Ele não morreu como ladrão. Foi mais um inocente

Mulher de motoboy assassinado em São Paulo defende que o marido nunca teve arma e não era bandido

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Lecticia Maggi, iG São Paulo
Flaviana segura fotos do marido e diz que vai mostrar ao filho que o pai não foi bandido
A vida da promotora de vendas Flaviana Cosmo Oliveira é precoce. Ainda adolescente, ela teve um filho e, agora, aos 22 anos já é viúva. O motoboy Alexandro Menezes de Oliveira, de 25 anos, com quem estava há 5 anos e de quem tem um filho de 3 anos, foi assassinado na madrugada do último sábado. Policiais militares são acusados pelo crime.

Para ela, “a ficha ainda não caiu”. “Parece que a qualquer momento ele vai entrar pela porta. É difícil”, diz. Na sexta-feira, Flaviana ligou para o marido pedindo que a buscasse na casa da mãe dela depois que voltasse da pizzaria, onde trabalhava. Pouco depois das 3h, porém, ela acordou com os gritos da sogra. “Achei que tivesse acontecido alguma coisa, que o Alexandre tinha caído de moto, mas não isso”, afirma.

Enquanto olha o filho, que corre pela casa, Flaviana lamenta toda a história que poderia ser vivida e não vai ser. “Todos os sonhos que ele tinha, a vontade de dar uma vida digna para o filho, foi tudo por água abaixo”. Segundo ela, a moto que Santos usava na sexta-feira foi comprada no nome dela e estava sendo paga a prestações.

Para esta terça-feira, estava marcada também a colocação da placa. A falta dela foi o motivo que originou a abordagem, que culminou em espancamento e morte. Policiais militares dizem que o jovem transitava em alta velocidade com a moto sem placa e pela contra mão.

A mãe de Santos, Maria Aparecida Menezes, 43 anos, conversou com o iG e disse que viu o filho ser espancado por cerca de 30 minutos em frente a própria casa e acrescentou que os policiais se mantiveram indiferentes aos seus apelos. “Eu me ajoelhei, tentei pegar na mão deles e implorava para pararem de bater no meu filho. Eles só diziam: 'fica quieta que você pode ser presa'. Eu chorava, gritava, chorava...”, disse.

Flaviana diz que é ainda mais difícil saber que o marido foi morto nessas condições. “Quem fez isso não deve ter mãe ou filho. No IML vi o corpo dele e achei que os olhos estavam roxos porque a mãe dele doou as córneas, por causa da retirada. Mas não, eram de levar porrada mesmo”, indigna-se.

O filho do casal sabe apenas que “o pai foi para o céu”, mas não quer acreditar. “Ele só fala que o pai está trabalhando”, conta ela, que pretende revelar a verdade quando o garoto estiver mais velho. “Quero que ele saiba que o pai dele não morreu armado, como vagabundo ou ladrão, morreu como mais um inocente”. 

"Homicídio doloso"

O governador de São Paulo, Alberto Goldman, afirmou na segunda-feira que a morte do motoboy  "é um fato inaceitável" que mostra o "despreparo" dos policiais. O governador se disse "absolutamente constrangido e revoltado" com o episódio.

"Trinta dias depois você tem um segundo caso, o qual mostra o despreparo daqueles PMs. Mostra uma atitude que é criminosa. Simplesmente dizer que aquilo é um homicídio culposo não. É homicídio doloso de responsabilidade total", disse ele, que prometeu investigação rigorosa do caso.

Diante da gravidade do caso, o secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, determinou o afastamento de dois comandantes do batalhão envolvidos na morte sob o argumento de que eles não tiveram o controle da tropa. Foram afastados o tenente-coronel Gerson Lima de Miranda, do 22º Batalhão, e o capitão Alexander Gomes Bento, da terceira companhia do 22º BPM. A secretaria determinou ainda abertura de processo administrativo para averiguar o crime de omissão.

Já o porta-voz da Polícia Militar, Marcelo Lacerda Soffner, disse em entrevista ao iG que a morte de Alexandre Santos é um caso isolado em meio ao aumento de óbitos em confrontos da PM registrado no Estado no último ano. Ele afirmou ainda que a PM lamenta “profundamente” o caso e está tomando as providências necessárias - os quatro policiais suspeitos foram presos em flagrante e estão à disposição da Justiça no presídio militar Romão Gomes.

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