Em São Paulo, 19 pessoas são atropeladas por dia

Warley, bailarino havia 19 anos, teve a vida interrompida após ser atingido por um carro que disputava um racha

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Ao atravessar um cruzamento, no bairro da Vila Prudente, o professor de dança, Warley de Souza, de 37 anos, foi atropelado por um carro que disputava um racha na região. Lançado a 5 metros, ele caiu com a cabeça direto no asfalto. Com sério traumatismo craniano, Warley seguiu em coma por dois meses. Com quadro de infecções generalizadas, o professor morreu no último dia 22. Ele é uma das 19 pessoas que são atropeladas por dia na cidade de São Paulo.

Arquivo Pessoal
Warley ficou dois meses em coma, mas não resistiu às infecções e morreu no último dia 22
Histórias como a de Warley continuam se repetindo . Apenas no período de 2010, 7.007 atropelamentos foram relatados causando a morte de 630 pedestres na capital. Número corresponde a 46% das 1.537 mortes de acidentes de trânsito. Os dados são da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Além disso, segundo o estudo, 90% das ocorrências com pedestres tem como principal causa o fator humano – ações dos condutores e pedestres. Algo que poderia ser evitado, conta a psicóloga e neuropsicanalista, Eliana Nogueira do Vale. Para ela, a cidade de São Paulo atingiu um grave nível de inconsciência com a própria vida.

“A individualidade e a independência com as regras afetam diretamente o ambiente que é dividido entre pedestres e condutores”, explica. Além disso, segundo ela, o fato de possuir uma máquina muda a postura dos motorizados. “A pessoa sente que tem poder aumentado por possuir um carro ou uma moto. Ele geralmente esquece que o pedestre se encontra em situação de inferioridade”.

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Pedestres durante a campanha da CET na avenida Paulista, primeira região a receber intervenção

Eliana explica que o senso de grupo poderia mudar a partir do momento em que o bolso do motorista é afetado. Uma campanha ideal, visando a mudanças de hábitos entre motoristas e pedestres, engloba todas as vertentes, como a educacional, mas também a parte repressiva. “Multas altas mudam postura. Essa poderia ser uma solução rápida”, conclui.

Segundo a CET, tal avanço na fiscalização ainda é estudado. O órgão afirmou que as multas serão aplicadas na terceira fase da campanha pela vida do pedestre, ainda sem início previsto. Porém, há especulações de que multas sejam aplicadas a partir de julho deste ano.

Segundo o Código de Trânsito nacional vigente, deixar de dar passagem ao pedestre ou a veículos não motorizados é infração gravíssima. Infratores são multados em R$ 191,54 e perdem sete pontos na carteira de habilitação. Se o pedestre estiver atravessando uma rua transversal em relação ao carro, a multa é de R$ 127,69.

Programa de Proteção ao Pedestre

Diante deste cenário na capital paulista, há pouco mais de um mês, a prefeitura de São Paulo lançou a campanha de respeito à faixa de pedestres, a "Dê preferência à vida". A meta é reduzir entre 40% e 50% os atropelamentos e mortes na cidade até 2012. Pouco tempo após o início da campanha, entre os dias 20 e 24 de maio, a CET divulgou os primeiros resultados de sua força-tarefa para a reeducação dos pedestres e condutores.

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Orientadores atuam nos cruzamentos de São Paulo para ajudar na travessia dos pedestres

A partir da contagem de 772 veículos, em quatro cruzamentos da cidade o órgão registrou uma "ligeira queda no desrespeito". Antes do programa, 89,6% dos veículos não respeitavam o direito de passagem do pedestre. Na última entrevista, o número caiu para 86,1%.

Já no cruzamento da rua Haddock Lobo com a rua Luís Coelho, por exemplo, o desrespeito ao pedestre aumentou - passando de 91,2% a 93,7%. Especialistas afirmam que o grande questionamento desta campanha é sobre quão efetiva ela será quando atua com conscientização sem repressão, com aplicações de multa.

Zonas de Máxima Proteção

A primeira fase da campanha se baseou na criação de oito Zonas de Máxima Proteção ao Pedestre (ZMPPs) - avenida Paulista, Expansão, Santana, Brás, Penha, Lapa, Santo Amaro e Pinheiros. Embora representem apenas 1% do município de São Paulo, a CET acredita que essas regiões concentram aproximadamente 11% de todas as ocorrências.

A primeira região a receber o programa foi a avenida Paulista, na região central da cidade. Nesta área, cerca de 100 agentes monitoram 14 quilômetros quadrados de vias com cerca de 300 cruzamentos com semáforos - sendo 76 com travessia compartilhada, onde o pedestre tem a preferência.

Sinal de Vida

Na edição do Diário Oficial do 27 de maio, foi publicada a recomendação para o pedestre fazer um sinal com o braço para solicitar a parada dos veículos - sempre que a distância entre as partes for de até 50 metros. No entanto, segundo a publicação, deve-se levar em conta "a visibilidade, distância e velocidade" dos veículos, para evitar acidentes.

Conhecida como "Sinal de Vida", tal cena é comum em Brasília desde abril de 1997. Para o diretor de Educação no Trânsito do Detran do Distrito Federal, Marcelo Granja, tal ação foi determinante para alcançar o respeito aos pedestres nas vias da capital federal. "Aqui todos são iguais perante o trânsito e isso é representado pelo gesto", explica.

Mãozinhas

Já na segunda fase do programa, implantada no dia 6 de junho, surgiram as "mãozinhas". As placas (que imitam uma mão gigante) são seguradas pelos “orientadores de travessia” - colocados nas ruas para orientar pedestres em cruzamentos críticos durante seis horas de segunda a sexta-feira. Atualmente, há 96 auxiliares atuando na capital. Segundo a Prefeitura de São Paulo, os orientadores, na maioria moradores de rua, participam do programa por três meses e recebem o auxílio mensal de R$ 572,25.

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