava indo logo ali' são desculpas utilizadas pelos pedestres. Do outro lado, 'eles são muito devagar' ou 'parecem que são donos da rua' são as reclamações de alguns motoristas que justificam a direção ofensiva.

Guerra civil

"A convivência entre carros e pessoas em São Paulo é tão perigosa e devastadora que toda vez que chego ao meu destino, me considero um sobrevivente. Virou uma guerra civil", diz o professor de dança de salão Luy Romero, que sofreu uma grande perda neste ano.

Arquivo Pessoal
Warley durante apresentação de dança com a Companhia Ally Hauss
Warley de Souza, de 37 anos, companheiro de Luy havia 6 anos e também bailarino, foi atropelado, no dia 9 de abril, às 22h40, por carros que disputavam um racha no cruzamento da rua Capitão Pacheco e Chaves com a avenida Dianópolis, no bairro da Vila Prudente, em São Paulo.

Luy conta que o companheiro trabalhava em Santo André e, no momento do acidente, estava a poucos metros de casa. "Conversava com ele pelo celular. Ele disse que, por medo de ser assaltado, deveríamos desligar. Quando disse ‘tchau’ , só pude ouvir a gritaria". No momento, o bailarino, que atravessava corretamente pela faixa, havia sido atingido por um carro em alta velocidade e lançado a cinco metros do solo. Warley caiu com a cabeça no asfalto, lesão que o deixou em coma por dois meses.

A dupla, conhecida como Luy e Ally, liderava a Companhia de Dança Ally Hauss, nome artístico da vítima. Juntos se apresentavam pelo País com números de dança indiana e neotribal. Com o acidente, Luy passou a assumir compromissos do grupo pensando que "um dia ele vai retornar para assumir tudo, como deixou". Segundo ele, a total recuperação de Warley, bailarino há 19 anos, sempre foi considerada "sonho" por médicos da UTI, do Hospital Heliópolis, onde o companheiro seguia internado.

"Minha rotina mudou completamente. Tudo o que faço agora é por ele, pensando em como recebê-lo. Se for preciso ensiná-lo a dançar outra vez, eu faço", contou emocionado. O grupo já estava alcançando os palcos internacionais - com apresentações agendadas na África, Estados Unidos e Chile.

"Seria um salto em nossa carreira. A companhia está parada, todos esperamos por ele". Mas a espera acabou. No último contato do iG com Luy, com traumatismo craniano e infecções adquiridas em seu tempo internado, o professor não resistiu e morreu dia 22. “O sonho da academia não irá morrer, nenhum agressor vai me tirar isso. Sem escolha, seguiremos sem ele”.

Arquivo Pessoal
"Sem escolha, seguiremos sem ele", diz Luy Romero. Ele e Warley estavam juntos havia 6 anos

Sobreviventes

A analista de Recursos Humanos Tânia Mara Salini enfrentou aos 17 anos o "maior susto de sua vida", segundo ela. Hoje, sete anos após o acidente, Tânia ainda possui a cicatriz que não a deixa esquecer o dia em que ela resolveu atravessar fora da faixa de pedestres, em Jacareí, cidade do interior de São Paulo.

Arquivo Pessoal
Embora grave, acidente não mudou postura de Tânia Mara ao atravessar ruas
Em março de 2004, por volta das 17h, Tânia seguia a pé pela rodovia Nilo Máximo, estrada que segue à cidade de Santa Branca, para buscar o primo na escola. Ela conta que por ser horário de pico, por volta das 17h, o excesso de veículos possibilitava uma travessia "segura". Quando ameaçava atravessar, um caminhoneiro decidiu “ajudá-la” fazendo sinal com o braço indicando que ela poderia cruzar a via sem medo. Ela confiou. A visão de uma Kombi vindo em sua direção, no outro sentido da rodovia, é a ultima imagem que ela se lembra.

"Confiei nele, pensando que ele tinha uma visão melhor da pista. Olhei para o lado e vi o carro. Só deu tempo de fechar os olhos e esperar". Para ela, a faixa de pedestre não era uma opção já que "estava muito longe, a uns 500 metros dali". A ousadia rendeu à analista um ombro e cotovelo fraturados. Ao todo, recebeu seis pinos no braço direito, nove pontos no ombro e dez no cotovelo.

Mesmo depois de um longo processo de recuperação, com sessões de fisioterapia e sequelas, o trauma de atravessar fora da faixa durou seis meses. "É triste, confesso que não aprendi. Cheguei a ter medo de fazer isso novamente, passava perto da rua e me arrepiava. Só que isso durou pouco, ainda abuso", confessa.

Cinco meses em cadeira de rodas

Da capital mineira, o encarregado de faturamentos, Evandro Alves dos Santos, de 29 anos, explicou à reportagem do iG como quase perdeu a vida "ganhando alguns minutos" ao atravessar a BR-040, rodovia que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro.

Ao sair do trabalho, no dia 2 de setembro de 1999, Evandro diz que viu o carro em alta velocidade, mas que "calculou mal" o tempo que levaria para cruzar a rodovia. "Não deu tempo, caí ali mesmo", conta explicando que competir com um carro que trafegava a 120km por hora não foi muito sábio.

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Evandro com sua filha e esposa. Elas são "os motivos para mudar hábitos e não correr mais riscos"

"A gente acha que consegue calcular quanto tempo levamos para passar, mas não dá". Evandro teve fratura exposta nas duas pernas - quebrou o joelho esquerdo, tíbia e tornozelo direito.

Após duas cirurgias, foram necessários cinco meses na cadeira de rodas para total recuperação. Em Belo Horizonte, segundo ele, não há respeito com os não motorizados, pedestres ou ciclistas. "Aqui [onde não há semáforos] o pedestre fica esperando a boa vontade dos motoristas".

Após 12 anos do acidente, Evandro conta que, dentro de um carro, procura ser sensato. "Dou prioridade, porque sei que as pessoas são falhas, como eu já fui. Prefiro chegar atrasado do que correr novos riscos", afirma. Segundo ele, atravessar fora da faixa “nunca mais”.

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Evandro mostra marcas na pernas após ser atingido por um carro a 120km/h
"Sinal aberto não é sinônimo de segurança"

A ausência de atenção no trânsito e a falta de gentileza complicam o ambiente onde carros e pedestres interagem. É o que pensa a estudante de produção cênica, Taisa Esther Echterhoff, de 19 anos. Para ela, estar dentro da lei não significa ficar segura ao caminhar nas ruas de Curitiba, no Paraná. “Aqui sinal aberto não é sinônimo de segurança, não dá para confiar mesmo”, enfatiza.

A estudante conta que na autoescola, quando participava do processo para conseguir sua habilitação, já era alertada pelo instrutor a ter cuidado com certos cruzamentos, onde veículos motorizados constantemente ‘furam’ o semáforo.

O cruzamento da rua Raul Pompéia com João Dembinski, no bairro Cidade Industrial, apontado como perigoso, ficou marcado para a estudante. "O semáforo estava verde para mim, sem pensar eu fui. Um carro veio em alta velocidade e me pegou de raspão", conta Taisa relatando que, mesmo desviando, o carro atingiu seu cotovelo.

"Com o choque, dei um giro, perdi o tênis e saí cambaleando. Ele nem parou para ver se eu estava bem. Depois que me atingiu, acelerou mais ainda para fugir", conta. Após o episódio, ela diz ser outra pessoa ao entrar em seu carro. "Há o desafio em lidar com os pedestres, mas agora sou mais cautelosa. Cuido de mim e dos outros".

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