'Estamos vivos. A imagem se reconstrói', diz professor da Unesp

Gaetti Jr. escapou da morte quando teve a casa invadida por uma aluna. Ela o acusa de estupro. Ele nega e fala das consequências

Lecticia Maggi, enviada a Ilha Solteira |

Elerson Gaetti Jardim Jr. formou-se em Odontologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 1990, na cidade de Araçatuba, interior de São Paulo. Desde então, diz ao iG , sonhava em ser professor da instituição. Pós-doutor em ciências biológicas pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista na área de microbiologia, tornou-se professor titular da Unesp em 2010. “Era a glória.” A comemoração foi curta. Neste mesmo ano, uma aluna o acusa de utilizar-se da sua posição para cometer os mais variados tipos de abusos, incluindo ameaça e estupro.

Isso por conta de supostas fotos - em que ela aparecia de lingerie - que teriam ido parar nas mãos do professor que, segundo a estudante, ele se recusava a devolvê-las e as utilizava para chantageá-la.

Na manhã do dia 14 de março, a cirurgiã dentista e aluna de mestrado Rosângela Conceição Mioti de Souza, de 33 anos, invadiu a casa de Jardim Jr., em Ilha Solteira, com uma pistola 380 e 12 balas. Estava determinada a matá-lo. “Queria me vingar de tudo o que ele me fez. Fiquei machucada por meses, tive cicatrizes”, afirma ela. “Ele deixava bem claro: ‘na posição em que estou hoje, ninguém faz nada comigo’. Ele é professor titular, respeitado.”

Contra o professor, não há nada provado, nenhum indício sequer. Rosângela diz ter sido abusada de fevereiro a dezembro de 2010, mas só realizou uma denúncia contra Jr. na Delegacia da Mulher de Araçatuba em janeiro deste ano. E nunca fez exame de corpo de delito, que poderia comprovar a suposta agressão.

O caso é investigado pela delegada Luciana Pistori Frascino, que já ouviu testemunhas e solicitou perícia nos computadores de Jr., mas ainda sem data para ficar pronta.

O professor está afastado da universidade por 90 dias, até a conclusão de uma sindicância interna. Antes reservado, Jr. agora afirma que prefere se defender. Nega-se a tirar fotos. Não quer ter a imagem “eternizada” quando a história, espera ele, for esquecida.

Da sala de sua casa, onde sua empregada foi feita refém por mais de 3 horas por Rosângela, ele conversou com exclusividade com a reportagem do iG e contou sua versão dos acontecimentos. Na maior parte do tempo, mostra-se perplexo e diz desconhecer os motivos que levaram a aluna a acusá-lo e querer matá-lo.

Quando conheceu Rosângela

“Dei algumas aulas a convite de uma colega na faculdade em que a Rosângela se graduou (Funec). Quando ela decidiu fazer pós, me procurou porque se lembrava de mim. Se tivesse qualquer outro professor, poderia ter procurado. Ela passou na prova, entregou a documentação, mas o currículo não foi aceito. Então, de fevereiro ao final de julho de 2010, o meu vínculo com ela era basicamente por email. Ela apresentava um ou outro trabalho em congresso. (...) Em agosto de 2010, ela se matriculou e eu fiquei como co-orientador. Para toda a aparte acadêmica ela tinha outro orientador.”

Aulas e relacionamento entre os alunos

“Ela fez uma disciplina comigo com mais seis ou sete alunos. Tínhamos um relacionamento, até o ultimo dia, extremamente amigável, mas não existiam confidências ou amizades diferenciadas, de forma alguma. O ambiente era bom com todos, tanto que os alunos entregaram uma carta dizendo que não tinham nada do que reclamar. Os funcionários se prontificaram a atuar como testemunhas se preciso. A história chocou o laboratório de microbiologia. Ninguém que conheceu Rosângela imaginava que pudesse fazer algo desse tipo. Todo mundo ali estranhou a denúncia porque ela ficava muito menos tempo que os outros alunos na universidade.”

Fotos comprometedoras no pen drive

“Todo aluno de pós ou tem notebook ou pen drive. Se tem pen drive, a gente salva o trabalho nele ou manda por e-mail. Mas nessas reuniões nunca sou só eu e a pessoa, até porque eu não tenho tempo. Quase sempre havia dois ou três alunos juntos. Isso das fotos seminua, se ela tem ou não, eu desconheço.”

Supostos estupros na sala do professor

“Às vezes, tenho até que pedir para os alunos de fora diminuírem a conversa, que me atrapalha para trabalhar. Na minha sala tem um freezer com três mil amostras e toda hora eles têm de entrar para pegar. A política é de não deixar a sala fechada (...) Ela alega que os estupros aconteceram porque, se ela não se submetesse a eles, eu mostraria para o marido as fotos que ela tirou? É absurdo, nada disso existiu. A pessoa não tem coragem de contar para o marido que está sendo abusada, mas tem coragem de pegar uma pistola 380 com 12 balas, uma já na agulha, e entrar na minha casa?”

E-mails e motivos

“Um dia, ela mandou uma mensagem do tipo: ‘Professor, não consigo traduzir em palavras o carinho por você’. Minha esposa leu e perguntou quem era, disse que era uma aluna que estava começando o mestrado e estava encantada com a instituição. Em momento algum, ela quis largar aquilo ali. Das 91 participações em congressos que tem, 85 foram com a gente. Tenho e-mail dela: ‘obrigada, professor, por poder participar de algo tão relevante’. Alguém que estaria sendo estuprada jamais enviaria um e-mail assim. Não sei se algum dia ela teve ou deixou de ter desejo para comigo, mas não existe absolutamente nenhum carinho pessoal. Dr. Mauro (advogado de Jr.) tem uma opinião mais firme de amor, paixão não correspondida, levando ao ódio e desembocando na tragédia shakespeariana. É Romeu e Julieta, só que se esqueceram de avisar o Romeu, porque a minha Julieta é outra.”

Exposição e reação pública

“A instituição é muito sóbria, procura não se expor, dizem que é algo que está sendo avaliado, mas eu como criatura humana fui totalmente exposto. Tem uma professora da minha filhinha de dois anos que estava supercontente que filha dela seria minha aluna em Araçatuba e sempre falava disso com a minha mulher: ‘Quando será que a minha filha vai conhecer o seu marido?’. Hoje, mal a cumprimenta. Como uma filha sua vai ter aula com um indivíduo suspeito de estupro? Você destrói alguém.”

Retomada

“Não quero prejudicar ninguém. Minha esposa está viva, eu estou vivo, minha filha está viva; a imagem, se reconstrói. Só queria poder tomar água tranquilo em casa. Se disser que já vou me sentir bem em entrar em uma sala de aula, não vou não. Sentiria a pressão de uma menina de 17 anos olhando para um professor que um dia foi suspeito disso. Mas a gente trabalha e deixa para trás.”

Consequências

“Depois da sindicância vou pedir licença, existe todo um lado emocional que tenho que restabelecer. Dos 93 kg que tinha, estou com 79 kg. Falo que tudo isso teve quatro consequências principais: ganhei dois amigos, porque hoje já nem os tenho somente como advogados; o relacionamento com a minha esposa melhorou muito, porque você precisa de alguém para te colocar no centro; e, embora acreditasse em Deus, nunca fui de frequentar igreja e agora voltei e me sinto muito melhor. Brinco que hoje a medicação para emagrecer é proibida, então, a 4ª coisa boa é a perda de peso, que eu estava mesmo precisando.”

Medo

“A moça não se entregou, ela foi contida. Em momento algum se arrependeu; se arrependeu, sim, de não ter matado. Ela sabe onde moro em Araçatuba e que fico de sábado e domingo em Ilha Solteira. Para mim, o risco de colocá-la em liberdade é amanhã ela tentar o que não conseguiu.”

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