Em 1988, fiquei embaixo d'água como as pessoas de 2011

Em 1988, minha mãe sofreu com alagamentos em Franco da Rocha. Ela mudou para um lugar alto, em Caieiras. Em 2011, continua ilhada

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

Futura Press
Moradores só conseguem se deslocar de bote pela cidade de Franco da Rocha

Na manhã desta quarta-feira, minha mãe escreveu na página dela no Facebook. “Mais um dia ilhadas. Agora está pior. Estão abrindo as comportas da represa em Mairiporã. Minha solidariedade ao povo de Franco da Rocha e região”. Liguei para ela e a gente, bem, a gente riu aquele riso irônico de quem está cansado de ver a mesma história. É como piada ruim, mas repetida. De tanto ouvir, uma hora você acha graça. De novo, Franco da Rocha está alagada.

Minha mãe mora em Caieiras, no alto da montanha, bem longe do rio. Eu moro em São Paulo. Mas, há 23 anos, eu, minha mãe, meu pai e minha irmã morávamos em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, junto com os meus avós paternos - meu avô morreu, mas minha avó ainda mora na cidade. Eu tinha seis anos e essa talvez seja uma das poucas memórias que eu tenho daquele janeiro de 1988. Eu e minha mãe na janela, vendo a água subir. Primeiro, o rio transbordou. Depois, invadiu o quintal da minha avó. Aos poucos, tomou o porão, que meu avô tinha construído justamente para conter a água. Então a água tomou todo o porão e continuou subindo. Depois entrou no rancho, onde meu avô guardava as ferramentas que ele usava para cuidar do jardim, subiu a escada e foi parar na cozinha da minha avó. Entre o nível do rio e a cozinha, a água subira cinco metros em poucas horas. O rio que corta a cidade é ligado à represa de Mairiporã. Naquele ano, tal como em 2011, eles também abriram as comportas.

Lembro até hoje de pegar uma canequinha, tentando ajudar, tentando tirar água da cozinha, tirar móveis do lugar, enquanto meu pai e meu avô se exauriam nos balde e minha avó e minha mãe se esgotavam no rodo. Criança é meio besta mesmo e, nesta minha tentativa um tanto destrambelhada, eu tomei uma bronca e um banho de álcool da minha mãe. Minha mãe comprou uns 10 litros no mercado e me submergiu neles, para evitar infecção. A classe C, em 1988, não tinha nenhum glamour.

Naquele ano, minha mãe e meu pai decidiram que nunca, nunca mais iam morar perto de um rio. Até porque o pior da enchente vem depois - e, nesse caso, eu também estou falando do fogão enlameado e da geladeira fedorenta, mas isso é o de menos. Naquele ano, minha irmã tinha pouco mais de 10 meses de idade. A poeira fétida, que fica quando a água vai embora, deixou a minha irmã com problemas respiratórios durante 15 anos. Ela desenvolveu bronquite alérgica.

Em 1988, meu pai ganhava muito pouco e minha mãe estava desempregada. Morar com os meus avós era a única solução para juntar algum dinheiro e dar entrada na casa própria. Depois da enchente, meu avô fez um sistema para evitar que a água entrasse em casa, que envolvia muretas e canaletas. Durante boa parte daquele ano de 1988, todas as casas dos vizinhos fizeram muretas no portão. Era feio, mas era útil. Como meu avô abominava coisas feias, ele fez o sistema daquele jeito todo cheio de caminhos _mas funcinou e não ficou parecendo um remendo. Meu pais ajudaram e, em paralelo, começaram a trabalhar muito para juntar mais dinheiro e mudar de lá o quanto antes. Meu pai começou a fazer inúmeras horas extras (eu não tenho memórias dele durante aquele ano de 1988 - ele trabalhava quase todo final de semana, minha mãe me contou muitos anos depois) e minha mãe, professora, foi fazer bicos como manicure. Objetivo: no verão de 1989, a gente estaria morando muito longe do rio.

AE
Centro de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, permanece alagado nesta manhã

Deu certo. No dia 17 de janeiro de 1989, nós nos mudávamos para o alto de uma floresta de eucaliptos, bem longe do rio, no alto da montanha, em Caieiras. Não tínhamos muita coisa em casa. Tínhamos geladeira, fogão e mesa, mas estávamos morando longe da água. Dava para ver o rio, mas o rio nunca chegaria lá em casa. Os anos passaram e, de fato, a água nunca chegou em casa. Nas piores enchentes, tomou toda a área de várzea - até este ano. Em 2011, a água tomou a área de várzea e invadiu a pista. Minha mãe não consegue sair do alto do morro porque a estrada, lá embaixo, virou um piscinão. Por isso que minha mãe está ilhada.

Já em Franco da Rocha a situação mudou muito pouco. Os anos passaram. A cidade elegeu prefeitos do PT, do PTB, do PSDB, do DEM. O governo do Estado, nestes 23 anos, passou pelo PMDB de Quércia, o PTB de Fleury, o PSDB de Covas, Alckmin, Serra. Seria injusto dizer que nada foi feito. Foi. Durante alguns anos, os alagamentos de Franco da Rocha diminuíram muito. O rio continuou a subir, mas a cidade nunca mais alagou, como em 1988. Era muito mais controlado, e nunca como nesta semana. Meus tios, minhas tias, minha avó desistiram dos planos de mudar de Franco da Rocha. Afinal, é difícil deixar um lugar onde você morou a vida inteira. E, além disso, não é todo mundo que, como meus pais, consegue juntar dinheiro para mudar de casa.

Até que neste ano a situação voltou ao que era há 23 anos. Ontem, da TV aqui na redação do iG, eu via as imagens do Jornal Nacional. Hoje, eu vi as imagens da TV iG . A igreja onde meus avós se casaram, meus tios se casaram, onde foi a missa de sétimo dia do meu avô estava alagada. Na avenida que cruza o bairro da minha tia, as pessoas só se locomovem de bote. Minhas primas não conseguem sair de casa para trabalhar.

De fato, obras contra enchentes não ficam prontas em 24 horas. De fato, as pessoas poderiam morar em lugares distantes dos rios (embora eu não saiba exatamente como você pode transferir uma cidade inteira de lugar, como é o caso de Franco da Rocha). E, de fato, é difícil de engolir que 2011 seja um repeteco de 1988. Não há obra que resolva, para sempre, um problema. Seria a mesma coisa que esperar de um computador rodando Windows 95 uma conexão rápida à Internet. E, por fim, se a moda agora é citar Guimarães Rosa, então fica a dica: Não dá para ficar esperando que o nada vire alguma coisa.

    Leia tudo sobre: Franco da RochaCaieirasenchentes

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG